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Produtor rural está otimista em relação a Cancún
O conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e ex-presidente da entidade, Pedro de Camargo Neto, está otimista em relação às negociações do encontro ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que acontece em Cancún, no México, a partir desta quarta-feira. "Cheguei achando que não iríamos progredir, mas agora acho que os países desenvolvidos sentiram a pressão e vão nos oferecer algo que vamos analisar e ver se é aceitável", afirmou em entrevista à BBC Brasil. O representante do setor agrícola refere-se ao Grupo dos 20, que reúne países responsáveis por metade da produção agrícola mundial, unidos contra os subsídios oferecidos pelos Estados Unidos e pela União Européia para seus agricultores. Camargo Neto já foi negociador na Rodada de Doha, em novembro de 2001, quando era secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura. Agora, integra a missão oficial brasileira como representante do setor privado. Ele não teme um fracasso das negociações, justamente porque não considera que a eventual ausência de acordo seria um fracasso. "Fracasso seria sermos obrigados a assinar um acordo ruim em Cancún, como já aconteceu no passado", afirma, ressaltando que não acredita que o governo brasileiro assinaria um acordo que fosse ruim para a agricultura. Veja a seguir a entrevista concedida à BBC Brasil por telefone, de Cancún. BBC Brasil - O que se pode esperar da reunião ministerial de Cancún? Pedro de Camargo Neto - Acredito que daremos um passo à frente. O Brasil se posicionou de maneira muito firme em favor da agricultura. Está muito claro hoje que sem progresso significativo na questão agrícola nada acontecerá aqui em Cancún. Os países desenvolvidos, que dão os grandes subsídios, estão com a responsabilidade de dar um passo à frente e nos oferecer uma proposta aceitável. O Brasil está junto com um grupo grande, um grupo que está aumentando e está se solidificando. Existe uma posição muito clara dos países em desenvolvimento: ou as distorções, os subsídios no comércio internacional, são eliminadas ou não tem sentido falar em progresso, falar em acordo agrícola na OMC. Mas é um confronto. Significa que Europa e Estados Unidos têm que se mexer, alterar suas políticas. Se eles vão fazer isso ou não aqui esta semana acho que é cedo pra dizer. Cheguei aqui achando que não ia ter progresso nenhum, hoje estou achando que talvez eles estejam sentindo a pressão e talvez venham a nos oferecer algo que vamos analisar e ver se é aceitável. BBC Brasil - O senhor acha que é justamente a posição coesa desse grupo de exportadores (o G-20, liderado pelo Brasil) que fez com que países desenvolvidos recuassem? Camargo Neto - Acho que existe uma coesão clara nos países em desenvolvimento. Encontrou-se um denominador comum, que é a questão do subsídio às exportações, das distorções no comércio internacional. É um denominador comum simples, fácil de entender, fácil de apoiar, que tem apoio inclusive das populações urbanas nos países desenvolvidos. O Brasil está com uma bandeira boa, com um apoio grande e tem boas chances de sair vencedor. BBC Brasil - Existe alguma chance concreta de o Brasil sair da reunião com um mercado maior para os produtos agrícolas brasileiros? Camargo Neto - Existe. Se nós conseguirmos eliminar o subsídio à exportação ganhamos o espaço que hoje é ocupado pela Europa e pelos Estados Unidos vendendo sua produção subsidiada para outros países. Eles não terão condições de competir conosco, que somos mais eficientes. BBC Brasil - Qual seria o efeito imediato, para o Brasil, da redução dos subsídios? O Brasil iria realmente inundar o mundo com seus produtos, como temem os países desenvolvidos? Camargo Neto - Não. Ele iria ocupar grande parte do que hoje a Europa exporta, já que toda a exportação é com subsídio e perderia a competitividade. Esse mercado seria dividido entre Brasil, Argentina, Austrália e outros países. Essa divisão a gente não sabe como será. Vai depender da nossa competitividade nos anos futuros. Os Estados Unidos exportam algodão, milhão, arroz com subsídios e terão que fazer um ajuste interno pra ver se têm condições de concorrer de igual para igual conosco sem subsídios. Não é uma reforma agrícola completa, ainda tem Alca, ainda tem acordo Mercosul-União Européia. Mas é um passo muito importante, que só pode ser feito na OMC, em âmbito multilateral. É um passo politicamente possível. Ainda fica faltando muito para corrigir o total das distorções no comércio agrícola. Mas é importante que em Cancún se dê esse grande passo. BBC Brasil - O senhor já participou da reunião de Doha como negociador. Como vê a posição do governo brasileiro agora, nesta reunião? Camargo Neto - Acho igualmente forte. Nós em Doha, na época em que eu era governo, tínhamos uma posição muito clara de não mexer no texto, e seguramos até o fim, só mudaram umas palavrinhas sem muito significado. Essa negociação de Cancún é mais complexa do que Doha, porque não é mais uma discussão de princípios, mas negociações de fato. Mas eu vejo o governo brasileiro novamente muito firme. BBC Brasil - O governo brasileiro tem, então, boas chances de conseguir o que quer nesta reunião? Camargo Neto - Tem sim. Não é fácil, mas sou otimista. Temos chances principalmente de não sermos enganados, de sairmos daqui assinando algo que nos prejudique. Porque no passado já fomos obrigados a assinar coisas que nos prejudicavam. Esse é o pior dos mundos. BBC Brasil - Teme-se um fracasso de Cancún. O senhor acha então que isso está mais distante agora? Camargo Neto - Se não houver acordo, se os países desenvolvidos não cederem, isso será chamado de fracasso, mas eu não vejo assim. Eles não cederam, mas nós ganhamos porque nós não cedemos. Fracasso seria sermos obrigados a assinar um acordo ruim em Cancún, como já aconteceu no passado. BBC Brasil - E o senhor não vê essa possibilidade agora? Camargo Neto - Acho que nós estamos mais conscientes, mais preparados, mais unidos. Não acredito que a gente vai fazer essa burrada desta vez não. BBC Brasil - Os Estados Unidos estão tentando quebrar a coesão do G-20. O senhor acha que eles não vão conseguir? Camargo Neto - Acho que não. A coesão do G-20 é em cima de um tópico – o subsídio à exportação – que é muito bem bolado. É fácil manter a coesão. É uma união em torno de um tema simples e indefensável. BBC Brasil - O senhor tem conversado com representantes de outros países do grupo? Camargo Neto - Tenho conversado com pessoas do setor privado dos outros países, e vejo um ânimo igual. |
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