Como a tensão com o Congresso pode prejudicar planos do governo Bolsonaro

Rodrigo Cunha e Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados

Crédito, Agência Brasil

Legenda da foto, Clima entre Jair Bolsonaro e o Congresso piorou na semana passada após ele enviar vídeo para alguns de seus contatos convocando para um protesto contra o Legislativo.
    • Author, André Shalders - @andreshalders
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Tempo de leitura: 7 min

Ao incentivar protestos contra o Congresso, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) põe em risco a tramitação de projetos que são caros a ele e ao seu governo.

O alerta vem dos relatores de algumas dessas propostas na Câmara e no Senado — temas que vão desde o pacote de reformas do ministro da Economia, Paulo Guedes, até as mudanças no Código de Trânsito, assunto caro a Bolsonaro.

Parlamentares dizem que pretendem manter o calendário de votações dos projetos relatados por eles — mas repetem que a situação pode se complicar caso Bolsonaro insista em atacar o Legislativo.

O clima entre Bolsonaro e os parlamentares piorou na semana passada, quando o jornal O Estado de S. Paulo revelou que o presidente enviou um vídeo para alguns de seus contatos no WhatsApp convocando para uma manifestação contra o Congresso.

"Dia 15/3, vamos mostrar a força da família brasileira. Vamos mostrar que apoiamos Bolsonaro e rejeitamos os inimigos do Brasil", diz um trecho do vídeo de pouco menos de dois minutos.

As convocações para uma manifestação contra o Legislativo surgiram ainda antes do Carnaval, graças a um descuido do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno.

Sem saber que sua fala estava sendo transmitida ao vivo em uma rede social, o militar da reserva reclamou que o Planalto estava sendo alvo de "chantagem" por parte do Congresso.

A reclamação de Heleno era a respeito da pressão feita por deputados e senadores em torno do chamado Orçamento impositivo: uma mudança de última hora na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que deu ao Congresso o poder de decidir o destino de R$ 30,1 bilhões em emendas, apresentada pelo relator Domingos Neto (PSD-CE).

Apoiadores do governo utilizaram a fala de Heleno como mote para espalhar nas redes sociais o chamado para o protesto.

Plenário da Câmara

Crédito, Beto Barata/Agência Senado

Legenda da foto, Congresso deve avaliar ainda nesta semana o veto presidencial ao Orçamento impositivo

Agora, a controvérsia em torno desses R$ 30,1 bilhões pode estar perto de se resolver.

O trecho da LDO, vetado por Bolsonaro, deve ser apreciado na tarde desta terça-feira (3/3) por deputados e senadores — os congressistas podem manter o veto presidencial ou derrubá-lo.

O governo acredita ter os votos necessários para ganhar a disputa no Senado, segundo apurou a BBC News Brasil.

Para derrubar o veto, são necessários os votos de pelo menos 41 dos 81 senadores. E até mesmo senadores que fazem oposição ao presidente, como Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Fabiano Contarato (Rede-ES), devem votar pela manutenção do veto.

'Não estou ofendendo'

Na quinta-feira (27/2), Bolsonaro usou sua tradicional live semanal no Facebook para cobrar o apoio do Congresso aos projetos do governo. "90% do que eu quero fazer passa pelo Parlamento", disse ele.

"O que eu gostaria do Parlamento é: bote em pauta. Se a maioria falar que não, é não. Enterrou o projeto, não se fala mais no assunto. Agora, deixar caducar a Medida Provisória (como aconteceu com a MP 895/19, da Carteirinha Estudantil digital), não botar em pauta… é triste isso daí. Eu fui parlamentar por 28 anos. Não estou inventando nada. E não estou ofendendo o Parlamento brasileiro, muito pelo contrário", disse o presidente.

Para o analista político Thomas Traumann, episódios como o da MP da Carteirinha Estudantil mostram que a articulação política do governo já era precária antes mesmo da celeuma envolvendo os R$ 30,1 bilhões.

Mas, ao se somar à convocatória dos protestos do dia 15, Bolsonaro conseguiu "subir um degrau" no desgaste de sua relação com o Congresso, diz Traumann.

"Agora, o que vamos ter são manifestações, que tudo indica que serão grandes, contra o Congresso. Contra os políticos. (O efeito será o de aprofundar) esse discurso (usado por Bolsonaro) de que o governo não consegue fazer nada porque o Congresso não o deixa", diz ele.

"Este é um governo que manda muitos projetos para o Congresso. É um governo muito produtivo em termos de enviar projetos de lei, medidas provisórias, etc. Mas que, depois, não trabalha para que estes projetos sejam aprovados. O discurso é 'eu mandei, eles é que não aprovaram'. Como se isso bastasse", diz o analista político.

Traumann frisa ainda que o esforço pela aprovação das reformas — como a administrativa e a tributária — é mais da equipe econômica comandada por Guedes do que do próprio Bolsonaro.

Para o cientista político Rui Tavares Maluf, os impactos de longo prazo na relação entre Executivo e Congresso dependerão de como as manifestações serão convocadas até a data prevista, 15 de março. Importa saber quais palavras de ordem vão sobressair até lá, diz ele.

"No começo, a palavra de ordem que aparecia mais era a de quase que 'fechar o Congresso', uma ideia quase de um golpe popular-militar, por assim dizer. Depois da reação muito rápida, muito dura das instituições, a gente pode dizer que isso foi atenuado. Vai depender muito disso", diz ele.

"No fim, pode ser mais uma manifestação pró-Bolsonaro como outras que já ocorreram", diz Maluf.

O cientista político acrescenta que, até agora, alguns dos principais atores do outro lado da Esplanada têm mostrado disposição em fazer andar a pauta das reformas econômicas. Se estas estão caminhando a passos lentos, isso se deve mais à postura do próprio presidente, diz o analista.

Pacote de Guedes em jogo

Pelo menos uma pauta considerada prioritária pelo governo já sofreu as consequências da "guerra" iniciada pelas declarações do general Heleno.

O plenário do Senado poderia votar já nesta terça-feira (3/3) a proposta que dá autonomia aos dirigentes do Banco Central (BC) diante do Executivo. Essa votação não acontecerá mais: o dia de terça será dedicado a analisar os vetos do governo — inclusive o dos R$ 30,1 bilhões.

Relatores dos demais projetos de interesse do Planalto dizem que, pelo menos a princípio, querem manter o cronograma normal. Mas a situação pode se complicar, caso os atritos continuem.

Otto Alencar (BA) é o líder do PSD no Senado e relator da PEC da Revisão dos Fundos — uma das três propostas do chamado Plano Mais Brasil, apresentado em novembro pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.

A PEC relatada por Alencar libera para o Executivo cerca de R$ 220 bilhões que estão hoje parados em 248 fundos públicos.

Banco Central, em Brasília

Crédito, Agência Brasil

Legenda da foto, Votação sobre autonomia de dirigentes do Banco Central (foto) foi adiada em meio a tensões entre Executivo e Legislativo

O texto deve ser votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nesta quarta-feira, segundo Otto Alencar. O político baiano deu parecer favorável ao projeto.

"Da minha parte, do meu parecer, não altera nada. Não vou confundir as coisas equivocadas e erradas que o presidente faz com o que é de interesse do país", disse ele à BBC News Brasil. "Dei meu parecer pela minha consciência, não porque concorde com o Bolsonaro", disse.

"A fala do presidente é algo sem nenhum propósito diante dos problemas do Brasil (...). Ele afrontou agora a Constituição. Se realmente for levado ao pé da letra o que está na Constituição, e a Câmara for interpretar de acordo com a lei, certamente se poderia discutir a admissibilidade do impeachment dele", disse Alencar. "Mas isso aí é com a Câmara. Quando e se chegar no Senado a gente sabe como faz", ressalvou ele.

Outra medida que faz parte do plano de Paulo Guedes é a "PEC Emergencial": um texto que dá à União e a Estados e municípios mecanismos para equilibrar as contas em caso de necessidade — viabilizando, por exemplo, a redução da jornada de trabalho e dos salários dos servidores públicos.

O texto também permitiria congelar os salários de servidores e vedar a realização de novos concursos públicos durante certo período.

O relator da PEC Emergencial é o senador Oriovisto Guimarães (Pode-PR). Segundo ele, o cronograma da PEC está mantido. "Acredito que seguramente, até o fim do mês de março, a votação dela no Senado estará concluída", diz ele.

No momento, o texto está na CCJ. "Assim que votar na CCJ, o presidente [do Senado, Davi Alcolumbre] deve pautar no plenário. Até agora, tudo indica que este será o rito. Não tem nenhuma razão para imaginar que seja diferente", disse ele.

"Quanto a essa manifestação do dia 15, se o presidente está realmente apoiando isso, é uma coisa. Se ele está organizando, é outra completamente diferente. Eu não posso julgar, pelo que eu vi, que isso tenha partido dele", diz.

"Se ele realmente estiver incentivando isso, aí é uma coisa muito ruim. É um poder instigando o povo contra o outro, e isso desestabiliza a nação. É contrário ao que diz a Constituição", diz o senador — ressaltando que, na sua opinião, ainda é cedo para saber se Bolsonaro realmente está articulando os protestos.

Parcerias público-privadas e Código de Trânsito

Na Câmara, o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) é o relator do novo marco legal das parcerias público-privadas (PPPs) — um projeto amplo, que muda as regras para esse tipo de contrato entre governos e empresas.

Segundo o deputado, a ideia é que o texto vá ao plenário da Câmara já durante a segunda quinzena de março.

O texto é considerado prioritário pelo governo e recebeu ajustes discutidos com os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Paulo Guedes. As sugestões do governo chegaram pouco antes do Carnaval, segundo Jardim.

"Essa manifestação (do dia 15), não tenho dúvida de que não é bom (para o andamento das pautas no Congresso). O clima de diálogo é que deveria prevalecer. Quando tem uma iniciativa que acirra o relacionamento, não é bom. Mas eu espero que não atrapalhe, e vou trabalhar para que não atrapalhe", disse ele.

O deputado Juscelino Filho (DEM-MA) é o relator do projeto enviado pelo governo em meados do ano passado para alterar o Código de Trânsito Brasileiro — ele passou a ser criticado por Bolsonaro depois de alterar alguns dos pontos que o presidente desejava.

O maranhense explica que o texto está sendo discutido agora por uma comissão especial — e estará pronto para ser votado a partir desta quarta-feira (4/3). Pelo menos num primeiro momento, diz ele, o cronograma deve ser mantido.

"Agora, o que eu disse nas minhas redes sociais é que nós, que somos autoridades, não devemos estar estimulando movimentos como este (do dia 15 de março). É garantido a todos os cidadãos o direito de se manifestar, mas nós, quando juramos a Constituição, nos comprometemos a preservar a harmonia entre os Poderes", diz ele.

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