A técnica revolucionária que solucionou mistério de irmã sumida há 30 anos

Legenda do áudio, Em áudio: A técnica revolucionária que solucionou mistério de irmã sumida há 30 anos
    • Author, James Clayton
    • Role, Repórter de tecnologia na América do Norte
  • Tempo de leitura: 8 min

Um irmão e uma irmã estavam procurando pela irmã deles há muito tempo desaparecida. Ao mesmo tempo, a polícia estava tentando identificar uma vítima de assassinato. Passaram-se 30 anos, mas uma revolução na ciência forense usando DNA e sites de ancestralidade finalmente ligou um caso com o outro.

Uma das coisas mais bonitas da pequena cidade de Bucklin, nos Estados Unidos, é seu cemitério. A grama está bem cortada, e as sepulturas parecem bem cuidadas.

Foi aqui que, em junho passado, cerca de 20 pessoas em luto estiveram ao redor de um pequeno caixão branco para se despedir de Shawna Beth Garber.

Ninguém, incluindo as pessoas que estavam lá, sabia muito sobre Shawna, como ela era, onde morava ou que nome usava quando morreu. Só recentemente eles souberam que ela havia sido assassinada e que seu corpo permaneceu sem ser identificado por três décadas.

A polícia a chamou de Grace ('Graça'), porque havia sido dito que "somente pela graça de Deus" alguém descobriria quem ela era. No entanto, graças a uma revolução no rastreamento de DNA, que está ajudando a resolver uma série de casos arquivados nos EUA, um mistério de 30 anos pode finalmente ser resolvido.

'Shawna'

Rob e Shawna não nasceram em uma família normal. Um homem tímido de 56 anos, o irmão mais velho de Shawna descreve a mãe deles como "má".

Ele fala devagar e suas palavras são cuidadosamente escolhidas. Ele não está acostumado a falar sobre sua infância e isso traz memórias turbulentas. Ele e Shawna foram abusados ​​fisicamente pela mãe, diz ele, e isso levou os dois a serem colocados sob cuidados assistenciais.

As lembranças que ele tem de sua irmã mais nova são algumas das poucas boas memórias que ele tem de sua infância. "Ela era a maior parte da minha vida", diz.

Quando Rob tinha sete anos e Shawna cinco, o abuso de sua mãe começou a aumentar.

"Na maior parte do tempo, eu era o alvo de tudo", lembra Rob, "até o incidente que nos levou sermos afastados dela. Ele foi muito pior que todo o resto."

Rob

Crédito, Rob Ringwald

Legenda da foto, Foto de Shawna quando era uma criança pequena

Ele estava na escola quando a mãe jogou fluido de isqueiro em Shawna e ateou fogo nela.

Eles foram separados depois de serem levados por assistentes sociais e colocados aos cuidados de famílias diferentes. Rob recebeu o sobrenome Ringwald.

Ele viu sua irmã mais uma vez depois que ela saiu do hospital, no aniversário de 8 anos dele, e essa foi a última vez.

Já adulto, na década de 1990, Rob começou a querer encontrá-la.

Foi nessa época que soube que tinha outros meios-irmãos.

Depois de entrar em contato com as autoridades, ele recebeu o nome de uma meia-irmã, Danielle Pixler, de 48 anos, que também morava no Estado do Kansas.

Eles se conheceram, estabeleceram uma amizade duradoura, e Danielle também se empolgou com a ideia de tentar encontrar Shawna.

Sentada na varanda de sua casa em Topeka, Kansas, Danielle me conta sobre suas décadas de busca pela meia-irmã que nunca conheceu.

"Eu colocava folhetos nas árvores. Eu os colocava em sinais de trânsito. Eu os colocava nas janelas dos carros", diz Danielle.

Ela passou inúmeras ​​horas no Facebook procurando por Shawna. "As pessoas pensaram que eu a estava perseguindo."

Rob e Danielle construíram seus próprios arquivos sobre o caso, com todas as informações que puderam encontrar sobre Shawna. Mas sem informações básicas, como o sobrenome que ela estava usando, acabou sendo um esforço sem resultado.

'Grace Doe'

Em dezembro de 1990, o corpo de uma mulher foi encontrado perto de uma casa em uma fazenda abandonada no Missouri. A autópsia estimou que ela havia sido deixada lá havia seis semanas, e que ela havia sido assassinada.

6 tipos diferentes de corda enroladas
Legenda da foto, Mulher foi amarrada com seis tipos diferentes de corda

A polícia tinha poucas pistas para seguir. Ela havia sido amarrada com seis tipos diferentes de corda. Seus restos mortais estavam tão decompostos que seria difícil até mesmo para um parente próximo identificá-la.

Mike Hall, vice-xerife do condado de McDonald, trabalhou no caso por 14 anos sem chegar perto de descobrir quem era a mulher que eles passaram a chamar de Grace. Muito menos quem a matou.

"Quando dirigia por aí, em patrulha, ficava sempre pensando em quem poderia ter deixado ela ali", diz ele.

Com o passar dos anos, o caso de Grace foi ficando cada vez mais distante. Seus restos mortais foram mantidos em um armário no escritório do xerife, quase esquecidos. Era mais um dos cerca de 250 mil assassinatos não resolvidos dos EUA.

Casos arquivados, DNA e o Golden State Killer

O DNA tem sido usado em exames de perícia desde meados da década de 1980. As técnicas tradicionais são boas para combinar material genético com um suspeito se o DNA da pessoa em questão já estiver em um banco de dados da polícia, mas isso tem seus limites.

Por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980, a Califórnia foi palco de ataques de um serial killer e estuprador apelidado de Golden State Killer. A polícia tinha seu material genético, mas não havia correspondência no banco de dados de DNA do FBI. Muitos pensaram que ele nunca seria encontrado.

No entanto, em 2018, as autoridades decidiram usar uma técnica inovadora que acabara de entrar em cena: uma que combina o uso de DNA com informações de sites de ancestralidade que são usados para fazer árvores genealógicas.

Os sites de genealogia são projetados para permitir que as pessoas encontrem parentes há muito tempo separados.

Um usuário coloca um cotonete de DNA no correio e, mais tarde, recebe uma lista de pessoas com quem compartilha genes e uma análise de quão próximos estão.

A polícia percebeu que, se colocasse o DNA do assassino em um site de ancestralidade, obteria uma lista dos parentes do assassino - uma pista crucial.

A maioria dos sites de genealogia não permite verificações de seus dados pelas autoridades policiais, mas alguns permitem. As autoridades no caso do Golden State Killer usaram uma empresa chamada GEDmatch.

Depois de identificar parentes genéticos, foram feitas árvores genealógicas. Estas permitiram que a polícia chegasse a uma pessoa - um suspeito.

Em 2020, Joseph DeAngelo, um ex-policial da Califórnia, foi condenado à prisão perpétua.

Encontrando 'Grace'

A Othram, uma empresa de tecnologia com sede em Houston, foi fundada logo após a descoberta de DeAngelo, com o objetivo de resolver casos não solucionados usando a nova tecnologia.

A empresa usa fontes de dados como as fornecidas pelo GEDMatch e ajudou a polícia a decifrar uma série de assassinatos famosos e casos de pessoas desaparecidas nos últimos dois anos.

Em novembro de 2020, a Othram pegou o caso de Grace, que passou pelo mesmo procedimento feito com o Golden State Killer.

O DNA de Shawna estava degradado e tinha contaminação bacteriana. A Othram limpou o DNA de Grace, criando um perfil genético que poderia ser usado em vários sites de genealogia.

A partir daí, encontraram várias correspondências com primos de terceiro grau e começaram a construir uma árvore genealógica para encontrar um ancestral comum. Trabalhando na árvore, eles começaram a desenvolver uma teoria sobre com quem ela poderia ter parentesco e deram os nomes a Mike Hall, o vice-xerife que cuidou do caso de Grace.

Com base no crânio de Grace, uma artista forense desenhou uma imagem de como ela poderia ter sido
Legenda da foto, Com base no crânio de Grace, uma artista forense desenhou uma imagem de como ela poderia ter sido

A chamada

O telefonema de Hall veio quando Danielle estava no trabalho. A princípio ela pensou que fosse um tipo de fraude.

Mas depois de consultar sua família, ela ligou de volta para o número.

"Quando liguei para ele, estava gritando e chorando", disse ela. "Ele estava me contando todas essas coisas e eu fiquei tipo, 'como você me encontrou? Como você sabe quem eu sou? Ou que sou parente dela?' Eu simplesmente surtei."

Mike Hall convenceu Danielle a fazer um teste de DNA.

No dia 29 de março o resultado voltou. Grace era sua irmã, Shawna. "Eu simplesmente comecei a chorar", conta ela.

Questões éticas

O caso de Shawna, e muitos outros como o dela, mostra que o processo funciona. Mas também há críticas. O principal problema é a questão da privacidade.

A técnica é tão sensível que o DNA de uma pessoa poderia ser suficiente para identificar centenas ou mesmo milhares de seus parentes genéticos - sendo que nenhum deles havia consentido com as checagens.

Na prática, uma pessoa pode inscrever toda a sua família ampliada.

"Não estamos falando sobre pesquisar em bancos de dados as pessoas que voluntariamente enviam suas informações", disse Erin Murphy, autora do livro Inside the Cell: The Dark Side of Forensic DNA (Em tradução livre: Dentro da célula: o lado obscuro do DNA forense)

"Estamos falando sobre pesquisar em um banco de dados para encontrar as milhares de pessoas que nem sabem que são relacionadas àquele indivíduo."

Danielle foi encontrada porque um parente distante consentiu que o DNA deles fosse usado para verificações da polícia - não porque ela, Danielle, o permitiu.

Brett Williams, CEO da GEDmatch, admite que há um dilema ético de se usar a tecnologia.

"Você tem duas prioridades concorrentes aqui. A primeira prioridade é que você tem direito absoluto à privacidade. Mas, ao mesmo tempo, você tem uma prioridade competitiva, que é: nós temos o direito de não sermos assassinados."

Mas Erin Murphy argumenta que o desejo das famílias de descobrir a identidade de entes queridos - ou o assassino de um parente - não supera o direito à preservação da privacidade.

"É incrivelmente difícil dizer isso, mas não fazemos políticas sobre as liberdades civis de toda a nossa sociedade com base nos sentimentos de vítimas individuais", diz ela.

Esta é a principal razão pela qual tantos sites de genealogia não permitem verificações de aplicação da lei, incluindo Ancestry.com e 23AndMe.

Rob, o irmão de Shawna, insiste que, sem o processo, eles nunca teriam descoberto o que aconteceu com sua irmã.

"Minha irmã estava sentada em uma prateleira há 30 anos. Agora não está mais."

Algum tipo de conclusão

Rob e Danielle ainda não têm uma imagem de Shawna adulta. Eles ainda não têm certeza do nome que ela estava usando no momento de sua morte.

A polícia está tentando descobrir quais eram os movimentos de Shawna antes de morrer, ou qualquer pessoa que a conheceu quando adulta.

Eles acreditam que ela pode ter residido em Joplin, Missouri, na época de seu desaparecimento.

Mike Hall acha que há uma chance real de resolver o caso. "Acho que o assassinato pode ser resolvido agora que sabemos quem ela é", diz ele.

Rob e Danielle no funeral
Legenda da foto, Rob e Danielle no funeral

O funeral de Shawna foi uma mistura de sentimentos para Rob e Danielle. Eles finalmente sabiam quem era e onde estava sua irmã. Ela não havia recusado o contato. Ela não havia emigrado. Mas não era o fim que desejavam.

"Tenho pesadelos. Ouço gritos", diz Danielle, que não consegue deixar de ler as notícias da imprensa local sobre o caso.

"Eu leio sobre ela todos os dias, eu tenho que ler. É horrível porque eu choro toda vez que leio. Mas de alguma forma eu me sinto mais perto dela quando estou lendo."

A identificação de Shawna foi uma grande descoberta no caso.

Nos EUA, descobertas semelhantes acontecem semanalmente. Não é um eufemismo descrever esta técnica como uma revolução na resolução de assassinatos arquivados.

No entanto, esse método é tão novo que existem poucas leis que regulamentem seu uso. E como a privacidade é uma questão cada vez mais controversa nos EUA, os políticos terão que decidir até que ponto será permitido que os sites de genealogia sejam usados ​​para combater crimes.

A polícia acredita que há uma possibilidade muito real de que o assassino de Shawna ainda esteja vivo e presumindo que escapou impune.

Essa tecnologia significa que um dia essa pessoa, e muitos outros assassinos nos EUA, podem ser levados à Justiça.

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