Falando a deputados sobre vazamentos, Moro volta a dizer que não reconhece mensagens

Sergio Moro participa de audiência conjunta de comissões da Câmara

Crédito, ABR

Legenda da foto, Moro reafirmou não reconhecer as mensagens divulgadas pelo The Intercept e que tais conteúdos teriam sido obtidos de forma criminosa.
    • Author, André Shalders
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 7 min

Matéria atualizada às 19h49.

Ao falar para deputados em audiência na Câmara na tarde desta terça-feira, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, repetiu alguns dos pontos que já havia destacado ao ser sabatinado no Senado em 19 de junho.

O ministro foi convidado pelos deputados a falar sobre conversas que teriam sido travadas entre ele e investigadores da força-tarefa da Lava Jato quando era juiz federal em Curitiba (PR).

Ao todo, 27 deputados federais de oito partidos assinaram cinco requerimentos convidando o ministro a falar sobre o tema. A sessão começou pouco depois das 14h.

Moro repetiu os mesmos pontos do Senado: que não reconhece as mensagens divulgadas pelo The Intercept, do jornalista Glenn Greenwald, e que tais mensagens teriam sido obtidas de forma criminosa. Em tom de provocação ao jornalista que vazou as possíveis conversas, ele respondeu que seu depoimento é o mesmo porque é verdadeiro. "Não sou igual o site lá que adultera versões", disse o ministro.

Ele voltou a dizer que, no dia 4 de junho, seu celular sofreu uma tentativa de ataque e foi entregue à Polícia Federal (PF) para perícia e que não tem nada a temer caso as conversas divulgadas não tenham sido adulteradas.

"Eu não reconheço a autenticidade, eu não tenho mais essas mensagens. Podem até algumas serem (reais), mas podem ter sido adulteradas total ou parcialmente. Eu saí (do Telegram) em 2017. Eu não tenho condição de recordar de mensagens trocadas três anos atrás", disse o ministro.

"Em relação a questões envolvendo Fernando Henrique Cardoso, eu não posso verificar a autenticidade dessas mensagens. O caso nunca passou pelas minhas mãos. Nunca passou pela força tarefa de Curitiba. Nunca passou pelas mãos do procurador Daltan Dallagnol. Não existe nada, é um balão vazio."

Sergio Moro participa de audiência conjunta de comissões da Câmara

Crédito, ABR

Legenda da foto, Moro disse que não possui mais as mensagens que teriam sido trocadas com procuradores da Lava Jato

No início de junho, o site jornalístico The Intercept começou a publicar reportagens baseadas nas supostas trocas de mensagens.

Segundo o site, os diálogos mostrariam que Sergio Moro trabalhou em conjunto com os investigadores – em alguns casos, para prejudicar investigados e réus da Lava Jato, algo que Moro e os procuradores negam. Na época das conversas, ele era o responsável por julgar os casos da operação na 1ª Instância da Justiça Federal em Curitiba (PR), onde a investigação começou em março de 2014.

O ministro disse na Câmara que atingiu todos os partidos políticos, "em maior ou menor grau". "Eu sou constantemente atacado pelo trabalho que eu fiz. Sou atacado por deputados aqui. Infelizmente, crimes foram cometidos (pelos réus da Lava Jato). Eu apenas cumpri o meu dever. Eu não tenho qualquer satisfação pessoal de ter condenado X ou Y. E as condenações foram mantidas (em instâncias superiores)", disse Moro.

O ministro negou que tenha assumido uma posição central na investigação. "Foi um trabalho institucional da PF, do MP, de outros atores da Magistratura. E, no fundo, o mérito maior é da democracia brasileira. Vamos lembrar quantas pessoas saíram às ruas nos últimos anos dando suporte à investigação", afirmou.

Moro ainda fez um apelo para que as mensagens trocadas entre ele e os procuradores sejam mostradas. "Apresentem as mensagens para um órgão independente. Eu não posso reconhecer autenticidade de algo que não tenho", disse.

Por outro lado, ele disse que não processa os jornalistas que divulgaram essas conversas porque é "grande defensor da liberdade de imprensa".

"Minha impressão na primeira semana é que o site em questão queria sofrer busca e apreensão e virar mártir do jornalismo. O que apareceu em três semanas? Um balão vazio", disse durante seu depoimento na Câmara.

A audiência é realizada por três comissões da Câmara: Constituição e Justiça (CCJ), Direitos Humanos e Minorias (CDHM) e Trabalho, Administração e Serviço Público (CTASP).

Sergio Moro participa de audiência conjunta de comissões da Câmara

Crédito, ABR

Legenda da foto, Audiência foi realizada por três comissões da Câmara: Constituição e Justiça, Direitos Humanos e Minorias e Trabalho, Administração e Serviço Público

A maioria dos deputados que subscreveram os convites a Moro é de partidos de oposição, como PT, PSOL, PDT, PC do B e PSB. Mas há também representantes do DEM, do MDB e até do PSL.

Inicialmente, deputados de oposição queriam que Moro fosse convocado à Câmara – o que não aconteceu. Se a convocação tivesse sido aprovada, Moro poderia até ser punido caso não comparecesse.

Sergio Moro no Senado

Crédito, Agência Senado

Legenda da foto, Moro participou de audiênica no Senado em 19 de junho

Esta não é a primeira vez que Moro é convidado ao Congresso por causa dos vazamentos. Ele falou sobre as mensagens na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, em 19 de junho.

Na ocasião, senadores de oposição mantiveram um tom relativamente sereno ao questionar o ministro. O último convite aconteceu, na quarta-feira, 26 de junho, mas Moro cancelou dias antes, por causa de uma viagem oficial aos Estados Unidos.

Sergio Moro em entrevista

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Moro foi chamado à Câmara para falar sobre supostas conversas com investigadores da Lava Jato enquanto era juiz

A BBC News Brasil não conseguiu confirmar de maneira independente a veracidade das mensagens reproduzidas pelo The Intercept, mas a série de reportagens tem movimentado autoridades e políticos.

Desde a última tentativa dos deputados de ouvir Moro, novas reportagens foram publicadas sobre supostos diálogos do ex-juiz com procuradores. Numa delas, o jornal Folha de S. Paulo – que começou a colaborar com o The Intercept no caso – afirma que o empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, só passou a ter a confiança dos investigadores depois de mudar sua versão sobre as acusações de propina envolvendo o ex-presidente Lula (PT).

Moro também chega à Câmara depois de manifestações em defesa dele e da operação Lava Jato. Apoiadores do ex-juiz foram às ruas no domingo (30/06) em pelo menos 70 cidades.

A BBC News Brasil ouviu brasileiros de diferentes classes sociais na passeata de São Paulo (SP) para conhecer suas motivações.

"(As conversas) só demonstram um juiz se esforçando para fazer Justiça. A Lava Jato prendeu diversos criminosos e agora estão querendo acabar com ela", disse o cobrador de ônibus Edmar Rocha da Silva, que foi à Avenida Paulista com a mulher e o filho de cinco anos.

Deltan Dallagnol

Crédito, Felipe Frazão / Agência Brasil

Legenda da foto, Deltan Dallagnol é um dos personagens mais frequentes nas supostas conversas divulgadas pelo The Intercept

Moro comentou as manifestações no Twitter. "Eu vejo, eu ouço, eu agradeço. Sempre agi com correção como juiz e agora como Ministro. Aceitei o convite para o MJSP para consolidar os avanços anticorrupção e combater o crime organizado e os crimes violentos. Essa é a missão. Muito a fazer", escreveu ele.

"Sou grato ao PR (presidente) Jair Bolsonaro e a todos que apoiam e confiam em nosso trabalho. Hackers, criminosos ou editores maliciosos não alterarão essas verdades fundamentais. Avançaremos com o Congresso, com as instituições e com o seu apoio", tuitou Moro.

Audiência é a 11ª ida de Moro ao Congresso

Ao falar aos senadores, em 19 de junho, Moro respondeu a perguntas durante oito horas e 30 minutos. Tomou a palavra 117 vezes, e nada menos que 43 dos 81 senadores se inscreveram para questionar o ex-juiz. Aos senadores, Moro repetiu várias vezes que é impossível ter certeza da autenticidade e da integridade do material divulgado pelo site. As palavras "autênticas" e "autenticidade" foram ditas 53 vezes ao longo da audiência, na maior parte das vezes, pelo próprio Moro.

Ele também criticou a cobertura realizada pelo The Intercept – os termos "sensacionalista" e "sensacionalismo" foram usados 72 vezes ao longo da sessão. Na maioria das vezes por Moro, novamente.

Sergio Moro

Crédito, MARCELO CAMARGO / AGÊNCIA BRASIL

Legenda da foto, Na maioria das idas anteriores ao Congresso, Moro falou sobre o 'Pacote Anticrime'

Desde que se tornou ministro da Justiça, ele já foi 10 vezes à Câmara e ao Senado. Na maioria das visitas anteriores, ele esteve no Congresso para falar sobre o seu projeto de lei conhecido como "Pacote Anticrime" – um documento de 34 páginas que tem por objetivo endurecer o combate à corrupção, ao crime organizado e aos crimes violentos.

Mas este não foi o único assunto de Moro com deputados e senadores até agora. Ele também já esteve no Congresso para, por exemplo, almoçar com o senador Wellington Fagundes (PL-MT), em 11 de junho; e para o lançamento da Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara (20 de março).

Porque tantos deputados assinam os requerimentos?

Quem assina os convites têm direito de falar antes dos demais deputados, o que tende a ser uma vantagem numa sessão concorrida como a desta terça-feira.

A deputada Erika Kokay (PT-DF) é autora de um desses requerimentos. Ela criticou Moro por não ter comparecido na semana passada.

Erika Kokay

Crédito, Agência Câmara

Legenda da foto, Para Erika Kokay (foto), Moro 'fugiu' na semana passada sem sequer enviar uma comunicação sobre sua ausência

"O ministro fugiu e foi aos EUA sem enviar sequer uma comunicação oficial sobre sua ausência nas Comissões. Moro não pode se furtar de vir a Câmara explicar um conluio tramado no subterrâneo do Estado Democrático de Direito. Tudo que foi divulgado até agora pelo The Intercept Brasil confirma a parcialidade de Moro e a perseguição política contra Lula", disse Kokay por mensagem de texto à BBC News Brasil.

O ministério da Justiça não informou os motivos da viagem aos Estados Unidos.

Entre os assinantes dos requerimentos estão dois deputados de partidos que se consideram independentes: Darcísio Perondi (MDB-RS) e Kim Kataguiri (DEM-SP).

O PSL, partido de Bolsonaro, têm três subscritores: Bia Kicis (PSL-DF), Delegado Waldir (PSL-GO) e Carla Zambelli (PSL-SP).

Carla Zambelli

Crédito, Agência Câmara

Legenda da foto, Zambelli (foto) diz que deputados pró-governo estarão mobilizados para defender Moro

Zambelli disse à BBC News Brasil que seu objetivo ao assinar o requerimento era garantir o espaço para falar em defesa de Sergio Moro. E disse que os apoiadores do governo também estarão mobilizados.

"A gente está chamando nos grupos (de WhatsApp), pedindo que os deputados compareçam na audiência para fazer o contraponto (em defesa de Moro). Amanhã é um dia de agenda cheia para nós, mas vou tentar permanecer lá o tempo todo", disse ela. Zambelli também participou do acordo costurado entre as três comissões da Câmara para fazer uma audiência conjunta.

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