'Você sentiu raiva de mim?': a entrevista de um jornalista com o ministro que ele ajudou a colocar na cadeia

ALAN RUSBRIDGER e o reverendo britânico Jonathan Aitken
Legenda da foto, Alan Rusbridger (à esquerda) era editor do The Guardian quando jornal revelou história envolvendo Aitken (à direita)
Tempo de leitura: 9 min

O reverendo britânico Jonathan Aitken, de 76 anos, capelão da penitenciária de Pentonville, em Londres, entende muito sobre prisões. Isso porque, em 1999, passou sete meses na cadeia. Hoje, diz ter sido transformado pela experiência e agradece aos que o colocaram lá.

Na década de 1990, Aitken era um bem sucedido membro do Parlamento e ministro do governo conservador britânico, apontado por alguns como um possível futuro primeiro-ministro.

Nascido em família tradicional - seu pai também havia sido integrante do Parlamento - e cercado de privilégios, levava uma vida de luxo em um endereço próximo à histórica Casa dos Comuns.

A queda do pedestal até a prisão de alta segurança Belmarsh, no sul da cidade, foi dramática. No dia em que foi sentenciado, tomou café da manhã na cama, trazido pelo mordomo que o servia há 17 anos.

O homem cujas ações resultariam na prisão de Aitken é Alan Rusbridger, então editor do jornal britânico The Guardian. Em 1995, o jornal publicou uma reportagem acusando o então ministro de ter recebido cortesias indevidas da família real saudita - no caso, o pagamento de uma conta de hotel -, contrariando as regras do Parlamento.

Aitken negou veementemente a veracidade da história e abriu um processo contra o jornal por difamação.

Rusbridger diz que, na época, ficava indignado ao ver um membro do gabinete do governo mentir tão deslavadamente em um julgamento. E lembra que, caso a sentença tivesse sido diferente, poderia ter perdido seu emprego.

Vinte anos após a prisão de Aiken, jornalista e ex-ministro se encontram amigavelmente, no estúdio da Radio 4 da BBC, para esta extraordinária entrevista.

Detento sendo revistado na presídio de segurança máxima de Belmarsh, em Londres

Crédito, Press Association

Legenda da foto, Prisão de Belmarsh, onde Aitken passou a primeira noite como prisioneiro

Alan Rusbridger - Foi certo você ter ido para a prisão?

Jonathan Aitken - Sim. Nunca reclamei a respeito disso. Se você desobedece a lei e se você é uma pessoa importante, ocupando um cargo que envolve confiança, não deve se surpreender se a lei for rigorosa. Em circunstâncias como aquelas, em parte existe um intuito de transformar pessoas como eu em um exemplo.

Nunca me ressenti a respeito disso, por mais estranho que pareça. Sabia que a culpa era minha, me declarei culpado e sabia que ia para a prisão. Não culpei ninguém mais, e isso inclui você.

Rusbridger - Confesso que (na época) fiquei um pouco dividido. Eu tinha uma opinião mais liberal sobre prisões. Vejo a prisão como um lugar para onde se levam pessoas perigosas, mas você não era perigoso. Não poderia ter recebido outro tipo de tratamento, que não envolvesse encarceramento?

Aitken - No momento em que enviei (ao tribunal) uma declaração admitindo minha culpa, eu sabia que ia para a prisão. Acho que entendo um pouco sobre as marés da opinião pública - que certamente estavam contra mim naquela época. E elas exercem influência sobre o tipo de sentença adotada.

O que o público pensa, e até o que o Guardian e o (jornal) Daily Mail pensam, são um fator importante na forma como juízes pensam e sentenciam. Então, eu esperava ir para a cadeia. E já que aquele fiasco tinha sido inteiramente minha culpa, eu não podia sentar ali e pensar, "acho que mereço um regime de prisão condicional".

Rusbridger - Você sentiu raiva de mim?

Aitken - Eu passei por muitas fases. Eu com certeza senti raiva do Guardian naquela época, mas no momento que estamos discutindo, o momento em que fui para a prisão, eu não estava com raiva. Eu tinha raiva da imprensa marrom. Eles inventaram ficções inacreditáveis sobre minha vida na prisão, mas o Guardian, pelo que me lembro, não fez isso.

Eu tinha sentido raiva, mas antes de ir para a prisão já tinha superado isso.

Rusbridger - Então, na primeira noite... você tinha acordado na Lord North Street e agora ia dormir em Belmarsh. A porta da cela se fechou. O que sentiu?

Aitken - Na época, pensei, "então, é isso? Não é tão mau assim. Tenho uma cela só para mim. É desconfortável, mas nem tanto. Foi um dia duro, talvez o pior da minha vida. Mas pelo menos agora vou conseguir me deitar e dormir".

Esse foi o primeiro dos meus erros de cálculo. Entrei na cela, acho que o oficial disse algo como, "entra, Aitken". Então, meus vizinhos de cela à direita e à esquerda começaram um canto, dizendo para todos na prisão onde é que eu estava.

Vou poupar você dos detalhes. Resumindo, eles diziam "o ******* Aitken, o ex-cara do gabinete, chegou à cela 321B na HP3. O que devemos fazer com ele quando o encontrarmos amanhã?". Isso foi meio assustador. Mas quando acordei no dia seguinte, as pessoas que tinham sido aparentemente tão hostis na noite anterior foram super amigáveis.

"Bom dia, como vai? Espero que tenha dormido bem" - eles disseram. Fui muito bem recebido pelas pessoas que tinham gritado tanto na noite anterior. Eles estavam gritando por uma razão que tinha pouco a ver comigo. Eles mesmos disseram. "Estávamos drogados." Drogas fluem como rios pelas prisões.

Visão da rua Lord North Street, em Westminster, Londres
Legenda da foto, A rua Lord North Street, em Westminster, onde Aitken vivia na época, é popular entre políticos pela proximidade com o Parlamento

Rusbridger - É interessante que você descreve sua primeira noite em Belmarsh quase como um alívio. Você acha que isso vale para muitos prisioneiros? Acha que eles veem a prisão como um refúgio, um espaço além do caos de suas vidas, onde podem se recuperar, cuidar da cabeça?

Aitken - Com certeza alguns prisioneiros quase querem voltar para a prisão. É um ambiente que conhecem, porque já estiveram lá antes. É um ambiente que não exige muito de você. Suas refeições e suas contas, o aluguel, tudo é resolvido para você. Então, você não precisa se preocupar com nada e às vezes está escapando de uma realidade de violência doméstica, violência criminal, caos, maldade.

No meu caso, foi um alívio porque senti que estava chegando ao final de uma saga interminável, que tinha durado anos.

Rusbridger - Você passou por três penitenciárias diferentes. Qual foi sua melhor experiência na prisão? Onde sentiu que ganhou mais, como prisioneiro?

Aitken - Extraordinariamente, na prisão eu fiz uma ou duas amizades verdadeiras e duradouras. Um sujeito com uma personalidade um tanto quanto extravagante, que ganhou uma certa fama depois de sair de lá. E um outro, chamado Razor Swift, que era um criminoso particularmente mau, mas mudou de vida e hoje é editor.

Rusbridger - Quando você estava (na penitenciária) Stamford Hill, trabalhou como jardineiro e limpador de privadas. O uso que se faz do tempo passado na prisão é central para o treinamento, educação e reabilitação (dos presos). Mas você gostou de ser jardineiro e faxineiro?

Aitken - Eu optei por estudar na prisão. Estudei o Novo Testamento em grego. Foi um desafio. Antes disso, para ganhar o direito de estudar, tive de fazer quatro meses de trabalho manual.

Sempre me lembro de quando me tornei o faxineiro da minha ala. É verdade que você tem de limpar as privadas e as pias, mas você se torna uma espécie de zelador. Você entrega mensagens, as pessoas confiam em você. Não é um trabalho tão ruim.

Lembro de um carcereiro que tinha um ótimo senso de humor, ainda estamos em contato. Ele disse, "é assim que você limpa a privada". Tinha uns cartões com um manual. "Pegue o detergente com uma mão, pegue a escova, faça quatro movimentos circulares no sentido horário, oito movimentos circulares..." Nós dois caímos na gargalhada.

Rusbridger - Quando você saiu após sete meses, como a prisão havia mudado você? Você saiu de lá um Jonathan Aitken diferente?

Aitken - Acho que sim. Eu teria de ser muito insensível para não mudar. Porque quando você cai do topo, passando de membro do gabinete do governo em trajetória ascendente a prisioneiro caído, você tem de parar e pergunta a si próprio: "O que deu errado? Quais foram meus maiores erros?" E não quem disse o quê para qual jornal. "Onde estavam as falhas fundamentais do meu caráter?"

E eu acho que pude identificá-las com bastante precisão. Muitas pessoas odeiam a prisão porque você fica trancado, com frequência, 18 horas por dia. Eu, na verdade, não me importei. Eu achei aquilo um descanso. Achava ótimo poder ler com profundidade, eu rezava muito, recebia uma quantidade imensa de cartas e adorava respondê-las.

Eu tinha, acima de tudo, tempo para pensar. E aquelas coisas meio ultrapassadas que tutores espirituais recomendam, como examinar a sua consciência... bem, eu com certeza tive tempo para fazer isso. Eu descobri, como monges já haviam descoberto ao longo dos séculos, que celas são ótimos lugares para se rezar.

A outra coisa que logo começou a me agradar foi a companhia dos meus companheiros de prisão. Isso foi uma surpresa para mim e para eles.

Um jovem prisioneiro me pediu para escrever uma carta para ele, porque não sabia ler nem escrever. Sua família estava sendo despejada, a carta tinha a ver com isso. Então, escrevi uma carta apelando contra a medida. Depois de me agradecer, em vez de colocar a carta na caixa do correio ou no bolso, ele saiu andando pela ala, segurando a carta e dizendo: "Esse nosso membro do Parlamento tem uma letra linda!".

Fachada da prisão de Pentonville, onde hoje Jonathan Aitken é capelão

Crédito, VT Freeze Frame

Legenda da foto, Hoje, Jonathan Aitken é capelão na prisão de Pentonville

Dali em diante, toda noite tinha fila na porta da minha cela. Era gente querendo que escrevesse ou lesse cartas. Muitas vezes, sobre os assuntos mais íntimos que você possa imaginar. O que eu estava fazendo, na verdade, era começando a conhecer esses rapazes. Eu fiquei fascinado.

E também me dei conta de quanta sorte eu tinha. Porque percebi que às vezes existem explicações para o crime. Quando você conversa com uma pessoa que passou a juventude e a infância sub a tutela de instituições públicas e ninguém jamais disse a ele "eu amo você", ou "parabéns, filho"... você começa a ver os problemas profundos que cercam esses indivíduos e isso me motivou a querer um dia fazer algo na prisão.

Eu costumo dizer que, como capelão, sou um ministro da prisão. Mas na verdade minha vocação é a reabilitação, é tentar oferecer uma segunda chance às pessoas.

Rusbridger - Quem ouve você falar talvez te acuse de ser bonzinho demais nessa questão da prisão. No seu partido em particular, a filosofia é de que a prisão funciona e se você não quiser cumprir pena, não se meta em crimes. Quem sabe isso também contribuiu para a recepção hostil que você teve na sua primeira noite?

Aitken - Acho que, olhando em retrospectiva, muitos membros do Parlamento tinham essa mentalidade do "tranca e joga a chave fora". Acho que eu não era assim tão radical, embora eu fosse mais de direita (naquela época) do que sou hoje. Não discordo de que prisões são necessárias, ou de que pessoas têm de ser punidas. Uma abordagem mais cuidadosa - é o que eu certamente gostaria de ver hoje.

Rusbridger - Há vinte anos, sua vida mudou de rumo dramaticamente. Será que, de alguma forma, você se sente em paz, e possivelmente até grato, por eu ter, há vinte anos...

Aitken - (Interrompendo o jornalista) Você foi direto ao ponto. Sim, sou grato, primeiramente a Deus, e acho que também posso dizer, grato a você e até ao Guardian (risos) por essa virada na minha vida. Ela me levou para um mundo completamente novo e fascinante, um mundo que vale muito a pena. E estou muito feliz em poder estar fazendo algo útil nesse mundo.

Por que Jonathan Aiken foi preso?

Em setembro de 1993, quando ocupava um posto de ministro no gabinete do então primeiro-ministro conservador John Major, Aitken permitiu que funcionários da família real saudita pagassem sua conta no hotel Ritz de Paris, onde ele passara um fim-de-semana.

Como ministro do governo encarregado de negociar contratos para a pasta da Defesa, Aitken estava proibido de aceitar presentes que pudessem gerar conflitos de interesse, comprometendo seu julgamento e influenciando suas decisões.

Jonathan Aitken em 1999

Crédito, VT Freeze Frame

Legenda da foto, Na década de 1990, Aitken era um bem sucedido membro do parlamento e ministro do governo conservador britânico

O Guardian obteve uma cópia da conta e pediu explicações ao então ministro. Aitken negou a veracidade da história e respondeu que sua esposa havia pago a parte da conta que cabia a ele. O jornal seguiu em frente e publicou uma matéria denunciando Aitken.

Após inúmeras reviravoltas e tentativas de abafamento do caso, Aitken iniciou um processo contra o jornal por difamação.

Ao anunciar sua decisão de ir aos tribunais, Aitken o fez com uma declaração que ganhou fama: "Se coube a mim iniciar uma batalha para acabar com o câncer do jornalismo torto e distorcido no nosso país, munido da espada simples da verdade e do escudo confiável dos que respeitam as regras, que seja."

A ação fracassou quando ficou comprovado que, naquele fim-de-semana em setembro, a esposa de Aitken estava, na verdade, na Suíça.

Aitken recebeu uma sentença de 18 meses de prisão por mentir e por tentar obstruir a Justiça, dos quais sete meses foram passados em regime fechado.

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