‘Passei a documentar mortes de crianças após meu padrasto assassinar duas’ 

Sherele Moody, sorridente e de cabelo curto

Crédito, Sherele Moody

Legenda da foto, Sherele Moody encontrou um propósito após conviver de perto com a violência
    • Author, Gary Nunn
    • Role, Sydney
  • Tempo de leitura: 5 min

Nas horas vagas, Sherele Moody documenta mortes violentas de mulheres e crianças australianas. Mas ela sabe o que é violência desde pequena.

Por anos, foi submetida a abusos domésticos pela mãe. Cada vez que era agredida, fugia de casa - mas acabava sendo devolvida pelas autoridades de assistência social australianas.

No entanto, a experiência mais significativa de violência, que marcaria para sempre sua vida, não aconteceu com ela, mas com uma menina que ela sequer conhecia.

Em 1990, o padrasto de Moody sequestrou, estuprou e matou Stacey-Ann Tracy, de nove anos, e depois jogou seu corpo em um riacho dentro de um saco de lixo.

Moody tinha apenas 18 anos quando Barry Hadlow matou Stacey-Ann, na zona rural de Queensland, na Austrália.

Mas se lembra nitidamente dos eventos que aconteceram depois.

Imagem em preto e branco de Barry Hadlow algemado, sendo conduzido por uma ladeira por um homem de chapéu

Crédito, Courtesy of The Courier-Mail

Legenda da foto, Barry Hadlow cometeu seu segundo assassinato enquanto estava em liberdade condicional

A adolescente havia acabado de voltar para a casa da mãe porque sua irmã mais nova, Karen, disse que estava passando por um momento difícil.

"Deixei meu emprego e voltei direto para garantir que ela estava bem", relembra.

O padrasto passou para buscá-la e, no caminho de volta para casa, contou que uma menina da área estava desaparecida.

"Ele parecia animado em participar das buscas no dia seguinte", afirma. "Me lembro dele colocando o uniforme de voluntário do Serviço de Emergência do Estado e saindo."

A próxima coisa de que ela se lembra é de ouvir várias batidas fortes na porta e de ficar "chocada" ao ver a polícia entrar e revistar a casa.

Moody, que chegou a participar do funeral de Stacey-Ann, testemunhou contra o padrasto. Já sua mãe, Leonie, defendeu o homem com quem se casou quando Moody tinha 15 anos.

"Ela era sua maior apoiadora no tribunal. Foi triste assistir", diz.

"Ainda consigo sentir aquela sensação horrível na boca do estômago, por saber que meu padrasto tinha feito isso - e minha mãe estava ao seu lado", diz ela.

A outra vítima

Foto em preto e branco de Stacey-Ann Tracy

Crédito, The Tracy family

Legenda da foto, Stacey-Ann Tracy foi estuprada e assassinada por Hadlow quando tinha nove anos

Mas outro choque ainda estava por vir: não era a primeira vez que seu padrasto havia matado.

A polícia informou a Moody que, 27 anos antes, ele havia sequestrado e assassinado uma garota de cinco anos, chamada Sandra Bacon. O corpo dela foi embrulhado em um saco de milho e abandonado no porta-malas de um carro.

Hadlow havia morado perto de cada uma de suas vítimas e estava em liberdade condicional quando assassinou Stacey-Ann.

"O sistema deu uma oportunidade a ele quando não deveria", avalia Moody.

A mãe de Moody, por sua vez, "nunca hesitou" em apoiar Hadlow, o que levou a um distanciamento entre as duas:

"Me senti traída por ela. Ela trouxe para casa um assassino que havia sequestrado uma garota da mesma idade que minhas irmãs gêmeas".

Foto em preto e braco de Sandra Bacon, assassinada por Barry Hadlow quando tinha cinco anos

Crédito, The Bacon family

Legenda da foto, Sandra Bacon foi assassinada por Barry Hadlow quando tinha cinco anos

Moody, que hoje tem 48 anos, não vê sua mãe desde os 21. Seu padrasto morreu na prisão em 2007.

Culpa (e depois raiva)

Moody diz que após a prisão de Hadlow sua vida "saiu dos trilhos" e "não estava levando uma vida muito boa".

Mas encontrou seu propósito ao concluir os estudos e se tornar jornalista.

"Durante toda a minha vida adulta, vivi com a culpa por ele ter matado Stacey-Ann", diz ela. "Não há um dia que eu não pense nela."

Nos últimos anos, a culpa se transformou em raiva. E ela sabia que precisava fazer algo para canalizar esse sentimento em seu tempo livre. Foi assim que nasceu o Mapa de Feminicídios e Mortes de Crianças na Austrália.

Com o uso do Google Maps, Moody está documentando todas as mortes violentas de mulheres e crianças na Austrália desde o século 19.

Um mapa da Austrália pontilhado com muitos corações diferentes

Crédito, Sherele Moody

Legenda da foto, Cada coração neste mapa representa uma mulher ou criança assassinada na Austrália

A ideia é manter viva a memória dessas mulheres e crianças, para que não sejam mais apenas estatísticas sombrias.

"Me entristeceu que a morte de Stacey-Ann não fosse lembrada depois que sua família e pessoas como eu se mudaram", diz ela.

"Todo país homenageia seus soldados, mas não quem morre vítima da violência. Eu queria documentar a verdadeira extensão, o impacto e natureza de gênero da violência em nossas comunidades."

"O fato é que, seja homem, mulher ou criança, o mais provável é que seja um homem (o culpado)", completa.

"Podemos usar as histórias deles para gerar um movimento de mudança, em particular sobre a violência masculina - abordando as atitudes em relação às mulheres que impulsionam (essa violência)".

Em média, uma mulher é assassinada por semana na Austrália por seu atual parceiro ou ex-parceiro, de acordo com as estatísticas mais recentes do Instituto Australiano de Criminologia.

Cada coração no mapa interativo representa uma morte violenta, baseada em uma pesquisa feita por Moody, a partir de arquivos de jornais, relatórios de médicos legistas e julgamentos.

E revela histórias de negligência, violência familiar, doméstica e de estranhos. Detalhes do que aconteceu com o autor do crime estão incluídos. E, sempre que possível, é dada voz à família da vítima.

A primeira morte que Moody documentou no mapa foi o assassinato de Stacey-Ann Tracy, por seu padrasto. Desde então, registrou 1.880 mortes violentas - gastando cerca de uma hora em cada - sempre no seu tempo livre.

Um novo começo

Moody, aos 20 anos, sorrindo de braços cruzados

Crédito, Sherele Moody

Legenda da foto, Moody, aos 20 anos, na época em que voltou a estudar para mudar de vida

Quando adulta, Moody solicitou sua ficha às autoridades de assistência social. Estava repleta de histórias de abuso, negligência e violência.

Sua experiência pessoal promove uma conexão profunda com cada história:

"Levo cada uma dessas mulheres no meu coração."

O mapa do feminicídio faz parte da The Red Heart Campaign ("Campanha do Coração Vermelho", em tradução livre), que Moody lançou em 2015, após documentar um número "avassalador" de histórias de violência doméstica.

A campanha era originalmente uma plataforma para contar histórias e, desde então, se transformou em um registro da violência contra mulheres e crianças.

O mapa foi visualizado 500 mil vezes em menos de 12 meses.

Mas nem todo mundo reagiu bem à iniciativa. Moody recebe ameaças de morte e estupro regularmente.

E não se limitam ao mundo virtual. Em setembro, seu cavalo foi morto — quebraram o pescoço dele. Antes disso, seu cachorro havia sido envenenado.

A polícia está investigando os dois incidentes, que podem estar ligados a quatro ameaças que ela recebeu de homens que vivem nas redondezas.

"Esses homens querem que o mapa seja tirado do ar - porque mostra até que ponto a violência é de gênero", diz.

Mas ela recebeu um retorno positivo em junho, quando foi indicada a um dos principais prêmios de jornalismo da Austrália, The Walkleys, por seu trabalho inovador usando o Google Maps.

"É uma tarefa bastante ingrata, de modo que o reconhecimento foi incrível", afirma.

Alguns nomes nesta reportagem foram alterados para proteger a identidade dos personagens.

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