O caso de bullying que levou uma jovem médica a tirar a própria vida

Payal Tadvi

Crédito, Facebook/Payal Tadvi

Legenda da foto, Payal Tadvi, de 26 anos, foi vítima de bullying na faculdade de medicina
Tempo de leitura: 5 min

Três médicas foram presas em Mumbai, na Índia, acusadas de práticar bullying contra uma colega de faculdade que acabou se suicidando, conforme mostra reportagem de Janhavee Moole e Pravin Thakre, da BBC Marathi.

"Eu costumava dizer que era mãe da Dra. Payal. Mas o que eu vou dizer agora?", questiona Abeda Tadvi, mãe da vítima, aos prantos.

Payal Tadvi, de 26 anos, tirou a própria vida no dia 22 de maio, após ter sido perseguida durante meses por causa da sua casta - ela pertencia a uma Tribo Catalogada, status atribuído a tribos historicamente desfavorecidas na Índia.

A família de Payal acusou três veteranas da filha na faculdade de medicina - todas mulheres - de assediá-la nos meses que antecederam sua morte.

A polícia, que está investigando o caso, prendeu as suspeitas na terça-feira, segundo informou o vice-comissário, Abhinash Kumar, à BBC.

Elas negaram, no entanto, as acusações, alegaram que estavam sendo acusadas "injustamente" ​e pediram "justiça", em comunicado publicado pela agência de notícias ANI.

O Topiwala Medical College também abriu um inquérito para investigar as denúncias. E o Nair Hospital, filiado à universidade, onde elas trabalhavam, suspendeu as acusadas.

A morte de Payal chocou seus colegas e amigos, que protestaram em frente ao hospital e exigiram justiça em seu nome. E revela a persistência da discriminação de castas em um lugar improvável - uma universidade em Mumbai, centro financeiro da Índia e, possivelmente, a cidade mais urbanizada do país.

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Payal era de Jalgaon, no norte do Estado de Maharashtra. Ela se casou com Salman Tadvi, que é médico em Mumbai, e se mudou para a cidade com o intuito de obter um diploma de pós-graduação em medicina.

Ela estava estudando para ser ginecologista no Topiwala Medical College. E sempre quis ser médica, segundo sua mãe. Seu sonho era poder oferecer os melhores cuidados de saúde para os pobres da tribo.

A jovem pertencia à tribo Tadvi Bhil, uma das mais de 700 Tribos Catalogadas na Índia. Os membros dessas tribos - que somam cerca de oito milhões pessoas, segundo o último censo de 2011 - têm direito a uma política de cotas, como uma forma de reparação dos erros da duradoura hierarquia de castas da Índia.

Payal foi admitida na faculdade sob o sistema de cotas das Tribos Catalogadas. E Abeda diz que estava muito orgulhosa da filha, que alcançou tantas conquistas, apesar da sua casta e de quão pobre sua família era.

'Eles zombavam dela por pequenas coisas'

Abeda diz que Payal contou a ela sobre a perseguição que vinha sofrendo por parte de três veteranas.

"Ela disse que elas a ridicularizavam na frente dos pacientes por pequenas coisas. Elas a insultavam com calúnias, jogavam prontuários na cara dela. E disse que elas nem sequer permitiam que ela fizesse suas refeições em paz."

Elas também teriam ameaçado impedi-la de praticar medicina.

Payal com a mãe, Abeda

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Payal ao lado da mãe, Abeda: 'Ela era minha espinha dorsal'

Abeda, que está fazendo tratamento contra câncer, costumava frequentar o Nair Hospital, onde Payal trabalhava, porque era filiado à sua universidade.

Ela conta que raramente conseguia passar um tempo com a filha, que estava sempre ocupada - então, observava de longe.

"Eu vi o jeito que ela estava sendo tratada e decidi reclamar, mas Payal me impediu", diz.

Payal temia que uma reclamação pudesse prejudicar a carreira das três colegas - e que elas acabariam a assediando ainda mais por isso.

Mas em dezembro de 2018, Abeda e Salman finalmente conversaram com outros veteranos e professores sobre o assédio que Payal dizia estar enfrentando.

Eles exigiram que Payal fosse autorizada a trabalhar com uma equipe diferente. Ela foi transferida, diz a mãe, e pareceu um pouco aliviada depois disso.

Mas, de acordo com ela, o assédio logo recomeçou e por volta do dia 12 de maio, Abeda registrou uma queixa por escrito.

"Mas eles não levaram a sério", alega.

Dez dias depois, Payal se suicidou.

'É triste e trágico'

A morte da jovem acendeu o alerta sobre a ocorrência generalizada de bullying em escolas e universidades em toda a Índia. A prática é proibida, mas continua acontecendo. E estudantes de castas mais baixas muitas vezes são o alvo.

O Nair Hospital criou uma comissão para investigar as denúncias e deve apresentar um relatório em breve, informou Ramesh Bharmal, reitor da Universidade de Topiwala, à BBC.

"É triste e trágico. Estamos extremamente chocados. Como isso pode acontecer? O que poderíamos ter feito e o que devemos fazer agora? Tudo isso poderia ter sido evitado", acrescenta.

Salman diz que conheceu Bharmal, que perguntou a ele por que ninguém havia se dirigido ao escritório do reitor. Salman afirmou que eles haviam conversado com o pessoal do departamento de Payal e que eles haviam seguido o protocolo.

"Por que não fizeram nada?", questiona.

Protesto após suicídio de Payal

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A morte de Payal chocou seus colegas e amigos, que protestaram em frente ao hospital

Abeda tem as mesmas perguntas: "O que mais nós deveríamos fazer? Eles não sabem o que está acontecendo na faculdade? Isso estava acontecendo bem na frente deles. Eles deveriam ter investigado isso".

Bharmal diz que a faculdade e o hospital têm um sistema para tratar reclamações de assédio - isso inclui terapia para estudantes, um comitê para investigar reclamações e fiscalizações aleatórias realizadas pelos supervisores.

"Eu não estava ciente. Caso contrário, isso não teria acontecido. Medidas adequadas poderiam ter sido tomadas e isso poderia ser evitado", acrescenta.

'Ela era minha espinha dorsal'

Na casa da família em Jalgaon, onde Payal cresceu, parentes e vizinhos estão todos de luto. Mas se entusiasmam ao falar sobre Payal. Eles se lembram dela como uma jovem inteligente, ambiciosa e trabalhadora.

Segundo eles, Payal decidiu ser médica porque seu irmão mais novo nasceu com uma deficiência física que o impedia de andar; e ela sempre quis ajudar as pessoas.

Abeda diz que o que aconteceu com Payal a fez pensar sobre outros estudantes de castas mais baixas que também estão buscando um futuro melhor.

Ela teme por suas sobrinhas e sobrinhos, além de outras crianças de sua tribo.

"Os pais deles agora vêm até mim e perguntam se devem pedir aos filhos que fiquem em casa porque não confiam nas instituições para cuidar deles", revela Abeda.

"Ela era minha espinha dorsal. Era a espinha dorsal para toda a comunidade. Ela teria sido a primeira médica mulher da nossa tribo. Mas esse sonho agora não será realizado."

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