Briga por templos da Universal em Angola causa conflitos com a polícia

Crédito, Getty Images
- Author, Gilberto Nascimento
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 6 min
A disputa entre duas alas da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola tem provocado confrontos entre fiéis e a polícia local.
A igreja liderada pelo bispo brasileiro Edir Macedo passa por uma tormenta no país africano há dois anos e meio.
Fiéis pró-Macedo, que rivalizam com lideranças religiosas locais, se mantiveram em vigília durante 24 horas por mais de uma semana em protesto contra a decisão do Estado angolano de manter os templos fechados devido a brigas e processos contra a Universal na Justiça.
Os fiéis, entre eles mulheres idosas, passaram a noite em frente aos templos. Religiosos foram detidos e quatro pessoas ficaram feridas na madrugada da quarta-feira (20/04), quando a Polícia Nacional Angolana tentou retirar fiéis favoráveis a Macedo que ocupavam a catedral do Maculusso, em Luanda.
Cerca de 100 templos da Universal em Angola foram interditados por autoridades do país devido à batalha judicial travada entre os dois grupos que reivindicam o controle da instituição.
A polícia angolana informou que fiéis, "em desobediência às autoridades", teriam retirado ilegalmente os selos de vedação de acesso aos templos do Maculusso e do bairro do Alvalade. Também teriam sido abertos ilegalmente templos nas localidades de Benfica e Talatona.
"Os pastores têm partilhado áudios nas redes sociais, motivando os fiéis a deslocarem-se nesses templos para praticarem a violência com objetivo de retornar os cultos", disse o diretor de Comunicação Institucional da Polícia Nacional em Luanda, Nestor Goubel.
A polícia disse que religiosos reabriram os templos sem qualquer mandado que legitimasse a retomada dos imóveis apreendidos. A ala brasileira teria decidido retomar as igrejas por conta própria e, por isso, a polícia foi chamada. Aí houve o confronto.
Nas redes sociais, religiosos ligados à Reforma - grupo de bispos e pastores angolanos reconhecido pelo governo como responsável hoje pela Universal local -, denunciaram que um pastor ligado à ala brasileira teria convocados os fiéis, orientando-os a levarem gasolina e pneus para queimarem em frente aos templos.

Crédito, OSVALDO SILVA/AFP via Getty Images
De acordo com o porta-voz da polícia, medidas "severas" poderão ser tomadas contra os seguidores que insistirem em ter acesso aos templos religiosos, sem a prévia autorização legal das autoridades.
Na disputa em Angola, estão os fiéis apoiadores da "Reforma" - que têm o reconhecimento do Instituto Nacional do Diálogo Religioso (Inar), órgão do Ministério da Cultura angolano -, e do outro o "movimento dos 7000", que segue a liderança de Edir Macedo e continua se considerando a legítima direção da igreja no país.
Disputa pela posse
O racha na Universal de Angola começou no final de 2019 com o surgimento da Reforma, grupo liderado por cerca de 300 bispos e pastores angolanos, que se opôs abertamente à direção brasileira e divulgou um manifesto acusando a instituição por crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas, racismo e imposição de vasectomia a pastores.
Em junho de 2020, os bispos e pastores angolanos tomaram o comando da igreja, após uma assembleia-geral que destituiu os antigos dirigentes alinhados ao bispo Macedo.
De lá para cá, a disputa se acirrou. Em maio do ano passado, a TV Record África teve suas atividades suspensas em Angola. Mais de 50 pastores e obreiros da Universal foram mandados de volta ao Brasil.
A nova confusão se deu após o juiz Tutri Antônio, da 4ª. Seção de Crimes Comuns do Tribunal de Luanda, determinar, no dia 31 de março, que os templos, o patrimônio e as contas bancárias bloqueadas da Igreja Universal deveriam ser devolvidos à sua legítima direção.
Como o juiz não especificou qual seria essa legítima direção, e há uma disputa ferrenha entre duas alas, a direção brasileira da Universal passou a considerar que teria de volta os seus templos. Em uma nota, a Universal no Brasil afirmou que o tribunal determinou a "devolução dos templos e bens à Universal do país".
O juiz Tutri Antônio determinou a devolução dos templos ao fim do julgamento que condenou o bispo brasileiro Honorilton Gonçalves, ex-todo poderoso da TV Record no Brasil e depois líder espiritual da Universal em Angola, a três anos de prisão por imposição de vasectomia a pastores. Sua pena foi suspensa por dois anos. Outros três réus ligados à igreja foram inocentados.
Sobre a disputa pelos templos, o magistrado afirmou que a discussão deveria ocorrer numa outra instância judicial, pois cabia a ele apenas a análise de supostos crimes apontados no processo.
"É uma questão que deve ser resolvida em outro tribunal. As pessoas que estão a disputar o controle da igreja têm advogados e sabem onde devem se dirigir para poder determinar com quem vai ficar a gestão e quem vai receber de volta os bens que o tribunal mandou restituir", disse o juiz. "Essa parte já não me compete, já não compete aos meus colegas. Por esta razão, não nos pronunciamos".
Para a ala angolana da Universal, não há dúvidas de que a instituição no país é comandada pelo bispo angolano Valente Bezerra Luís, pois a assembleia-geral que o elegeu, em 2020, teria sido reconhecida pelo Instituto Nacional de Diálogo Religioso.

Crédito, ALAN SANTOS/PR
Porém, uma publicação de alterações no estatuto da igreja no Diário da República (o Diário Oficial angolano), em outubro de 2021, encaminhada pela ala brasileira, reacendeu a discussão e gerou confusão. O governo angolano alega não ter recebido esse pedido de alteração.
O diretor-geral adjunto do Inar, Ambrósio Micolo, disse que hoje já não existem alas na Igreja Universal, mas sim uma direção reconhecida e não teria sido ela a reabrir os templos ilegalmente. "Existe uma direção legitimada pelo governo angolano e que vai receber os templos a serem entregues pelo Inar. O Inar apenas aguarda a notificação do tribunal", informou. "Os fiéis devem manter a calma, que será reposta a legalidade".
Em um vídeo nas redes sociais, o bispo Alberto Segunda, o líder da igreja de acordo com a ala brasileira, disse que seus seguidores estão sendo "injustiçados e perseguidos".
Em nota divulgada na sexta-feira (22/04), o bispo Segunda afirma ainda que a igreja não tem qualquer relação com incitação de atos de violência, seja "direta ou indiretamente".
A nota prossegue afirmando que há uma "perseguição feroz por um grupo de indivíduos que buscam a qualquer custo atingir seus objetivos escusos", mas que "nunca iremos compactuar com qualquer ato de resistência violenta".
A BBC News Brasil entrou em contato com a IURD no Brasil para mais esclarecimentos, mas não recebeu resposta até o momento da publicação desta reportagem.
Segunda já prevê a possibilidade de um resultado desfavorável à ala brasileira. O bispo afirmou que, caso o Estado angolano decida "tirar" o patrimônio da igreja de Edir Macedo, "nós começaremos novamente do zero". O bispo pediu que, nesse caso, o governo ao menos não retire a marca IURD (Igreja Universal do Reino de Deus).
Um outro porta-voz do grupo pró-Macedo, Olívio Alberto, disse que os "dissidentes da Igreja Universal" teriam tido o apoio da Polícia Nacional Angolana. Para ele, policiais estariam ocupando as igrejas para depois "entregarem aos supostos pastores protegidos pelas autoridades angolanas". O Inar, na avaliação de Olívio Alberto, também estaria apoiando os bispos e pastores da Reforma.
Os religiosos que se opõem a Edir Macedo, em contrapartida, apoiaram a ação policial na catedral do Maculusso. Para o bispo Valente Bezerra Luís, apontado pelo Inar como o atual presidente da igreja, a operação policial garantiu a legalidade.
"Tenho de parabenizar o trabalho da polícia. Nossos irmãos invadiram os templos que estavam selados e fizeram os cultos. Foram advertidos que não eram os legítimos representantes e ignoraram o apelo da polícia por três vezes. Em áudios, pastores incentivaram a violência É muito triste", afirmou Luís.

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