Abusos na Igreja Católica: investigação revela milhares de pedófilos na França

Missa em uma igreja de Paris (imagem de arquivo)

Crédito, Getty Images

Tempo de leitura: 3 min

Cerca de 216 mil crianças — a maioria meninos — foram abusadas sexualmente pelo clero da Igreja Católica Francesa desde 1950, aponta o relatório de uma comissão de investigação divulgado nesta terça-feira (05/10).

De acordo com o levantamento, o número de vítimas pode chegar a 330 mil, se forem levados em consideração os abusos cometidos por membros laicos da Igreja, como professores em escolas católicas.

O chefe da comissão, Jean-Marc Sauvé, afirmou que há evidências de que a Igreja abrigou de 2,9 mil a 3,2 mil pedófilos — de um total de 115 mil padres e outros clérigos.

Ele acusou a instituição de mostrar uma "indiferença cruel em relação às vítimas".

Diante das revelações, o presidente da Conferência Episcopal da França (CEF) expressou "vergonha e horror" e pediu perdão.

E uma das vítimas ​​disse que era hora de a Igreja reavaliar suas ações.

François Devaux, que também é o fundador da associação de vítimas La Parole Libérée, afirmou que houve uma "traição de confiança, traição de moral, traição de crianças".

Para ele, o relatório representa um marco na história da França:

"Você finalmente deu reconhecimento institucional às vítimas de toda a responsabilidade da Igreja — algo que os bispos e o Papa ainda não estão preparados para fazer."

Francois Devaux

Crédito, AFP

Legenda da foto, François Devaux, fundador de associação de vítimas, considera divulgação do relatório um marco

A divulgação do relatório acontece após uma série de denúncias de abuso e processos contra membros da Igreja Católica em todo o mundo.

A investigação foi encomendada pela Igreja Católica Francesa em 2018.

A comissão — que tem entre seus membros, médicos, historiadores, sociólogos e teólogos — passou mais de dois anos e meio vasculhando arquivos da justiça, da polícia e da Igreja, além de ter entrado em contato com mais de 6,5 mil vítimas e testemunhas.

"Esses números são mais do que preocupantes, são contundentes e de forma alguma podem ficar sem uma resposta", afirmou Sauvé a jornalistas.

O relatório, que tem quase 2,5 mil páginas, afirma que a "grande maioria" das vítimas era do sexo masculino, muitos meninos com idade entre 10 e 13 anos.

Embora a comissão tenha encontrado evidências de até 3,2 mil pedófilos, o relatório diz que este número é provavelmente subestimado.

Segundo o texto, a Igreja não falhou apenas em prevenir os abusos, mas também em denunciá-los — e, às vezes, conscientemente colocou crianças em contato com predadores.

"A Igreja Católica é, depois do círculo de familiares e amigos, o ambiente que apresenta a maior prevalência de violência sexual".

A maioria dos casos avaliados pela investigação é considerado antigo demais para ser alvo de processo, de acordo com a lei francesa.

Mas Sauvé fez um apelo à Igreja para que pague indenizações, já que ele denunciou a "natureza sistêmica" dos esforços para proteger os membros do clero de denúncias de abuso sexual.

Em resposta, o presidente da Conferência Episcopal da França (CEF), o arcebispo Eric de Moulins-Beaufort, disse: "Meu desejo hoje é pedir perdão a cada um de vocês".

Christopher Lamb, da publicação católica The Tablet, disse à BBC que os escândalos de abuso mergulharam a Igreja em "sua maior crise em... 500 anos".

Em junho deste ano, o Papa Francisco mudou as leis da Igreja Católica para criminalizar explicitamente o abuso sexual, na maior reforma do Código de Direito Canônico em aproximadamente 40 anos.

As novas regras transformam o abuso sexual, o aliciamento de menores, a posse de pornografia infantil e o encobrimento de abusos em crimes sob as leis do Vaticano.

Esta reportagem, publicada originalmente no dia 04/10, foi atualizada nesta terça-feira (05/10) com a divulgação de mais detalhes sobre a investigação.

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