Silvio Santos sempre viu política como forma de garantir negócios, diz biógrafo

Crédito, Divulgação/SBT
- Author, Gabriela Sá Pessoa
- Role, De São Paulo para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 7 min
Silvio Santos não gosta de conceder entrevistas e costuma vetar filmes e livros sobre sua trajetória.
A última dessas restrições aconteceu em dezembro de 2020, quando o apresentador completou 90 anos e proibiu que o SBT exibisse um programa especial para celebrar o aniversário de seu fundador.
Mas Silvio agora surpreendeu seus telespectadores ao deixar que o canal exibisse pela primeira vez, em 8 de agosto, um documentário sobre sua vida produzido em 2015, sob encomenda da esposa e das filhas por ocasião dos 85 anos do apresentador.
Disponível no YouTube, o documentário resgata preciosidades do acervo do Homem do Baú e reúne entrevistas inéditas com personalidades que, assim como o retratado, não costumam falar à imprensa, como o cantor Roberto Carlos, o bispo Edir Macedo, dono da TV Record, e o apresentador Fausto Silva.
Há também depoimentos de celebridades que morreram desde que o filme foi rodado, como os apresentadores Wagner Montes e Gugu Liberato.
Em duas horas, o filme repassa a vida do "patrão" do SBT, uma história que se confunde, em parte, com os sucessos da própria emissora — ganham destaque no documentário atrações como Casa dos Artistas, os vários programas de auditório e o seriado mexicano Chaves.
"O documentário tem muita coisa legal, muitas imagens raras, mas não tem nada de novo. Não há nenhuma revelação. Tem histórias boas, como quando conseguiu barrar a contratação do Gugu pela Globo nos anos 1980, mas são todas conhecidas", afirma o jornalista e crítico de televisão Mauricio Stycer, autor do livro sobre a vida do apresentador Topa Tudo por Dinheiro - As Muitas Faces do Empresário Silvio Santos (Editora Todavia).
Para além do que o filme conta, há passagens da vida de Silvio Santos que ficaram de fora, em parte por não serem tão abonadoras a alguém tão acostumado a controlar as narrativas sobre sua própria biografia.
Mas também porque o documentário foi feito há algum tempo e ficou engavetado por seis anos e, portanto, não alcança os últimos anos de vida de Silvio Santos que, segundo Stycer, "foram muito ruins" para a imagem do apresentador.

Crédito, Divulgação/SBT
Fraude em banco
Silvio Santos é nome artístico que o carioca Senor Abravanel adotou ao se tornar locutor no sistema de alto-falantes nas barcas que faziam o transporte entre Rio de Janeiro e Niterói.
Nascido em uma família de imigrantes judeus, o apresentador começou a ganhar dinheiro como camelô nas ruas do centro carioca, antes de chegar à TV.
Silvio nunca deixou de fazer negócios — e o documentário resgata histórias de transações ousadas, como sua tentativa de comprar metade da TV Record nos anos 1970 usando um "testa-de-ferro".
Na época, o apresentador era contratado pela TV Globo e impedido de se associar a outros veículos.
O sucesso na TV, diz Stycer, foi um pretexto que Silvio encontrou para tornar mais rentáveis suas atividades empresariais — como o Baú da Felicidade e, mais recentemente, no setor de perfumes e cosméticos, a Jequiti.
Mas o documentário não aborda tropeços na vida empresarial de Silvio Santos — e um dos principais foram as fraudes no Banco Panamericano, criado pelo apresentador.
Em 2018, a Justiça de São Paulo condenou sete ex-diretores da instituição financeira, acusados de fraude contábil por terem escondido um rombo milionário.
Segundo o Ministério Público Federal, que investigou a compra de ações do Panamericano pela Caixa Econômica, Silvio Santos chegou a se reunir com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2010 para discutir maneiras de salvar o banco.
O banco escapou de ser liquidado pelo Banco Central após ser socorrido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em 2010 e, em 2011, foi comprado pelo BTG Pactual.
Envolvimento com a política
Lula e os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) aparecem no documentário em depoimentos elogiosos ao apresentador.
Dilma, aliás, é retratada como presidente do Brasil. A entrevista aconteceu antes do impeachment, de 2016, e a emissora não fez a ressalva na exibição em 2021.
A relação do apresentador com a política, para Stycer, é algo que não ganhou a proporção que merecia no filme produzido pelo SBT.
"Foi uma abordagem muito rasa e é uma coisa importante [na vida dele]. Tem uma coisa resumida da tentativa dele de ser presidente [em 1989], mas a própria ligação dele com os políticos não fica muito clara, sobretudo na época do regime militar", diz o colunista.
Silvio Santos não esconde a gratidão que nutre pelo general João Batista Figueiredo (1918-1999), o último presidente do período da ditadura militar, por ter autorizado a compra dos canais de televisão que permitiram a criação o SBT, em 1981.
Como retribuição, o canal criou o Semana do Presidente, programa que registrava de maneira elogiosa os compromissos e realizações do chefe do Executivo e foi exibido até 1997.
No seu livro, Stycer resgata uma frase de Silvio dizendo que se considerava um "office boy de luxo do governo".
"Os políticos aparecem dando depoimentos e elogiando, mas o documentário não explica a relação que ele tem com esses políticos, que é de bajulação e interesse. Ele nunca teve grande interesse pela política, sempre a viu como uma forma de garantir os negócios", comenta o jornalista.

Crédito, Divulgação/SBT
Apoio a Temer e Bolsonaro
O documentário não trata dos períodos dos governos de Michel Temer (MDB), entre 2016 e 2018, e de Jair Bolsonaro (sem partido).
De 2015 para cá, não foram poucos os afagos públicos que o SBT e Silvio Santos dispensaram ao governo federal.
Enquanto se esforçava para aprovar a Reforma da Previdência, Temer passou a ser convidado para participar de atrações do SBT, como o Programa do Ratinho e o próprio Programa Silvio Santos.
Em 2017, o SBT inseriu uma série de vinhetas em sua programação, em que o locutor do canal alarmava a população para a necessidade de aprovação da medida: "Você sabia que se não for feita a reforma da Previdência você pode deixar de receber seu salário?".
"Enxergo isso [a proximidade] no governo Temer, mas não me surpreendeu. Não achei fora da curva como tem sido com o governo Bolsonaro", diz Stycer.
O crítico cita um episódio simbólico dessa relação mais amistosa. Em novembro de 2018, pouco depois de ter sido eleito, Bolsonaro telefonou para Silvio Santos e entrou ao vivo durante a transmissão do Teleton, show beneficente exibido pelo SBT.
O apresentador não conteve a simpatia pelo futuro presidente e se mostrou animado com a escolha do ex-juiz Sergio Moro para assumir o Ministério da Justiça.
"O Brasil não é um peso leve e precisa de um presidente com vontade de acertar. O senhor nas primeiras medidas que tomou já começou acertando. Acho que nos próximos oito anos o senhor vai ficar no nosso governo. E depois nos próximos oito anos. Tenho a impressão, é um palpite, mas a sua escolha do juiz Moro... Acho que o senhor pode ficar oito anos e o Moro mais oito, e o Brasil terá 16 anos de homens com vontade de fazer o Brasil caminhar", disse Silvio na ocasião.
"Nunca vi ele falar nada disso de ninguém. Ali, ele deseja e meio que sinaliza que estava muito entusiasmado, uma coisa realmente diferente do que manifestou em relação a outros governos", analisa Stycer.
Bolsonaro visitou o apresentador em sua mansão em São Paulo em algumas de suas passagens pela capital paulista. Em junho de 2020, o presidente recriou o Ministério das Comunicações e o entregou ao genro de Silvio Santos, o deputado federal Fabio Faria (PSD).
"Isso é muito ruim para o SBT e para a imagem do SBT. É difícil, não basta parecer imparcial se tem um vínculo com o governo federal, tendo no governo o genro do dono do SBT", afirma Stycer.
A BBC News Brasil procurou o SBT para esta reportagem, mas a emissora preferiu não comentar.

Crédito, Alan Santos/PR
Falas preconceituosas
As restrições a entrevistas e os vetos a livro sobre sua vida não impediram que Silvio Santos de alguma forma perdesse o controle total sobre como a mídia o retratava.
Nos últimos anos, as redes sociais passaram a repercutir falas e piadas preconceituosas que o apresentador fazia em sua atração aos domingos.
"São comentários que ele sempre fez, embora não tivesse repercussão que tem hoje - essas piadas podem soar como preconceito contra homossexuais, contra negros", diz Stycer.
O crítico nota que 2018 e 2019 "foram anos muito ruins" para a imagem de Silvio Santos.
"Parte do público não deixa mais passar esse tipo de comentário, pressiona muito, e ele fica irredutível na posição dele. Não reconhece que pode causar incômodo a uma parte do público e reconheço que isso pode desgastar bastante a imagem dele", afirma.
Aposentadoria à vista?
Stycer ficou particularmente intrigado com a decisão de exibir o documentário agora.
"Essa é a questão essencial para mim, mais do que o conteúdo do programa. Por que Silvio decidiu exibir agora algo que o tinha constrangido lá atrás?", indaga o jornalista.
Stycer chama a atenção para a maneira como o apresentador anunciou a exibição do filme em seu programa dominical.
"Antes de começar, ele falou: 'Vai passar o documentário assim e assado, é muita puxação de saco'. E de fato se pode enxergar dessa forma, é um negócio ultraexaltador do Silvio. Essa decisão, de alguma maneira, mostra que ele está aceitando a importância que tem, algo que talvez por modéstia ou falsa modéstia ele evitava", especula.
Para o crítico, talvez Silvio tenha enfim aceitado expor um balanço de sua vida e de sua maior realização empresarial: a criação do SBT, há 40 anos.
"Tem um pouco cara de encerramento. Não que ele vá se aposentar, mas é como se dissesse: o que eu fiz foi isso", comenta Stycer.

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