|
Restos de García Lorca reabrem feridas da guerra civil espanhola | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A pressão para a reabertura da vala comum onde o poeta Federico García Lorca foi enterrado reabriu um debate público na Espanha sobre o legado da guerra civil espanhola. García Lorca nunca se considerou um "poeta político", mas sim um "homem do povo". O principal tema de suas obras sempre foi o sofrimento humano e as injustiças. No entanto, no período que antecedeu a guerra civil, na década de 1930, isso era o suficiente para colocar García Lorca na lista das pessoas odiadas pelos nacionalistas de extrema direita. Como milhares de outras vítimas do conflito, o poeta foi baleado e morto em agosto de 1936 e acabou enterrado em uma vala comum. Para muitos espanhóis, a morte de García Lorca simbolizou a dolorosa história do país no século 20 e a luta da Espanha para acertar as contas com seu próprio passado. 'Valas do esquecimento' Mais de 25 anos depois da redemocratização da Espanha, cerca de 30 mil vítimas da guerra civil e da repressão dos anos seguintes ainda permanecem enterradas em valas comuns espalhadas pelo país – as chamadas "valas do esquecimento". A vala onde o poeta está enterrado foi descoberta pelo irlandês Ian Gibson, um estudioso da vida e da obra de García Lorca, que começou a procurar o corpo do escritor espanhol em 1965. "É claro que, na época, os espanhóis viviam em uma ditadura e não eram livres para falar dos assassinatos e das valas comuns", disse Gibson. "Mas, ainda hoje, as pessoas afirmam que é melhor esquecer. Como a Espanha pode esquecer se isso nunca foi oficialmente lembrado? Cicatrizes não podem ser curadas até que você admita que elas estão lá", acrescentou o irlandês.
Outros ativistas, como Emilio Silva, também acreditam que o passado não deve ser esquecido. Há três anos, Silva fundou a Associação para Recuperação da Memória Histórica e começou o processo para abertura das valas comuns na Espanha. "Trinta mil famílias espanholas não têm um cemitério para levar flores. Os entes queridos delas estão jogados com outros infelizes em valas comuns." De acordo com Emilio Silva, o caso de García Lorca desperta tanta atenção que as famílias de algumas outras vítimas chegam a se sentir ressentidas. "Eles não entendem como, apenas porque era um poeta e escritor, ele deve receber tratamento especial", afirma o ativista. "Mas acho que isso vai funcionar a favor deles. A fama de García Lorca é uma chance para a gente dizer ao resto do mundo que temos um problema." Pacto do Silêncio No entanto, há também aqueles que argumentam que o passado da Espanha permanece enterrado com as suas vítimas para o bem do país. Em 1975, os políticos espanhóis decidiram colocar um ponto final no legado da guerra civil e dos 40 anos de facismo na Espanha. Desde então, nunca houve uma revisão de tudo o que ocorreu no país. O episódio ficou conhecido como Pacto do Silêncio. Mesmo após décadas, muitos espanhóis permanecem relutantes diante da idéia de romper o "acordo". Um deles é o parlamentar Manuel Atencia. "É claro que o governo reconhece os direitos das famílias de fazer um novo enterro privado para seus mortos. Mas nós não vemos razão para reabrir antigas feridas da sociedade espanhola. Esses assuntos são para historiadores, não políticos", disse o parlamentar. Muitos outros espanhóis concordam com Atencia. Até mesmo parentes de García Lorca são contra a idéia de exumar o corpo do poeta – apesar dos protestos de fãs do escritor e das famílias dos homens que estão na mesma vala comum. "Nós achamos que as valas comuns são um tipo de cemitério da maneira como elas são", diz Laura García Lorca de los Rios, que dirige o museu Lorca, em Granada, onde o poeta e sua família viveram por muitos anos. "Meu tio descansa em boa e nobre companhia, e a pouca informação a ser colhida com a exumação não justifica o que é essencialmente um ato de extrema violência", acrescentou. Tristeza e dor Bloquear o passado, no entanto, não impede a dor. Quase 3 mil pessoas estão enterradas em uma vala comum em Viznar, um povoado próximo a Granada, perto do local onde acredita-se que García Lorca está enterrado. Como outras valas comuns na Espanha, há poucos sinais no local de que uma tragédia está enterrada sob o solo da região. Apenas algumas pedras e flores artificiais sinalizam a área. "Todos que vêm aqui sentem tristeza e dor", diz Paco Gonzalez Arroyo, um historiador local. "As flores e as pedras são um tributo das famílias aos mortos, de pessoas inconformadas em ver seus entes queridos abandonados anonimamente aqui." Para a Espanha, escavar o próprio passado pode ser o caminho para o país finalmente se livrar de seus fantasmas. Mas esse processo está apenas no início. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||