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Na Grã-Bretanha, desemprego é o mais baixo em 29 anos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O mercado de trabalho na Grã-Bretanha passa por uma situação oposta à do Brasil: o número de pessoas empregadas é recorde, e a taxa de desemprego, de 4,8%, é a mais baixa dos últimos 29 anos. Ao todo, são 1,43 milhões de desempregados no país, mas só 882.200 estavam procurando emprego em março. Existem mais pessoas empregadas na Grã-Bretanha do que em qualquer ano desde que começou a série atual de estatísticas, em 1984. Na raiz disso está o desempenho da economia, que vem crescendo sem parar desde 1992, ano da última recessão no país. A Grã-Bretanha não foi afetada sequer pelas turbulências da economia mundial dos últimos anos. Serviço A oferta de emprego vem crescendo sem parar nesses 12 anos e se acelerou recentemente. "Nos últimos cinco ou seis anos, o volume de emprego teve um crescimento considerável em algumas áreas, como construção civil, varejo e no setor público", diz Alistair Hatchett, do Incomes Data Service, um centro independente de pesquisa de emprego e renda. Segundo ele, a política macroeconômica do governo tem contribuído de forma significativa, pois criou um ambiente que tem evitado anos de crescimento seguidos de períodos de recessão. No entanto, Hatchett diz que há setores dentro da economia que vêm empregando cada vez mais. "Não é simplesmente uma questão de política de governo. A atividade industrial está em queda na Grã-Bretanha, mas os setores de serviços e lazer vêm compensando, criando mais empregos", explica. Com uma situação fiscal relativamente sob controle, o governo também vem investindo em setores que considera prioritários. O resultado é que o setor público vem contratando gente para trabalhar em saúde e educação. Mudança A grande virada no mercado de trabalho na Grã-Bretanha aconteceu na segunda metade dos anos 1990, quando o governo mudou o sistema de seguro desemprego. Antes, um desempregado recebia o seguro, mesmo que não estivesse procurando trabalho. Além disso, o sistema de tributação reduzia o ganho líquido de assalariados. Essa combinação não estimulava as pessoas a buscarem emprego. "Muita gente na Inglaterra preferia estar desempregado do que estar trabalhando, porque receberia mais ou a mesma coisa do que ganhava estando trabalhando", conta o brasileiro Eduardo – que prefere não dizer o sobrenome – e que passou um ano e meio desempregado na Grã-Bretanha no início dos anos 1990. "Eu trabalhava meio período e, quando perdi meu emprego, tinha meu aluguel pago, além do seguro desemprego. Com isso, eu estava ganhando o mesmo valor de quando estava empregado." Treinamento Atualmente, o seguro desemprego é de 50 libras (cerca de R$ 250) por semana. O que é pouco em um país de custo de vida elevado como a Grã-Bretanha, que tem uma renda média per capita de US$ 31 mil (mais de R$ 90 mil) por ano. Além disso, o desempregado recebe um auxílio para pagar o aluguel, calculado com base em um percentual do valor pago. A pessoa recebe o seguro e o auxílio pelo período em que estiver desempregado, mas tem que provar que está procurando trabalho. "Você recebe esse dinheiro, mas tem que ir a uma agência do Job Centre (Centro de Empregos da Grã-Bretanha) toda a semana para dizer que ainda não arranjou, mas continua procurando emprego", conta Adelaide França, outra brasileira que também ficou desempregada por um ano na Grã-Bretanha. "Eles pedem recibos de alguma coisa, uma prova de que você foi a alguma entrevista, mandou seu currículo para algum lugar, ou algo assim." Outra característica do sistema britânico é que o governo paga pelo retreinamento dos desempregados para que eles se adaptem a mudanças no mercado de trabalho. Adelaide França, por exemplo, fez um curso de computador enquanto estava desempregada e, depois, encontrou trabalho com a ajuda do próprio Job Centre. Renda Economistas europeus também argumentam que o mercado de trabalho na Grã-Bretanha é mais flexível do que em países europeus que têm alta taxa de desemprego, como França ou Alemanha. No anos 1980, durante o período do governo da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, o poder dos sindicatos foi esvaziado e eles perderam o poder de barganha para exigir aumentos de salário mesmo quando a economia não estava crescendo. Esse maior flexibilidade também existe na Dinamarca e na Holanda, dois países que têm taxas de desemprego entre as mais baixas da Europa. Mas nesses dois países, existe uma negociação direta entre sindicatos de trabalhadores e empregadores, intermediada pelo governo, para fixar reajustes de salário compatíveis com o crescimento da economia. Na Grã-Bretanha, a renda dos trabalhadores vem crescendo ao mesmo tempo em que cai a taxa de desemprego. Nos 12 meses terminados em fevereiro, a renda média no país cresceu 4,9%, bem mais que o dobro da inflação anual que ficou em 1,8%. A economia britânica deve ter mais um ano de expansão em 2004. A previsão oficial é de que a taxa de crescimento deve ficar entre 3% e 3,5%. Isso é pouco para um país em desenvolvimento, mas é muito para um país desenvolvido. Se essa expansão for confirmada, a tendência é de alta da renda e do emprego na Grã-Bretanha novamente em 2004. |
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