Covid: como vacinas de células T podem criar imunidade de longo prazo

Novo coronavírus

Crédito, Science Photo Library

Legenda da foto, As células T reconhecem fragmentos dos aminoácidos que compõem o vírus
    • Author, Sheena Cruickshank
    • Role, The Conversation*
  • Tempo de leitura: 5 min

Com a ômicron aumentando rapidamente as infecções por covid-19, a atenção está mais uma vez voltada para os anticorpos, e com razão.

Eles desempenham um papel fundamental no combate aos vírus e são importantes para evitar que o coronavírus infecte nossas células.

É por isso que alguns países organizaram campanhas com doses de reforço da vacina em resposta aos recentes picos de covid — para elevar os níveis de anticorpos.

Mas há um problema. Os anticorpos contra covid não se mantêm tão bem — daí a necessidade de reforço.

De fato, embora estas vacinas adicionais mantenham uma boa proteção contra a covid grave, estima-se que as pessoas que tomam uma terceira dose do imunizante da Pfizer verão sua proteção contra o desenvolvimento de sintomas de covid (de qualquer grau) cair de 75% para 45% nas dez semanas seguintes à dose de reforço.

Os cientistas têm questionado se "recarregar" os anticorpos, só para vê-los desaparecer em breve, é sustentável.

Se quisermos desenvolver uma imunidade duradoura contra a covid, talvez seja hora de analisar novamente nossa resposta imunológica mais ampla.

Os anticorpos são apenas uma parte do nosso intrincado e entrelaçado sistema imunológico. Especificamente, talvez seja hora de nos concentrarmos nas células T.

Como funcionam as diferentes células imunológicas

Quando o corpo está infectado, digamos com um vírus, ele responde produzindo glóbulos brancos chamados linfócitos.

Os principais tipos são as células B, que produzem anticorpos, e as células T, que apoiam a produção de anticorpos das células B ou atuam como células assassinas para destruir o vírus.

Algumas células T e células B também se tornam células de memória de longa duração que sabem o que fazer caso se deparem com a mesma infecção novamente.

As células B e as células T "veem" o vírus de maneiras diferentes.

De um modo geral, as células B reconhecem formas na parte externa do vírus, criando anticorpos que se prendem a elas (um pouco como duas peças de quebra-cabeça que se encaixam).

Ilustração mostra anticorpos (em branco) se ligando à proteína spike do vírus que causa a covid

Crédito, Science Photo Library

Legenda da foto, Nesta ilustração, os anticorpos (em branco) são vistos se ligando à proteína spike do vírus que causa a covid

Em vez disso, as células T reconhecem fragmentos dos aminoácidos que compõem o vírus, incluindo fragmentos que normalmente podem ser encontrados no seu interior.

Cada vírus tem muitas características únicas, tanto por dentro quanto por fora.

A resposta imune de uma pessoa pode acabar produzindo uma variedade de células T e células B que, entre elas, atacam uma ampla gama dessas características.

Isso às vezes é chamado de "amplitude de resposta". Uma boa amplitude de resposta envolve muitos linfócitos diferentes que veem diferentes partes do vírus, tornando muito complicado para o vírus se esconder completamente deles.

A ômicron preocupou muitos pesquisadores porque uma parte fundamental de sua estrutura externa que é alvo dos anticorpos — a proteína spike (em vermelho, na imagem acima) — sofreu muitas mutações, diminuindo a capacidade dos anticorpos de se prenderem ao vírus e neutralizá-lo.

No entanto, como as células T se concentram em outras partes do vírus, é possível que tais mutações não impeçam de identificá-lo.

De fato, dados preliminares, que ainda aguardam a revisão de pares, sugerem que é este o caso.

Isso é reconfortante, porque a proteína spike do vírus mudou muito durante a pandemia, sugerindo que pode sempre sofrer mutações fora do alcance dos anticorpos.

As células T, no entanto, devem ser menos suscetíveis à mutação viral.

As células T concebidas para combater a covid também parecem durar muito mais no corpo humano do que os anticorpos.

Mas as células T têm um efeito forte?

Já sabemos muito sobre o papel fundamental das células T em outras infecções virais.

Este conhecimento sugere que, contra a covid, uma boa resposta das células T não é apenas necessária para ajudar as células B a produzir anticorpos, mas também deve criar células T assassinas que podem reconhecer amplamente o coronavírus, protegendo contra múltiplas variantes.

Evidências específicas sobre covid e células T ainda estão sendo coletadas. No entanto, gradualmente está se tornando mais claro que as células T parecem desempenhar um papel importante na covid.

Mulher sendo vacinada contra covid

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Os anticorpos contra covid não resistem tão bem, daí a necessidade de doses de reforço da vacina

Pesquisas mostraram que a geração de células T amplamente reativas, que reconhecem uma série de características virais, está associada a uma forte resposta contra a doença.

A geração de boas quantidades de células T assassinas amplamente reativas, em particular, parece fazer com que a covid seja menos grave.

Por outro lado, uma resposta fraca das células T está associada a piores desfechos para os pacientes. De fato, se descobriu que algumas pessoas que tiveram covid grave apresentavam problemas persistentes na resposta das células T.

Uma característica comum de muitos dos estudos que demonstram a efetividade das células T na covid é a necessidade de uma ampla amplitude de resposta — ter células T (e células B) que reconheçam várias características do vírus.

Acredita-se que este pode ser o segredo para a forma mais leve da doença.

Esta amplitude poderia, inclusive, se estender mais além deste coronavírus especificamente.

O vírus causador da covid é um betacoronavírus, e há vários betacoronavírus que já nos infectam, incluindo aqueles que causam o resfriado comum.

As características compartilhadas entre estes vírus que causam resfriado e a covid podem significar que as células T que já tínhamos contra o resfriado estão nos protegendo agora contra a covid.

Estão sendo descobertas evidências disso em adultos e crianças.

O que isso significa para as vacinas?

Muitas das vacinas desenvolvidas até o momento — incluindo as da Moderna, Pfizer e AstraZeneca — se concentraram em apenas um alvo principal do coronavírus: sua proteína spike.

Estas vacinas têm sido tremendamente efetivas na geração de anticorpos. E também estimulam uma resposta das células T à proteína spike.

Mas agora que entendemos mais sobre o papel das células T, a importância de ter uma resposta ampla destas células e a questão da diminuição dos anticorpos, talvez devêssemos considerar reorientar nossas estratégias de vacinas, focando na geração de células T e em ter como alvo mais do que apenas uma proteína.

Mulher espirrando

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Se quisermos desenvolver imunidade duradoura, talvez seja hora de analisar nossa resposta imunológica mais ampla

As pesquisas caminham nesta direção. Os primeiros testes de vacinas que podem desencadear respostas de células T auxiliares e assassinas amplamente reativas foram concluídos, e várias outras vacinas de células T também estão entrando em fase de testes.

Estas vacinas podem ser o segredo para fortalecer a imunidade existente e gerar uma proteção duradoura contra formas graves da doença provocadas por variantes do vírus que causa covid.

Nestes casos, estas vacinas seriam uma contribuição fundamental para ajudar o mundo a conviver com a covid de forma mais segura.

*Sheena Cruickshank é professora de ciências biomédicas na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).

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