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Royal Academy expõe sensualidade de Paris | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um ícone do movimento art déco parisiense é tema de uma exposição na Royal Academy of Arts de Londres, que será aberta ao público nesta sexta-feira e vem cercada de badalação. Pela primeira vez na capital britânica, serão reunidos 55 quadros da pintora Tamara de Lempicka, muitos deles nunca vistos pelo grande público. A obra de Tamara é disputada nos bastidores por colecionadores famosos, como a cantora Madonna e a estilista Donna Karan. Não só o trabalho da pintora, carregado de sensualidade, como também sua vida pessoal e aventuras amorosas refletem o glamour e os excessos da Paris dos anos 20. Beleza e talento A mostra da Royal Academy é uma espécie de reavaliação da obra de uma artista figurativa cultuada durante um certo período e depois ofuscada pelo expressionismo abstrato. Tamara de Lempicka nasceu na Rússia, em 1889 e, filha de família rica, fugiu da revolução bolchevique instalando-se com seu marido, o aristocrata Tadeusz Lempick, em Paris. Na capital francesa, estudou artes plásticas e desenvolveu um estilo que reunia influências clássicas e modernistas. Socialite militante, bonita e talentosa, em pouco tempo a jovem alcançava o sucesso, pintando retratos de amigos endinheirados e famosos, de artistas e escritores consagrados.
Um passeio pelas galerias da Royal Academy revela alguns deles: o príncipe Enstoff, da nobreza georgiana, o escritor André Gide, o grão-duque Gabriel, primo do czar russo, e o farmacêutico milionário doutor Pierre Boucard. Tédio calculado Aos 27 anos, ela já fazia sua primeira exposição individual em Milão e era retratista disputada em vários países europeus. Seus quadros revelam uma forte influência cubista suavizada por uma formação neoclássica. Pelo pincel da artista, a forma humana ganha qualidades de escultura e uma textura quase metálica. As figuras dominam o quadro: são apresentadas em poses altamente calculadas, iluminadas de maneira dramática, e com ares de tédio profundo – o tédio de quem já fez de tudo, já viu de tudo. Como a própria De Lempicka. Vida de excessos A jovem pintora não só retratou como viveu o luxo e a sofisticação. Com uma beleza que lembrava a de Greta Garbo (de quem foi amiga), ela dava grande importância à sua imagem e cultivava extravagâncias, como a de combinar sua roupa com seus carros. A femme fatale Tamara de Lempicka também viveu os excessos e liberalidades a que se entregavam a elite e os boêmios da Paris dos anos 20 e 30. Promoveu festas memoráveis, assumiu publicamente sua bissexualidade e teve inúmeros casos extraconjugais. Um deles foi com uma de suas modelos, retratada no quadro Rafaela no Jardim, também exposto na Royal Academy e considerado uma de suas obras-primas. Segundo Kizette de Lempicka, filha da artista, ela teria abordado a modelo durante uma caminhada pelos jardins do Bois de Boulogne. Mulheres fortes
Os nus assinados por ela também ganham destaque na mostra, revelando o fascínio da pintora pela forma feminina. São altamente sensuais, alguns com voltagem erótica. Em sua obra, a mulher aparece ora ultrafeminina, ora masculinizada, mas sempre forte (e com os seios acentuados, verdadeiros mísseis). Nobre Tamara De Lempicka casou pela segunda vez com o barão Raoul Kuffner, um latifundiário e industrial de origem austro-húngara que, além da fortuna, deu a ela o título de nobreza que ela sempre desejou. Embora a vida amorosa e financeira estivessem resolvidas, a artista passou por uma crise de criatividade seguida de depressão em meados dos anos 30 (considerando até entrar para um convento italiano) e, em 1939, imigrou para os Estados Unidos. Mas suas novas criações nunca lhe renderam o sucesso anterior. Depois do fracasso de uma retrospectiva em Paris e Nova York, nos anos 60, desistiu de expor. Antes de sua morte, em 1980, porém, Tamara de Lempicka ainda teve o gostinho de revisitar sua fama de ícone da art déco. Uma mostra organizada por jovens galeristas com quadros dos anos 20 e 30 colocou novamente o nome da pintora no mapa das artes plásticas. Era o início de um retorno, como demonstra a exposição na Royal Academy, que fica em cartaz até 30 de agosto. |
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