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Escritor português premiado lança novo romance
O escritor português António Lobo Antunes, que há duas semanas venceu o Prêmio Internacional União Latina de Literatura e freqüentemente tem seu nome na lista de candidatos ao Nobel, está lançando seu mais novo romance em Lisboa. Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo tem como cenário a Angola da guerra civil que ocorreu no país desde a independência até o ano passado. No livro, Lobo Antunes, de 61 anos, mantém a nova tradição da literatura portuguesa, que rompe com a forma tradicional de narrar as histórias, da qual um dos nomes mais conhecidos é José Saramago. Trata-se de uma escrita não-linear, em que a história é relatada através do fluxo de pensamento do narrador, de uma forma entrecortada, desmentindo-se e reafirmando-se a cada parágrafo. Médico Boa Tarde marca a volta do escritor ao terreno que inspirou grande parte dos seus livros: o mundo colonial português. Ele foi médico ligado do Exército português por dois anos durante a guerra colonial. “Eu não desejaria que fosse feita uma leitura colonialista, antropológica, sociológica ou psicológica dos meus livros, mas que se entrasse neles pelo negrume da existência humana”, explicou o autor, na apresentação do livro. “Tentar abordar as coisas por trás, os assuntos por trás, e tentar levar as pessoas com o livro ou através do livro, até o poço de atribulação que tantas vezes a vida é.” Lobo Antunes, que é psiquiatra, volta a colocar seus personagens numa situação extrema. Apesar de tratar de um tema político, ele explora o lado psicológico das pessoas, apresentando-as de uma forma crua. “O que me interessa é usar uma gama de significados infinita, significados obscuros que se entrelaçam, se misturam, se separam, se voltam a reunir, rejeitando todo o realismo, todo o naturalismo, todos os ismos que os sucederam, correndo o risco, para um leitor habituado a este tipo de narração, de parecer confuso, ou de causar alarme aos espíritos que se pretendem nítidos no interior do absurdo da existência”, disse o escritor. Bola histérica Para Lobo Antunes, o ato de escrever pode ser comparado a um caso psiquiátrico que ocorreu em Lisboa com o prêmio Nobel de Medicina Egas Moniz, e que foi contado a ele por seu pai, que também era médico. “Era uma senhora que tinha uma bola histérica. Uma bola histérica é a sensação de uma pessoa que quer engolir, e sente que há um obstáculo que impede a comida de passar. Essa senhora não conseguia comer nada e começou a emagrecer”, contou o escritor Egas Moniz preparou uma encenação: “Mandou fazer uma bola grande de sebo, cheia de pêlos, anestesiou a senhora e quando a senhora acordou da anestesia mostrou aquela bola cheia de pêlos e disse: ‘Está aqui, aquilo que a impedia de engolir’. E a senhora olhou para aquela bola de sebo cheia de pêlos e disse: ‘Pois, de fato está aí. O problema é que já estou com outra’”. Neste momento, Lobo Antunes também tem praticamente pronto um novo livro, que está em processo de revisão – ele reescreve várias vezes cada livro antes de publicar e depois não consegue mais relê-los. Lobo Antunes acredita que este será um dos seus últimos livros. Ele acredita que chegando à idade de 70 anos um escritor deveria deixar de escrever, porque começa a se repetir. E como ele demora cerca de dois a três anos para escrever cada livro, não haveria tempo para outras obras. |
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