O encontro entre o 'mito' e o 'messias': o que Bolsonaro traz na volta da Índia para Brasil

Crédito, EPA
- Author, Ricardo Senra
- Role, Enviado especial de BBC News Brasil a Nova Déli
- Tempo de leitura: 8 min
Entre 24 e 28 de janeiro, em sua primeira viagem oficial em 2020, o presidente Jair Bolsonaro foi o convidado de honra da principal celebração pública da Índia, o Dia da República, e teve seu rosto estampado em enormes cartazes espalhados por toda a capital Nova Déli.
A mesma homenagem já foi feita a autoridades como a rainha Elizabeth 2ª, Nelson Mandela e dois outros brasileiros: os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Bolsonaro também teve uma série de reuniões com empresários e políticos indianos. A única fala pública do presidente ocorreu em um seminário com CEOs de empresas indianas e brasileiras — em seu discurso, Bolsonaro pediu para "confiarem no Brasil porque o Brasil mudou".
Para especialistas nas relações entre os dois países, Bolsonaro e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, guardam semelhanças que podem significar uma parceria estratégica para além da economia.
Os dois se elegeram após escândalos de corrupção engolirem antecessores de centro-esquerda. Eles trouxeram a direita de volta ao poder e prometeram reformas, economias mais modernas e mais empregos. Resgataram uma retórica nacionalista, embalada por forte discurso religioso, por ataques a opositores e por elogios ao passado.
De outro lado, ambos são frequentemente descritos como "ameaças à democracia". São alvos de críticas no exterior e de desconfiança de minorias. Falam constantemente em fake news em ataques à imprensa, ao mesmo tempo em que se beneficiam da polarização do eleitorado, que rende aos dois alcance e enorme popularidade nas redes sociais.
Em seu segundo mandato como homem forte do país, o nacionalista hindu Narendra Modi é chamado por seguidores de "messias" — ou alguém que chegou ao poder para resolver os problemas do país. Bolsonaro, sabe-se, é conhecido no Brasil como "mito".
Raio-X da relação bilateral
É consenso entre analistas e membros dos dois governos que as trocas comerciais entre Brasil e Índia estão aquém do seu potencial.
Os indianos ocupam apenas o quarto lugar entre os parceiros comerciais brasileiros na Ásia, atrás de China, Coreia do Sul e Japão.
Para efeito de comparação, as trocas comerciais entre Brasil e China chegam a US$ 100 bilhões por ano. Com a Índia, também um gigante asiático com população acima de 1 bilhão de pessoas e parte do clube das cinco maiores economias do mundo, as trocas ficam muito muito atrás: US$ 7,1 bilhões em 2019, segundo o Itamaraty.
Na avaliação de um oficial do governo que preferiu não se identificar, "o Brasil vê a Índia hoje como via a China há 20 anos".
"A cooperação entre os dois países não avançou por profundo desconhecimento e muitas vezes preconceito, apesar de ambos terem nível de desenvolvimento semelhante, potenciais complementares e convergência política", disse.

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Hoje, os principais produtos vendidos pela Índia para o Brasil são pesticidas e defensores agrícolas, materiais têxteis e peças de automóveis.
Do outro lado, o Brasil vende principalmente petróleo bruto, açúcar, soja e ouro.
A Índia tem superávit na relação comercial: as exportações brasileiras, segundo o Itamaraty, ficaram em US$ 2,76 bilhões em 2019, enquanto a importações vindas da Índia foram de US$ 4,26 bilhões.
Distantes entre si, os países parecem saber pouco um do outro.
Na avaliação do professor indiano Umesh Mukhi, que vive no Brasil há um ano e é professor do Departamento de Administração da FGV, "normalmente a Índia só aparece no contexto do Brics, nunca como nação independente", diz, acrescentando que "a compreensão coletiva dos brasileiros sobre o chefe de Estado indiano é baixa ou inexistente".
Do lado indiano, a situação não seria muito diferente.
"Quando o primeiro-ministro Modi foi eleito, em 2014, ele fez referências a vários países. Estados Unidos, Alemanha, Rússia... O Brasil também não estava lá. Apareceu junto aos Brics, mas não individualmente."
"O desconhecimento também é uma oportunidade para aprofundamento da relação", avalia.
Defesa
Em comunicado conjunto, Bolsonaro e Modi anunciaram que as trocas comerciais entre os dois países devem saltar dos US$ 7,1 bilhões atuais para US$ 15 bilhões em 2022 — pouco mais do dobro do valor atual.
Três temas se destacam nos debates econômicos da viagem oficial: defesa, etanol e agronegócio.
Como a BBC News Brasil mostrou no último sábado, um grupo de 10 CEOs de grandes empresas brasileiras de armas, munição, equipamentos de vigilância, aviação e inteligência militar acompanhou a comitiva oficial de Bolsonaro.
Oficiais do Ministério da Defesa, junto a CEOs da Altave, Atech, Avibras, Companhia Brasileira de Cartuchos, Condor, Embraer, Iveco, Macjee, Omnisys e Taurus participaram pela primeira vez na história de um seminário conjunto de indústrias de Defesa dos dois países.

Crédito, PRAKASH SINGH/AFP via Getty Images
Nenhuma das empresas, nem os canais oficiais do ministério da Defesa, haviam anunciado a viagem antes da reportagem.
"Os líderes reiteraram a importância da cooperação bilateral abrangente na área de defesa para fortalecer a Parceria Estratégica", diz o comunicado assinado por Modi e Bolsonaro.
O primeiro resultado concreto foi a assinatura, depois de 11 meses de negociações, de joint venture da Taurus Armas com a Jindal Group, maior fabricante de aço da Índia, para a construção de uma fábrica em território indiano, com tecnologia brasileira.
As ações da Taurus dispararam logo depois do anúncio.
Etanol
Além da defesa, o etanol foi uma das palavras mais repetidas pela delegação brasileira durante a viagem.
O Brasil é o maior produtor de etanol vindo da cana-de-açúcar do mundo, enquanto a Índia é a maior produtora mundial de cana-de-açúcar.
"A possibilidade de cooperação com a Índia servirá para apoiar a criação do mercado mundial de etanol", disse a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, em um seminário com empresários durante a visita. "Do ponto de vista da Índia, podemos mencionar a redução da poluição nas grandes cidades, maior suprimento de energia renovável e a redução da dependência das importações de petróleo."
Junto à ministra, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, chegou antes do presidente Bolsonaro país para costurar um projeto de parceria com o país asiático com o objetivo de transformar o etanol em uma commodity global.
Os dois países assinaram termos de cooperação para desenvolvimento conjunto de tecnologias de produção na tentativa de ampliar as exportações do etanol — um biocombustível, portanto alternativa mais limpa ao petróleo.
É cedo, no entanto, para saber se a ambição vai se confirmar. Na primeira década dos anos 2000, o ex-presidente Lula tentou fazer o mesmo em parceria com o então presidente americano George W. Bush, mas não houve avanços concretos.
Entre os 15 acordos assinados na viagem, um Memorando de Entendimento sobre Cooperação em Bioenergia se relaciona a esse tema. Outro memorando prevê a cooperação para a construção, ainda sem previsão, de Centro de Excelência na Índia para Pesquisas em Bioenergia.
Agronegócio
A ministra da Agricultura anunciou como primeiro resultado concreto da viagem a abertura do mercado indiano para exportações brasileiras de gergelim, e, do outro lado, a abertura do mercado brasileiro para exportações indianas de sementes de milho.
Em 2019, o Brasil exportou US$ 24,6 milhões em gergelim — o mercado mundial do produto cresce e movimentou R$ 3 bilhões no ano passado, segundo o ministério da Agricultura.
A Índia também se comprometeu a estudar a possibilidade de comprar abacate, cítricos e madeira de ipê do Brasil. Já o Brasil vai avaliar a compra de milheto, sorgo, canola e algodão vindos da Índia.
Os dois países também assinaram uma declaração de Colaboração na Área de Pecuária e Produção Leiteira.

Crédito, Alan Santos/PR
Durante encontro aberto à imprensa, ao lado de Bolsonaro, Modi disse que "o Brasil é um parceiro valioso na transformação econômica da Índia e uma fonte confiável para nossas necessidades nos campos de alimentos e energia".
Espécie de guarda-chuva para a viabilização de todas as propostas, o principal acordo assinado entre os dois países é o de Cooperação e Facilitação de Investimentos.
O documento é visto como peça-chave para a segurança jurídica das novas trocas comerciais.
Política
O principal paralelo entre os dois líderes — ressaltado pelos próprios, inclusive — é o nacionalismo.
Na noite de sábado, Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente, disse a jornalistas que Jair Bolsonaro "elogiou a liberdade religiosa presente aqui na Índia" e "falou que se sentiu confortável em estar em um país que não é cristão, mas foi muito bem acolhido" durante sua reunião bilateral com o primeiro-ministro indiano.
"Os dois são notoriamente nacionalistas, defendem seus países, são avessos a alguns fóruns internacionais e acredito que há muita química nessa relação", disse Eduardo Bolsonaro.
Já o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse em um seminário que Índia e Brasil hoje têm "convergência de ideias e visões de mundo".
Para o chanceler, o país liderado por Narendra Modi "está se modernizando sem abrir mão de suas tradições e valores, e está se construindo a partir de suas raízes e essência e não a partir dos dogmas dos que formam o mundo pós-nacionalista ou antinacionalista".
"Apenas nações que se reconhecem como nações podem aspirar ser algo no mundo. Essa é a lição da Índia e também a que o Brasil está tentando dar ao mundo."
No comunicado conjunto assinado durante a viagem, os dois líderes anunciaram que vão se apoiar na meta conjunta dos seus países de conquistar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Para isso, eles querem ampliar o conselho por meio de uma reforma, incluindo novos assentos nas categorias permanente e não permanente.
A meta é aumentar a representação de países em desenvolvimento no conselho.
Esta é uma vontade antiga, segundo analistas, e sua concretização depende da vontade dos cinco países ricos que hoje têm cadeira permanente no Conselho de Segurança com direito a veto — Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China.
Energia nuclear
O presidente Bolsonaro reforçou o apoio brasileiro à candidatura da Índia ao Grupo de Supridores Nucleares (o NSG), que tem 48 países, incluindo o Brasil.
O grupo foi criado justamente depois de um teste nuclear feito pela Índia em 1974. O exercício gerou um alerta entre outras potências nucleares de que tecnologias nucleares usadas para fins pacíficos pudessem ser revertidas e transformadas em armamento.
Os membros então se reuniram com o objetivo de prevenir a proliferação de armas nucleares por meio de controles na exportação de materiais e de tecnologia.
Os indianos têm o apoio, além do Brasil, de países como EUA, Reino Unido, França e Rússia para entrar no grupo. A China, porém, se opõe reiteradamente à entrada indiana no grupo. Segundo os chineses, não há coerência em permitir a entrada da Índia, mas proibir a do Paquistão.
O apoio brasileiro é discutido pelos dois países desde pelo menos 2006 — quando Lula se encontrou com o então premiê Índia, Manmohan Singh, durante a primeira visita de um chefe de governo indiano ao Brasil desde 1968. Em 2016, o Brasil anunciou apoio oficial.

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