Como série 'Heartstopper' faz sucesso desafiando limites da representatividade LGBTQIA+ na TV

Crédito, Netflix
- Author, Emma Saunders
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 5 min
Os fãs da popular série de quadrinhos LGBTQIA+ de Alice Oseman, Heartstopper, provavelmente esperavam há meses pela sua adaptação para TV, que chegou ao Netflix em 22 de abril.
Desde então, a série parece ter caído no gosto do público. Foi o programa de TV mais comentado no Twitter no final de semana de estreia, segundo monitoramento da revista Variety.
No site Rotten Tomatoes, atualmente é aprovada por 100% dos criticos e 98% dos espectadores.
Heartstopper conta a história de dois adolescentes, Charlie (Joe Locke) e Nick (Kit Connor), que se apaixonam um pelo outro em uma escola do ensino médio do Reino Unido, e seus amigos, Elle (Yasmin Finney), Tao (William Gao) e Isaac (Tobie Donovan).
Charlie e Nick sofrem bullying e homofobia dos amigos de Nick. Elle, uma adolescente transgênero, mudou-se recentemente da escola para meninos, onde todos seus amigos estão, para a equivalente para meninas, depois de também ser alvo de provocações cruéis.
Finney conquistou muitos seguidores no TikTok, postando sobre suas experiências de ser uma jovem transgênero negra no Reino Unido, enfrentando dificuldades na escola.
"Para mim, a escola era a mesma coisa. Sempre houve [essas] vozes de masculinidade tóxica que claramente não são educadas o suficiente. E mesmo que sejam, elas só querem... rir, mas há um ponto em que se cruza uma linha, e acho que é isso que Heartstopper destaca. Isso acontece todos os dias no ensino médio", diz Finney.
"Na verdade, comecei o TikTok quando estava na minha segunda escola de ensino médio depois que saí da primeira porque sofri bullying. O que descobri é que as pessoas que me intimidaram no ensino médio não estão fazendo muita coisa útil com suas vidas agora. E eu estou realmente me saindo muito bem!"
Locke, que fará o vestibular em algumas semanas, diz que teve "muita sorte" com sua experiência escolar.
"Minha escola é ótima, e nunca sofri bullying. Quando você fica mais velho, as coisas realmente mudam porque muitas das pessoas que diriam coisas assim não estão mais lá ou as pessoas cresceram e perceberam que isso realmente não é importante, e as pessoas podem ser elas mesmas."
Mas ele reconhece que não é fácil para todos.

Crédito, Netflix
"Em geral, no ensino médio, é muito difícil ser diferente de qualquer maneira. E, se você não se encaixa na norma de usar roupas esportivas e fumar cigarro eletrônico, é provável que seja visto como alguém diferente", diz Locke.
"Acho que o que é bonito sobre o nosso programa é que ele celebra essas diferenças. Você pode pensar que você é o estranho, mas, na verdade, todos, exceto aquelas poucas pessoas 'ajustadas às normas' são os estranhos. E mesmo elas provavelmente são assim porque acham que é isso que têm que fazer para se encaixar."
Ele acrescenta: "É tão triste para elas... porque foram condicionadas a sentir que é assim que eles devem ser para viver em nossa sociedade".
A mídia social também tem papel importante, é claro - em Heartstopper, muitas das conversas estranhas ou mais delicadas entre os personagens ocorrem online.
Embora possa ser um local de apoio, ganhar destaque nas mídias sociais também pode tornar uma pessoa alvo de abusos injustificados.
Finney diz que você precisa ser ousado para se expor e saber quando dar um tempo.
"Eu acho que você tem que correr riscos. Sempre soube que quero ser alguém que outras pessoas possam admirar, especialmente os jovens queer que não necessariamente sabem onde se encaixam na sociedade. Sempre adorei documentar minha experiência como pessoa trans desde os 15, 16 anos." (Ela agora tem 18 anos, assim como Locke).
Tendo conquistado um conjunto de "seguidores incríveis nos últimos três anos", Finney se afastou do TikTok enquanto filmava Heartstopper, que é seu primeiro trabalho como atriz profissional.
'Faca de dois gumes'

Crédito, Netflix
"Eu só queria uma pausa. Acho que, às vezes, você só precisa se afastar. Quando eu estava fazendo TikToks em 2019 e 2020, eu me comparava em alguns pontos com todos os outros. Eu só queria me concentrar em mim mesma e me certificar de que estou bem mentalmente", diz Finney.
"Você só precisa ter uma mentalidade positiva nas mídias sociais e perceber que a maior parte não é real, a maior parte é falsa. Pode ser bastante avassalador. Mas aprendi a aproveitar isso... e isso definitivamente me tornou mais forte."
Locke também acredita que a mídia social é uma "faca de dois gumes".
"Por um lado, é muita interação e muita socialização. Por outro lado, pode ser avassalador. Há momentos em que eu só tenho que desligar meu telefone. É preciso estar ciente de seus limites", afirma o ator.
Alice Oseman também deu um tempo de atualizar a série em quadrinhos Heartstopper na internet devido a "esgotamento e estresse intenso".
"Alice é muito esforçada, e estou feliz que esteja dando um tempo. Tudo o que Alice fez é simplesmente mágico, e ver essa reação ao seu trabalho e ver os personagens ganhando vida é incrível."
Locke me disse que Oseman estava no set todos os dias e era "como ter uma Bíblia de Heartstopper ali".
Ele acrescenta: "Acho realmente incrível ter um programa queer voltado para um público mais jovem, e é um programa que acho que muitas pessoas gostariam de ter visto quando eram mais jovens."
Visibilidade trans
Finney está particularmente feliz em ver a si mesma - uma jovem negra trans - refletida em uma série de TV. "Atuar sempre foi algo que eu quis fazer, mas eu realmente não me via refletida na mídia, especialmente no Reino Unido."
Um relatório recente da ONG GLAAD apontou que a representação LGBTQIA+ na TV dos Estados Unidos - inclusive em plataformas de streaming disponíveis em outros países - está em alta, com quase 12% de personagens regulares que são LGBTQIA+, um aumento de 2,8% em relação ao ano passado.

Crédito, Netflix
Mas o estudo também descobriu deficiências e oportunidades perdidas de contar uma gama mais ampla de histórias sobre personagens LGBTQIA+.
A análise investigou a diversidade geral de programas, incluindo aqueles em grandes plataformas de streaming como Netflix, Amazon, Apple+ e Disney+.
"Foi uma loucura o quão incrível foi a resposta para Heartstopper e o quão necessária... Atores e atrizes trans estão na indústria. E estou muito feliz por fazer parte desse mundo."
O debate sobre a autenticidade do elenco ainda está em curso - os papéis gays devem ser interpretados apenas por atores gays, por exemplo?
Finney acha que eles deveriam. "É importante... para que a comunidade LGBTQIA+ possa participar. É sobre representação. Se você tivesse pessoas trans desempenhando papéis cis, seria mais justo, mas agora e por anos e anos tivemos pessoas cis interpretando personagens trans", diz a atriz.
"Eddie Redmayne ganhou um Oscar por A Garota Dinamarquesa e depois se desculpou porque percebeu que o debate sobre inclusão é mais amplo", diz ela.
Na verdade, Redmayne não se desculpou, mas disse que se arrependeu de ter assumido o papel.
"Por tantos anos, especialmente pessoas trans, nós meio que fomos ridicularizados por meio do entretenimento. Pessoas queer, pessoas trans - nós existimos há gerações e milênios", diz Finney.
"É sobre a indústria perceber que eles estavam errados e precisam dessa representatividade."

Sabia que a BBC está também no Telegram? Inscreva-se no canal.
Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 1
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 2
Este item inclui conteúdo extraído do Google YouTube. Pedimos sua autorização antes que algo seja carregado, pois eles podem estar utilizando cookies e outras tecnologias. Você pode consultar a política de uso de cookies e os termos de privacidade do Google YouTube antes de concordar. Para acessar o conteúdo clique em "aceitar e continuar".
Final de YouTube post, 3













