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Mesmo com queda da Selic, juros reais devem dobrar
Apesar da redução de 1,5 ponto percentual na taxa Selic, anunciada na reunião desta quarta-feira do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a taxa real de juros pode mais do que dobrar até o fim do ano, dos atuais 5,1% para 12,3%. As contas foram feitas pela consultoria econômica Global Invest, considerando a taxa de juros do CDI (pela qual são feitos os empréstimos entre os bancos). O estudo, que também leva em consideração a projeção da inflação e da taxa básica de juros dos próximos 12 meses, foi realizado antes do anúncio da redução da Selic de 26% para 24,5% ao ano. A taxa real é calculada levando-se em conta a taxa nominal menos a inflação do período e mostra em quanto, realmente, o dinheiro está ficando mais caro. Entre junho e julho, com a forte desaceleração da taxa de inflação, a taxa real de juros acumulada em 12 meses já subiu de 4% para 5,1%, considerando o aumento do CDI acumulado de 21,90% para 22,6% em junho e a queda da inflação (IPCA) acumulada em 12 meses de 17,24% para 16,57%. No topo Com isso, o Brasil está em 7º lugar entre os países com maior taxa de juros reais do mundo, de acordo com o levantamento da Global Invest em 40 países, 17 desenvolvidos e 23 emergentes. Se os juros e a inflação mantiverem a trajetória atual, em setembro o Brasil voltará à liderança na lista de países com maior taxa de juros real do mundo. Considerando a inflação projetada para os próximos 12 meses conta preferida por alguns economistas por mostrar a tendência futura em vez de fazer o cálculo com base na inflação passada o Brasil já é o primeiro, com uma taxa de 17,6%. A segunda taxa, de Israel, é de 7,7%, menos da metade. Ao mesmo tempo, a média das taxas de juros reais no mundo nunca esteve tão baixa. O levantamento da Global Invest mostra uma média de juro real de 2% nos 40 países, com uma média de 0,7% nos países desenvolvidos e de 3% nos emergentes. "O juro real está numa trajetória crescente, porque os preços estão caindo rapidamente e no acumulado de um ano cada mês de inflação alta vai sendo substituído por um índice de deflação", diz o economista-chefe da Global Invest, Marcelo de Ávila. Apesar da expectativa de corte constante daqui para a frente na taxa Selic, o estudo da Global Invest mostra aumento também na taxa de juros nominal acumulada em 12 meses. A queda só deve ocorrer em dezembro. O Brasil também tem a segunda maior taxa de juros nominal entre os 40 países pesquisados, atrás apenas da Turquia, com taxa nominal de 38,3% em junho. O aumento da taxa real reduz ainda mais as chances de o Brasil crescer nos próximos meses. "A taxa real alta é que trava a economia, porque deixa os créditos mais caros e reduz o investimento", diz Ávila. A Global Invest prevê um crescimento de apenas 1,2% no PIB brasileiro este ano, com queda no segundo semestre, já que as exportações serão menores do que na primeira metade do ano. O economista José Roberto Mendonça de Barros, professor da USP e sócio da consultoria MB Associados, acha que o taxa de juros real de 17% (considerando a inflação futura) não permite o crescimento da economia. "Para o país ter alguma chance de voltar a crescer, essa taxa real precisa estar em 9%. Senão, não tem projeto de investimento que consiga competir com os 17% de rendimento de um papel do governo, que não tem risco nenhum", afirma. Ele reconhece que o processo vai demorar. "É por isso que a nossa expectativa de crescimento para este ano é modesta, cerca de 1,6%", diz ele. Para 2004, ele espera um crescimento um pouco melhor, de 3%, mas ainda inferior ao que o Brasil precisa para reduzir o desemprego e distribuir renda. "O crédito vai baratear, mas estamos saindo de um patamar tão elevado que vai baratear pouco e portanto o efeito na economia não será tão grande assim", diz Mendonça de Barros. Além do dano ao crescimento do país, o choque dos juros também custou caro aos cofres públicos. De acordo com a Global Invest, mesmo com uma queda de um ponto percentual ao mês até o fim do ano, a elevação dos juros terá um custo, até o fim do ano, de R$ 29 bilhões, com o aumento do custo da dívida do governo. Se a taxa Selic de 26% fosse mantida, o custo seria ainda maior, de R$ 38 bilhões. Por outro lado, o 0,5 ponto reduzido no mês passado representou uma economia de R$ 2,1 bilhão. Consumidor O presidente da Associação dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira diz que o maior problema não é a taxa Selic, mas os juros cobrados do consumidor. A pesquisa mensal sobre juros realizada pela entidade mostra que a taxa média cobradas das empresas foi de 82,9% ao ano em junho, enquanto os juros para pessoa física ficaram em 165% ao ano. "O consumidor está sendo punido de três formas: pagando juros maiores, com o menor volume de crédito no mercado e com o encurtamento dos prazos de pagamento", afirma Oliveira. "Num ambiente de queda de renda como este que temos, o consumidor não consegue pagar e o resultado está aí, nas vendas fracas, nos estoque elevados." |
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