PIB: Por que 2019 frustrou mais uma vez as expectativas de crescimento da economia?

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- Author, Camilla Veras Mota - @cavmota
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Tempo de leitura: 7 min
O crescimento da economia brasileira frustrou as expectativas pelo segundo ano consecutivo em 2019.
Quando o presidente Jair Bolsonaro tomou posse, no dia 1º de janeiro, a mediana das estimativas de consultorias e instituições financeiras para o Produto Interno Bruto (PIB) reunidas pelo Banco Central no boletim Focus apontava um avanço de 2,53%.
O dado oficial, divulgado nesta quarta (4/03) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não chegou à metade disso: 1,1%.
Em 2018, os números eram ainda mais otimistas, 2,7%. Em um ano em que a redução de juros pelo Banco Central não teve o efeito positivo esperado sobre a economia e em que uma greve de caminhoneiros parou o país por dez dias, a economia cresceu 1,3%.
Após sair da maior crise de sua história, o Brasil cresce há três anos seguidos no mesmo ritmo, contrariando a lógica de outros ciclos de recessão, em que a recuperação geralmente foi mais vigorosa em um primeiro momento.
O que aconteceu?
Parte do crescimento modesto do PIB em 2019 se deve a três choques importantes.
O primeiro foi o desastre de Brumadinho, que, além da tragédia humana, afetou o desempenho do setor de mineração.
A indústria extrativa, de acordo com os dados do IBGE, recuou 1,1% no ano passado.
A recessão na Argentina, por sua vez, teve um impacto forte sobre a indústria de transformação.
O país vizinho é o principal comprador de produtos manufaturados do Brasil — não apenas veículos e bens acabados, mas bens intermediários que são incorporados à cadeia produtiva da própria indústria argentina.
Não por acaso, o segmento que mais contribuiu para a queda de 1,1% da produção industrial no Brasil em 2019 foi o de bens intermediários, que recuou 2,2% em relação a 2018.
O "efeito Argentina" tirou 0,55 ponto percentual do PIB brasileiro no ano passado, de acordo com a estimativa da pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV) Luana Miranda.
Ou seja, sem o impacto negativo da redução da demanda do país vizinho, a atividade poderia ter avançado 1,65%.
A economia também sentiu os efeitos negativos da desaceleração global provocada pela guerra comercial entre Estados Unidos e China.
O cenário internacional mais adverso ajuda a explicar, por exemplo, porque as exportações brasileiras caíram quase 6% no ano passado — apesar do dólar mais caro.

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Um estudo publicado pelo Banco Central com uma análise do comércio exterior no Brasil entre 2002 e 2018 destacou que as exportações no Brasil são mais sensíveis ao crescimento global do que ao câmbio.
Quando o mundo cresce menos, o Brasil vende menos para fora, apesar do ganho de competitividade que vem do real desvalorizado.
O investimento e a 'maldição' do baixo crescimento
Esse cenário, por sua vez, contribuiu para que o investimento, mais uma vez, decepcionasse.
A medida desse indicador dentro do PIB, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), cresceu 2,2% no ano passado. O resultado é inferior ao de 2018 (3,9%) e bem mais modesto do que o esperado pelos economistas no início de 2019 — a projeção do Ibre era de 4,7%.
A FBCF soma investimentos na construção civil, em máquinas e equipamentos e em outros ativos fixos — é ele que capta os efeitos do aumento da capacidade instalada de uma fábrica, por exemplo, ou da melhoria nos processos de uma linha de produção.
É uma componente importante do PIB porque, via de regra, sinaliza aumento no potencial de crescimento da economia.
Com o resultado de 2019, o nível dos investimentos ainda está mais de 20% abaixo do pico registrado em 2013.
Apesar de os choques terem tido papel importante no resultado, o ambiente interno, apesar dos juros baixos, não contribuiu para que as empresas tirassem os projetos da gaveta, avalia a coordenadora do Boletim Macro do Ibre, Silvia Matos.
"A falta de clareza na agenda de reformas gera muita incerteza no investidor", ela pontua.

Crédito, Adriano Machado/Reuters
Passada a reforma da Previdência, o governo tem tido dificuldade de avançar em propostas que poderiam ter impacto positivo sobre a economia, como as reformas tributária e administrativa.
A preocupação do setor produtivo se reflete no Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), que se manteve em nível alto no ano passado. Em 9 dos 12 meses de 2019, o índice ficou acima de 110 pontos, considerado historicamente elevado.
O dado mais recente, referente a janeiro de 2020, chegou a 112,9 pontos.
"A sensação é de que estamos fazendo pouco para construir o futuro", diz a economista, referindo-se ao aumento da instabilidade política e fiscal no país.
A queda forte nos investimentos durante a recessão, para a professora da Universidade da Califórnia Marcelle Chauvet, explica em parte porque a retomada do crescimento frustrou os brasileiros nos últimos três anos.
O salto na FBCF entre 2010 e 2014 — a construção de estádios, hidrelétricas, estaleiros —, diz a economista, deu-se sobre uma base pouco sólida, financiada à custa do aumento do endividamento do governo.
A situação atual seria em parte um "ajuste aos excessos que aconteceram antes", que podia ser minimizado com uma maior participação do capital privado.
A incerteza política e fiscal, contudo, aumentam o risco para esses investimentos, pondera a especialista, que é um dos seis membros do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) da FGV.
Consumo, um motor fraco de crescimento
O avanço de 1,1% da economia em 2019 foi em boa parte sustentado pelo consumo das famílias, que aumentou 1,8% sobre 2018.
Essa composição, entretanto, limita o potencial de crescimento do país, diz Silvia Matos, já que o comércio e os serviços não têm o mesmo "efeito multiplicador da indústria".
São setores menos produtivos, que demandam nível menor de investimentos e pagam salários mais baixos.
"O crescimento pautado no consumo é mais volátil", concorda Rafael Pananko, da Toro Investimentos.
O economista destaca, por outro lado, que a recuperação do setor da construção civil, que avançou 1,6% em 2019 após cinco anos consecutivos de retração, de acordo com os dados do PIB, deve contribuir para o crescimento em 2020.

Antes da disseminação do surto de coronavírus, o analista estava na ponta otimista das estimativas para o PIB neste ano, com 2,3% — a mediana do boletim Focus divulgado na segunda-feira (2/3) está em 2,17%. Mais recentemente, contudo, reduziu a projeção para 1,5%.
A do Ibre-FGV foi revisada de 2,2% para 2%. Matos considera "prematuro" falar em um crescimento mais próximo de 1,5%, que ela reserva para um "cenário mais pessimista".
Em sua avaliação, o efeito positivo da redução da taxa básica de juros sobre o crédito deve sustentar o consumo neste ano.
"2020 vai ser mais do mesmo."
Terceiro ano de frustração?
Para o analista da Capital Economics William Jackson, as expectativas, de forma geral, seguem demasiadamente otimistas.
Em janeiro, ainda antes da incerteza trazida pelo coronavírus, ele estimava crescimento de 1,5% para o PIB brasileiro em 2020.
Sua leitura é que, além das limitações impostas pelo baixo investimento e pela fragilidade da indústria, o consumo tem uma capacidade limitada de estimular a economia neste ano.
De um lado, o governo dispõe de menos "aditivos" para incentivar as famílias a gastarem, como a liberação de saques do FGTS, utilizado no ano passado.
De outro, o mercado de trabalho segue dando sinais de que se recupera de maneira lenta, com geração de emprego de baixa qualidade.
Nesta semana, o analista cortou a projeção para 1,3%, antecipando parte dos efeitos negativos que o coronavírus deve ter sobre a economia brasileira.
Não foi a única revisão. O economista Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, diminuiu significativamente a estimativa para o Brasil, de 2,2% para 1,5%.
O país está exposto aos riscos econômicos que surgiram com a disseminação do coronavírus de diferentes formas.
Uma delas é a balança comercial. A queda nos preços de commodities como petróleo, soja e minério de ferro — resultado da expectativa de desaceleração da economia chinesa — devem reduzir o superávit esperado para o ano.
Se o surto afetar a China por muito tempo, há ainda um risco de queda na demanda do país por esses produtos. Nesse caso, o impacto sobre a balança não viria apenas pelo canal do preço, mas também do volume.
O país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, destino de aproximadamente 30% do valor total das exportações.
A desvalorização adicional do real — consequência da saída de dólares do país para mercados considerados mais seguros, já que os investidores estão mais avessos a risco —, por sua vez, encarece insumos importados, além de máquinas e equipamentos para investimentos.
Há ainda a questão da interrupção no fornecimento de matérias-primas para indústrias como a de eletroeletrônicos, especialmente as que produzem celulares e notebooks, que trabalham com estoques reduzidos e usam uma série de componentes importados da China.
Em um relatório divulgado na segunda (2/03), a OCDE revisou de 2,9% para 2,4% a projeção para o crescimento global por conta da disseminação da covid-19.
Esse cenário leva em consideração que os efeitos negativos para a economia causados pela doença ficarão concentrados no primeiro trimestre e que o surto fora da Ásia será mais suave.
Com essas premissas, a instituição manteve inalterada a estimativa que tinha para o PIB do Brasil, de 1,7%.
A OCDE alerta, entretanto, que se o surto for mais intenso e disseminado do que o esperado, o PIB global poderia cair à metade do esperado antes da revisão, para 1,5%, levando países como o Japão e a Zona do Euro à recessão.

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