BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 26 de julho, 2003 - 17h03 GMT (14h03 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Ex-secretário de FHC critica política cambial de Lula

José Roberto Mendonça de Barros
Economista diz que governo errou na questão da taxa de câmbio

O governo errou ao permitir oscilações tão intensas na taxa de câmbio, prejudicando justamente o setor que poderia puxar a recuperação da economia este ano.

A avaliação é do economista José Roberto Mendonça de Barros, diretor da consultoria MB Associados, professor da Universidade de São Paulo e secretário de Política Econômica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“O governo estava muito focado na questão da inflação. Só que isso vai ter um custo nas exportações e, portanto, no crescimento”, analisa.

Mendonça de Barros diz que, para estimular a economia, o governo precisa atuar em três pontos: definir novas regras para o setor de infra-estrutura e atrair novos capitais privados; reduzir drasticamente os juros, barateando o crédito e incentivando o consumo e estimular as exportações.

Leia os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - O senhor já disse que 2003 está perdido do ponto de vista do crescimento. Que cenário o senhor vê nos próximos meses?

Mendonça de Barros - É um cenário de crescimento muito lento, mas com alguma recuperação para o fim do ano. Nós esperamos, como todo mundo, que as taxas de juros sejam reduzidas ao longo do segundo semestre e, com isso, o crédito ao consumidor deve crescer e alguma reativação no comércio deve ocorrer, especialmente nas vendas do Natal. Portanto o último trimestre do ano vai revelar um desempenho melhor do que a média do ano, mas ainda assim o PIB deste ano deve crescer 1,5%, 1,6% - bastante modesto. Para o ano que vem, se não houver nenhuma dificuldade no cenário internacional, esperamos um crescimento de 3%, vindo principalmente da recuperação da demanda doméstica, com o aumento do crédito.

BBC Brasil - Porque as exportações, que sustentaram o crescimento no primeiro semestre já não devem crescer tanto agora nos próximos meses?

Mendonça de Barros - A exportação foi o carro-chefe no fim do ano passado e nos primeiros meses deste ano. Do crescimento obtido, embora pequeno, quase tudo veio da exportação. Agora haverá uma certa desaceleração, em parte por causa da valorização do real nos últimos meses e em parte por causa da comparação com uma base melhor no fim do ano passado.

Mas o que vai agora despertar a atenção dos agentes e analistas é o investimento. Em 2000 e em outras ocasiões nós recuperamos o crescimento, partindo de juros muito alto. Quando o juro doméstico caiu, o consumo e o crescimento se recuperaram. Mas isso não se sustentou. O próprio ministro da Fazenda tem falado, corretamente, que o que está em jogo, além da recuperação, é a sustentabilidade dessa recuperação, e isso só se faz com investimento. O nível de investimento continua muito baixo. Tanto o investimento direto estrangeiro quando o investimento local.

BBC Brasil- O que o governo deveria fazer para atrair esses investimentos?

Mendonça de Barros - Além de baixar os juros, a coisa mais relevante é a regulação econômica. É na infra-estrutura que as dúvidas são maiores. Estamos tendo até desinvestimento. Empresas que investiram no Brasil nos últimos anos estão vendendo suas operações e retornando para seus países. Isso acontece em bancos, telefonia, comércio, seguros. Mas é na área de infra-estrutura – energia, telefonia, petróleo - que o movimento é maior.

Isso porque o retorno esperado pelo acionista majoritário no exterior não se materializou. E não se materializou primeiro por causa da frustração em relação ao crescimento do país. Por exemplo, telefones. Nós temos muitos telefones, mas temos poucos consumidores porque falta renda, portanto o mercado cresce pouco. O mesmo vale para automóveis.

Esse não é um problema específico do Brasil, e muitas vezes trata-se de um reposicionamento estratégico da empresa. Por exemplo, a Royal Ahold (dona no Brasil da rede de supermercados Bompreço) teve um problema nos Estados Unidos, e está vendendo sua operação no Brasil. Boa parte está sendo comprada por grupos locais e não tem investimento novo no país.

Como fazer para reverter isso? Parte não está nas mãos do Brasil, mas parte está e tem muito a ver com o papel das agências reguladoras. A regulação e o cumprimento de contratos. E no momento em que discute o novo modelo do setor elétrico é natural que os investidores, que vêm atravessando uma fase muito difícil desde o racionamento, fiquem mais cautelosos antes de tomar decisões de novos investimentos. Como o Estado não tem dinheiro para fazer os investimentos sozinho, nós ficamos nesse impasse. Tem que avançar na regulação, reconquistar a mente e os corações dos investidores para que esses projetos novos possam ir adiante.

BBC Brasil - E que medidas o governo deveria tomar para estimular a economia?

Pela ordem de importância, antes de tudo a regulação.

A segunda questão, onde o governo está tentando fazer alguns esforços, mas ainda não conseguiu, é a popularização do crédito. O crédito no Brasil ainda é muito caro, tanto para o consumidor como para o capital de giro. E somente o barateamento do crédito vai permitir o aumento do consumo, porque a renda do consumidor não vai dar um salto no curto prazo.

A terceira – e aí o país perdeu uma boa oportunidade – é dar sustentação mais agressiva às exportações. Os modelos asiático, chileno, de vários países, demonstram isso. Num mercado doméstico limitado, uma forma de ganhar escala e atrair investimento é exportar. No ano passado, no começo deste ano, pareceu a todos que finalmente iríamos começar a ter um crescimento puxado pelas exportações, mas essa valorização do real nos últimos meses traz dúvidas para os novos exportadores, de qual é o dólar que você pode fazer conta. Se é R$ 2,80, R$ 3,20, R$ 3,50.

A flutuação exagerada, em qualquer país do mundo, faz mal para ao cálculo econômico. É preciso deixar claro se as exportações são de fato a prioridade do país. Não para o ministro Furlan, porque para ele é mesmo, a gente sabe e ele está fazendo até um bom trabalho. Mas não vejo isso como prioridade do país e isso deveria ser buscado.

BBC Brasil - Todos os analistas prevêem um câmbio de R$3,20, R$3,30 até o fim do ano. O senhor acha que o estrago já está feito?

Mendonça de Barros - O que precisa é o empresário ter a percepção se a exportação é de fato prioridade para o governo ou não. Na nossa história para trás tem sempre sido recorrente a seguinte situação: a situação aperta, os governos, não é só este, tentam estimular a exportação. Melhora o fluxo cambial, melhora o mercado, aí não, aí já não é tão importante. Assim fica muito difícil criar o exportador profissional. A experiência de muitos países, da Itália, da Alemanha, mostra que o que mantém a exportação é estimular as empresas médias, algumas poucas grandes e muitas médias, porque isso dá diversidade.

Nós temos um cliente, uma organização internacional que no ano passado ia fazer um investimento e montar aqui uma plataforma de exportações. Quando o dólar caiu abaixo de R$ 3,00 cancelou o projeto porque ficou em dúvida se seria rentável.

BBC Brasil - O senhor acha que isso foi um descuido do governo?

Mendonça de Barros - Acho, acho que foi um equívoco. O único. A área econômica do governo trabalhou muito bem desde o começo, pegou uma situação difícil, ganhou confiança, foi muito competente em fazer isso. Mas a operação do câmbio, estimular, de certa forma, a excessiva valorização eu acho um erro. Se olharmos para trás na história do Brasil todas as vezes que o governo usou o câmbio para segurar a inflação, se arrependeu.

BBC Brasil - O processo da reforma da Previdência enfrenta problemas até com a ameaça de greve do Judiciário. O senhor acha que isso pode ameaçar a reforma tributária?

Mendonça de Barros - Está num momento crucial, porque é quando o projeto vai para o Plenário que fica mais difícil. A nossa avaliação é que a versão atual da reforma da Previdência se for levada adiante, ainda conduz a uma boa reforma.Um pouco diferente da versão original que foi colocada pelo governo, mas ainda é uma boa reforma.

Mas o que é preocupante é essa trombada de frente com o Judiciário. Até porque, no limite, quem vai votar a constitucionalidade do que for votado é o próprio Judiciário. Para o mercado financeiro, que já tinha “precificado” a aprovação das reformas, isso leva a flutuações, e elas vão continuar até a aprovação final.

A tributária está sendo objeto de negociações mais difíceis. Mas ao contrário da previdenciária, a tributária não é uma reforma, é um conjunto de medidas que não guardam relação entre si.

Ela não tem a menor preocupação de desonerar o sistema produtivo, por exemplo.

A minha sensação é que ela não vai ser aprovada. Ou, se for aprovada, dificilmente será regulamentada. Não tem acordo possível entre estados produtivos, consumidores, entre grupos de produtos. Ainda está muito crua. Uma coisa que ainda tem que ser mais bem elaborada. Não acredito que daí pode sair alguma coisa significativa.

LINKS EXTERNOS
A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade