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Chile discute legado político e econômico do golpe
A queda, sob tiros e bombas, do socialista Salvador Allende, há trinta anos, mudou radicalmente o rumo político e econômico do Chile, país que recentemente assinou um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. "Estamos pisando um caminho novo. Marchamos sem bússola por um terreno desconhecido", afirmou o próprio presidente Allende, justificando a linha de governo que adotava, dois anos antes do golpe, e ainda nos tempos da Guerra Fria. Médico, deputado e ministro da Ação Social, antes de chegar ao palácio presidencial de La Moneda, Salvador Allende estatizou a economia do país, distribuiu terras e implementou a participação dos trabalhadores nas empresas, durante os três anos em que esteve no poder. Numa guinada de 360 graus, após comandar o sangrento golpe daquele 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet – cujo diagnóstico médico o definiu como "demente" - traçou outro caminho para esse país de 15 milhões de habitantes, abrindo a economia ao capital externo, lançando a previdência privada, controlando a inflação e o déficit fiscal. Elogios Medidas econômicas que acabaram merecendo elogios da esquerda e da direita, sempre dividida na hora de avaliar os outros capítulos do seu governo, especialmente os crimes contra os direitos humanos. Ao longo de 17 anos de ditadura, o Chile registrou cerca de 3 mil vítimas fatais e hoje reabre fossas clandestinas, em endereços desconhecidos, para tentar recuperá-las. "Nós também tivemos nosso 11 de setembro. E de lá para cá, o Chile passou de um país polarizado a um país de grandes consensos. Hoje, todos os chilenos dizem: nunca mais", escreveu o presidente socialista Ricardo Lagos, em diferentes jornais, marcando este 11 de setembro. "Há 15 anos, nós demos um 'não' à ditadura, formamos a Concertación e integramos as Forças Armadas aos novos tempos democráticos", acrescentou. A Concertación é a coalizão de governo que une socialistas, como Lagos, e integrantes da Democracia Cristiana, partido do ex-presidente Eduardo Frei. O ex-presidente Patricio Alwin – primeiro democrático, após a saída de Pinochet da Presidência – acha que tudo poderia ter sido diferente se Allende tivesse convocado um plebiscito para saber se o povo queria ou não sua continuidade na cadeira presidencial. História diferente Para ele, que é da Democracia Cristiana, partido conservador e de centro, talvez a história política e econômica do Chile tivesse sido outra, bem diferente. "O desejo acelerado de estatizar toda a economia teria sido, certamente, derrotado nesse plebiscito e, conseqüentemente, as causas que geraram a resistência ao sistema e à ditadura poderiam ter sido evitadas", entende Alwin. Para o sociólogo chileno Manuel Garretón, professor da Universidade do Chile, "não passa de mito" a versão – quase generalizada – de que a economia do país entrou nos trilhos durante a ditadura. Na sua opinião, foi durante o processo democrático, reiniciado a partir de 1989, que o país encontrou a trilha para a justiça social. "Quando os chilenos reprovam o crime dos direitos humanos e afirmam que a ditadura deixou um modelo econômico de sucesso, só estão tentando ficar com a conciência tranqüila”, afirmou. "A verdade é que, antes do golpe contra Allende, o Chile registrava a segunda melhor distribuição de renda da América Latina e hoje está entre os piores. Portanto, não existe nenhuma herança positiva da ditadura de Pinochet", enfatizou. |
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