'Cresci sozinho sob guarda do Estado. Por que nunca me disseram que tinha irmãos?'

Legenda do áudio, 'Cresci sozinho sob guarda do Estado. Por que nunca me disseram que tinha irmãos?'
    • Author, Ashley John-Baptiste
    • Role, BBC News
  • Tempo de leitura: 8 min

O jornalista da BBC Ashley John-Baptiste cresceu sob a guarda do Estado acreditando que fosse filho único. Até que, do nada, recebeu uma mensagem de um irmão que ele não sabia que existia. Isso acabou motivando Ashley a investigar o que viver sem os irmãos significa para as crianças do sistema britânico de acolhimento. A seguir, ele conta sua história, apresentada em um documentário da BBC.

Entrei para a guarda do Estado quando era bebê. Quando completei 18 anos, já tinha passado por quatro famílias de acolhimento e um abrigo residencial no sudeste de Londres.

É muito difícil descrever como foi crescer em tantos lares diferentes. Eu sentia uma nuvem de rejeição sobre a minha cabeça — sem sentido de família, sem sentido de pertencimento. Eu conheci minha mãe biológica quando tinha 10 anos, mas nunca conheci meu pai. Sempre me perguntei por que não fui adotado — será que havia essa possibilidade?

Ashley quando era criança, num carrinho de bebê

Crédito, Ashley John-Baptiste

Legenda da foto, Ashley John-Baptiste viveu sob a guarda do Estado britânico desde bebê até completar a maioridade

Viver naquele abrigo residencial com outras crianças me deu a primeira sensação de irmandade, mas eu não tinha controle sobre os nossos relacionamentos a longo prazo. Cada um de nós se mudaria em algum momento e desapareceria da vida dos demais.

As crianças colocadas sob a guarda do Estado recebem sessões de "história de vida" dos seus responsáveis locais. Nessas ocasiões, um assistente social conta à criança o que eles sabem sobre os antecedentes e o histórico da sua família. Eu tinha cerca de sete anos quando tive a minha sessão e me disseram que eu era filho único.

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Por isso, foi um enorme choque quando eu estava na casa dos 20 anos de idade e um homem me enviou uma mensagem pelo Facebook, dizendo que era meu irmão mais velho. Ainda me lembro da profunda sensação de confusão que senti quando li sua mensagem pela primeira vez.

Eu precisei ler e reler diversas vezes aquela mensagem. Levei um tempo para responder, mas, quando nos falamos, percebemos que tínhamos o mesmo pai, mas mães diferentes; que tínhamos outros irmãos perdidos em algum lugar; e — o mais surpreendente para mim — que vivíamos na mesma região. Durante todo esse tempo, meu irmão estava vivendo perto de mim.

Apesar da intensa curiosidade despertada por essas conversas iniciais, nunca planejamos nos encontrar pessoalmente. Eu gostava de receber mensagens do meu irmão recém-encontrado, mas nunca me senti pronto para um encontro presencial. Até que, quatro anos atrás, nós paramos de trocar mensagens.

Mas, na primavera inglesa de 2020, eu estava levando minha filha recém-nascida para um check-up no hospital e o encontrei por acaso. Eu estava saindo do hospital enquanto ele entrava para visitar um parente doente. Eu o reconheci imediatamente.

Eu o chamei encabulado e, para meu alívio, ele me reconheceu.

Parece que ficamos anos conversando no hospital. Apesar de ser a primeira vez em que nos encontrávamos, a conversa fluiu de maneira fácil e natural. Era como se nos conhecêssemos já a vida inteira.

Eu apresentei minha filha a ele. Ela conheceu o tio. Tiramos uma foto juntos em um momento familiar inesperado.

Eu nunca mais o encontrei desde então, mas aquele momento mudou profundamente a minha vida. Encontrar meu irmão me fez pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse conhecido meus irmãos quando era mais jovem. Agora eu sei que tenho pelo menos quatro irmãos, todos mais velhos do que eu.

'Tábua de salvação'

A cada vez que me mudava de casa quando estava em acolhimento, eu era forçado a integrar-me a uma nova família, em uma comunidade diferente, e fazer novos amigos. Meu sentido de identidade na infância foi fragmentado entre as casas em que vivi. Não havia ninguém que me conhecesse ao longo de todas as minhas mudanças.

Ashley as a child

Crédito, Ashley John-Baptiste

Encontrar meu irmão me fez imaginar como tudo teria se passado se eu tivesse contato regular com meus irmãos durante todas as mudanças de guarda. Imagine se eu tivesse alguém como ele com quem conversar, que me visse crescer. Teria sido uma tábua de salvação.

Mesmo alguns encontros por ano enquanto eu estava sob a guarda do Estado poderiam ter sido a base de um relacionamento na idade adulta.

Eu deixei a guarda do Estado aos 18 anos e morei sozinho em uma habitação social até entrar na universidade. Viver sozinho e ser forçado a me sustentar trouxe um sentimento de abandono e isolamento para o qual eu não estava preparado.

Embora eu tivesse amigos incríveis para aliviar a intensidade emocional de sair da guarda do Estado, conhecer meus irmãos naquela etapa da vida poderia ter me dado um sentido de família e de pertencimento. Talvez tivesse tido uma chance de passar o Natal com a família ou ter um lugar para onde voltar entre os semestres da universidade.

Em nosso encontro no hospital, meu irmão pareceu entender tudo o que eu estava dizendo. Ele tinha uma compreensão implícita da minha jornada e dos meus pontos de vista. Havia uma conexão entre nós.

Ashley John-Baptiste
Legenda da foto, Em documentário para a BBC, Ashley John-Baptiste conta sua história de vida e analisa o tratamento fornecido aos irmãos sob a guarda do Estado britânico.

Fiquei perplexo por nenhum dos meus assistentes sociais aparentemente saber da existência dos meus irmãos.

Conversei com minha assistente social mais antiga, Rosalyn Payne, que cuidou de mim entre os 15 e 18 anos de idade, durante meu documentário para a BBC. Ela ficou surpresa ao saber que eu tinha um irmão. Mas por que não havia nenhuma informação sobre minha família nos meus arquivos?

Rosalyn me contou que a pesquisa dos arquivos e informações avançou muito. "Naquele tempo, tínhamos arquivos de papel. Hoje, temos arquivos eletrônicos." Mas ela ressalta que esta não foi a única dificuldade. "As famílias nem sempre nos dizem o que queremos saber. Isso acontece muito, os familiares retêm informações."

Então perguntei algo que nunca havia ousado perguntar antes: alguma vez foi considerada a hipótese da minha adoção?

Ela me disse que, de fato, fui colocado para adoção quando era muito jovem, mas o casal que planejava me adotar engravidou e abandonou o processo.

Essa notícia foi devastadora — compreender que, naquele momento, minha vida poderia ter sido completamente diferente.

Por mais difíceis que sejam essas questões, eu acho que elas são importantes. Todos querem saber quem são e de onde vieram.

'Às vezes, os irmãos são tudo o que resta'

Procuramos para o documentário uma perspectiva nacional sobre o tratamento das relações entre irmãos no sistema de acolhimento do Estado britânico, mas existem poucos dados.

A BBC enviou mais de 200 solicitações para as administrações britânicas locais, com base na lei da Liberdade de Informação. Cerca de 75% das autoridades consultadas responderam. Segundo essas respostas, cerca da metade dos grupos de irmãos sob a guarda do Estado são divididos (45%) e mais de 12 mil crianças foram separadas de pelo menos um dos seus irmãos.

Essa situação pode causar impactos por toda a vida.

Eu conheci Saskia, que tem 24 anos de idade. Ela é de Manchester, na Inglaterra, e foi levada para a guarda do Estado com seus dois irmãos depois de ter sido resgatada da sua família biológica. Eles foram adotados, mas sua nova casa não era um porto seguro.

Saskia e seus irmãos.

Crédito, Supplied

Legenda da foto, Saskia e seus irmãos.

Saskia e seus irmãos sofreram abusos psicológicos e negligência por uma década no lar adotivo. Quando a adoção se desfez, eles voltaram para a guarda do Estado, onde logo foram divididos e enviados a locais e regiões diferentes.

Na época, Saskia tinha 11 anos e seu contato com os irmãos se rompeu de vez alguns anos mais tarde. Ela conta que afastar-se deles fez com que ela "perdesse sua força".

"Perdi uma parte fundamental de mim mesma", segundo ela. "Éramos nós três contra o mundo, sempre tinha sido assim. Às vezes, os irmãos são tudo o que resta. Se você os afasta, você está tirando o último pedaço da identidade de uma pessoa."

Saskia agora é assistente social formada, o que lhe deu uma nova perspectiva. Analisando sua história, ela sente que eles deveriam ter sido mantidos juntos.

Seu irmão mais novo, Toby, teve sérios problemas e chegou a passar algum tempo na prisão. Ele agora tem um emprego, mas conta que suas experiências na infância fizeram com que ele se tornasse uma pessoa bastante ressentida. "Mesmo quando a vida vai bem, ainda encontro alguma forma de ser negativo sobre ela."

Depois que saíram da guarda do Estado, eles conseguiram restabelecer relações. "Meus irmãos ainda estão na minha vida. Tenho sorte. Eu me considero muito abençoada", relata Saskia.

'As entidades locais estão chegando ao seu limite'

Segundo a legislação em todo o Reino Unido, irmãos devem ser mantidos juntos quando for possível e seguro fazê-lo. Mas, com o aumento do número de crianças sob a guarda do Estado, simplesmente não há cuidadores suficientes para o acolhimento — especialmente agora que as crianças, pelas regras, precisam de um quarto cada uma. Tudo isso representa dificuldades para as administrações locais.

Eu falei com a diretora do departamento de assistência a crianças do Conselho Municipal de Derby, na Inglaterra, Suanne Lim. Ela disse que não tem recursos suficientes para atender a todas as crianças sob a guarda do Estado na sua região — mesmo com os fundos adicionais oferecidos pelo governo para famílias vulneráveis durante a pandemia.

Suanne Lim
Legenda da foto, Suanne Lim é pioneira na formação de uma equipe de assistência rápida para manter as famílias unidas.

"Estamos muito, muito sobrecarregados. Tem havido cortes nos serviços que oferecemos, ano após ano, e a demanda continua aumentando", afirma ela. "As entidades locais estão chegando ao seu limite."

Durante a pandemia, o conselho municipal de Derby foi pioneiro na formação de uma equipe de assistência rápida para apoiar famílias vulneráveis e evitar que ainda mais crianças ingressassem no sistema. A equipe afirma ter ajudado, ao longo dos últimos 15 meses, 60 famílias a permanecer juntas, evitando que 50 grupos de irmãos fossem separados.

É claro que os assistentes sociais estão sob enorme pressão. Mas, enquanto isso, muitas crianças sob a guarda do Estado são separadas dos seus irmãos e não recebem as merecidas informações sobre suas famílias.

Na Escócia, a legislação foi recentemente alterada para dar aos irmãos maior controle sobre seus relacionamentos. A iniciativa Star, no condado de Fife, promove reuniões de grupos de irmãos separados sob a guarda do Estado, que têm a oportunidade de encontrar-se no campo em intervalos de poucos meses, conviver e restabelecer seus laços.

"Eles passaram por muita coisa. Vamos oferecer uma tábua de salvação", afirma Karen Morrison, a cuidadora que administra a iniciativa. "Não estamos fazendo a diferença apenas agora, mas também para quando eles saírem do sistema de acolhimento."

A Comissária Infantil da Inglaterra, Rachel de Souza, afirmou à BBC que apoiaria uma nova legislação para manter os irmãos juntos. Ela publicou um novo relatório com base nas opiniões de 6 mil crianças sob a guarda do Estado.

Ainda neste ano devem ser publicadas as conclusões e recomendações de uma análise independente do sistema de acolhimento da Inglaterra.

No meu caso, consegui as respostas a outras questões que eu tinha sobre quem sou eu e de onde vim. Embora eu não tenha crescido com meus irmãos, agora tenho a possibilidade de conhecê-los. Mas o mais importante talvez seja que eu posso dizer à minha filha que ela tem um tio.

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