Congresso aprova PEC da Transição: Lula vence '1º round', mas Centrão 'segue poderoso'

Arthur Lira e Lula

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Arthur Lira e Lula vêm mantendo diálogo desde que o petista venceu as eleições. PEC da Transição foi 'teste de fogo' para novo governo

A aprovação do texto-base da PEC da Transição em dois turnos no Senado nesta quarta-feira (21/12), após votação favorável na Câmara dos Deputados, representou a vitória de um primeiro "round" no duelo político entre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam no entanto, que Lira e o Centrão "seguem poderosos", e o presidente da Câmara poderá revidar a derrota caso seja reeleito em fevereiro para o comando da Câmara.

A PEC da Transição é o apelido dado a uma proposta de emenda constitucional desenhada por aliados de Lula. Como é uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), não há necessidade de sanção presidencial. O texto deve ser promulgado ainda nesta quarta-feira.

A proposta prevê a ampliação do teto de gastos em até R$ 145 bilhões por um ano, o que, em tese, permitirá que o novo governo cumpra uma de suas principais promessas de campanha: pagar o Auxílio Brasil de R$ 600 em 2023.

O texto também permite que pelo menos R$ 23 bilhões resultantes de arrecadação extraordinária possam ser destinados a investimentos.

O duelo

A PEC da Transição tem sido vista como o primeiro "round" do embate entre Lula e Lira, porque os dois tinham interesses conflitantes em relação à medida.

Lula era o principal interessado na aprovação da matéria, porque ela abre espaço orçamentário para que ele cumpra algumas das suas promessas de campanha sem correr o risco de violar a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que poderia dar margens para um pedido de impeachment.

Do outro, Lira, segundo especialistas, teria usado a tramitação da PEC para pressionar o novo governo por cargos e o Supremo Tribunal Federal (STF) para manter as chamadas emendas de relator-geral do Orçamento.

Essas emendas ganharam o apelido de "orçamento secreto" por serem emendas que não contêm todas as informações sobre seus verdadeiros autores nem eram suficientemente claras em relação à aplicação dos recursos.

Seus críticos afirmam que elas abriam brechas para corrupção e vêm sendo vistas como uma das fontes de poder de Lira.

Para Lula, ceder cargos a Lira poderia trazer problemas dentro de sua aliança. Além disso, manter o orçamento secreto intacto também colocaria o petista em uma situação incômoda, porque, durante a campanha, ele se posicionou contra o esquema e porque isso preservaria o poder de Lira sobre os parlamentares.

Ministro Gilmar Mendes

Crédito, Fellipe Sampaio/STF

Legenda da foto, Gilmar Mendes decidiu que os gastos do Auxílio Brasil poderão extrapolar o teto de gastos

Duas decisões do STF deram fôlego a Lula no embate. Uma decisão em caráter liminar do ministro Gilmar Mendes permitiu que os gastos com o Auxílio Brasil possam ser feitos extrapolando o teto de gastos. A decisão era, na prática, uma espécie de "salvo-conduto" para o novo governo caso a PEC não fosse aprovada.

A segunda foi o julgamento que declarou a inconstitucionalidade das emendas de relator, mecanismo defendido por Lira e diversos aliados do chamado Centrão.

Para o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Claudio Couto, a aprovação PEC é uma vitória "imensa" de Lula.

"A balança de poder entre Executivo e Legislativo volta a ficar mais favorável ao presidente, desempoderando em alguma medida os presidentes das duas Casas, principalmente o da Câmara", diz Couto.

Para a professora de Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Deysi Cioccari, as decisões do STF sobre o Auxílio Brasil e o orçamento secreto ajudaram Lula a sair na frente de Lira nesse primeiro embate.

"Lula sai na frente pelos dois reveses que Lira tomou nesta semana. A redução da vigência da PEC (de dois para um ano) é uma minivitória de Lira, mas a verdade é que o jogo foi redesenhado. Lira já não é absoluto, não enquanto não se articular novamente pra garantir a recondução à presidência da Câmara", diz Cioccari.

A ressalva feita pela professora se deve por conta da diferença entre o que foi sugerido pela equipe de Lula e o que foi aprovado.

Inicialmente, o time do petista sugeriu que as despesas do Auxílio Brasil de R$ 600 e mais um bônus de R$ 150 por família com crianças de até 6 anos de idade ficassem fora do teto de gastos por período indeterminado. Depois, o prazo caiu para quatro anos. No Senado, foi aprovado com dois anos. Na Câmara, porém, caiu para um — prazo que acabou sendo confirmado na volta do texto ao Senado.

Plenário da Câmara dos Deputados

Crédito, Senado Federal

Legenda da foto, Em fevereiro de 2023, parlamentares vão eleger novos presidentes da Câmara e do Senado

"Lula sai forte no sentido de mostrar pra Lira que não é tolo como (o presidente Jair) Bolsonaro que não sabia articular, mas, ao mesmo tempo, ele sabe que um embate muito direto pode desgastar seu futuro governo a ponto de inviabilizar o primeiro ano. Lira flutua e vai ter que mover a próxima peça do jogo e demonstrar astúcia. Lula 1 x 0 Lira", afirma Cioccari.

Para Couto, o fato de o texto aprovado ser diferente do proposto e liberar o estouro do teto de gastos por um período significativamente menor do que o desejado pelo governo não diminuem o peso da vitória de Lula sobre Lira.

"Dá para dizer que é uma vitória imensa se desde o começo (das negociações) o novo governo tinha isso (a mudança no texto) como viável. Como em muitas negociações, começa-se pedindo muito para finalmente chegar naquilo que se precisa", avalia o professor.

Arthur Lira

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Legenda da foto, Lira é tido como um dos políticos mais poderosos da República

Lira segue poderoso

Mas Claudio Couto e Deysi Cioccari avaliam que Arthur Lira ainda continua poderoso e poderá revidar a derrota. Isso seria ainda mais factível se ele se reeleger como presidente da Câmara.

O cargo é um dos mais cobiçados da política, porque concentra uma série de atribuições consideradas estratégicas para o sucesso de um governo.

Cabe ao presidente da Câmara, por exemplo, decidir pela abertura ou não de processos de impeachment e montar a pauta do que será votado na Câmara.

Em parte por isso e para manter um bom relacionamento com Lira, o presidente Lula conseguiu fazer com que o PT declarasse apoio à reeleição do deputado. Em entrevistas, o petista vem repetindo que seria um equívoco político interferir na eleição da presidência da Câmara e atuar contra o atual presidente da casa.

Lula relembrou o episódio ocorrido em 2005 quando o PT tentou emplacar o nome do então deputado petista Luis Eduardo Greenhalgh para a presidência da Câmara, mas acabou perdendo a disputa para o então deputado Severino Cavalcanti, que estava no PP de Pernambuco na época e era considerado um parlamentar do chamado "baixo clero", termo usado para designar políticos pouco expressivos.

"O segundo round vai ser a definição da presidência da Câmara. Se Lira chegar com fôlego, é bom se preparar, porque ele não se acomoda bem com manifestações simplistas de poder. Virá um jogo duro, e ele deverá exigir ministérios, estatais, etc", afirma Cioccari.

Couto afirma que Lira deixou de ser o "imperador do Japão", imagem usada por Lula durante a campanha para se referir ao deputado. "Mas segue muito poderoso, como todo presidente da Câmara bem articulado e hábil, mas bem menos poderoso do que era até aqui", avalia.

Couto diz, no entanto, que a vitória de Lula sobre Lira pode ser relativizada por conta de uma alteração no texto da PEC que destina R$ 9,85 bilhões para que o relator-geral do Orçamento possa fazer indicação de emendas parlamentares.

Segundo o cientista político, essa manobra pareceu uma tentativa de "drible" à decisão do STF que julgou o orçamento secreto inconstitucional.

"Ao que parece, é sim uma tentativa de drible. Precisa ver se o STF vai engolir essa manobra. Vamos ver se o drible se concretiza. Caso se concretize, a vitória (de Lula) diminui de tamanho."