#ForçaChape: O tuíte que revelou proibição da Anac e mudança de planos antes de tragédia

Twitter/Douglas Dorneles

Crédito, Reprodução/Twitter

Legenda da foto, Jornalista chapecoense Douglas Dorneles, que está entre as vítimas, mencionou veto do órgão a Chapecoense; equipe teve de viajar em voo comercial
    • Author, Ricardo Senra - @ricksenra
    • Role, Da BBC Brasil em São Paulo

"Atenção: mudança no vôo da Chape! ANAC não permitiu voo fretado com a Lamia. Time vai em novo voo, comercial, 15h30. Será tudo outra vez?!"

Esse foi o penúltimo tuíte do jornalista chapecoense Douglas Dorneles. No último, publicou uma foto do avião que levava a delegação: "Vai começar a viagem da Chape rumo a Medellín na Colômbia! É decisão da #CopaSudamericana"

Na manhã desta terça-feira, Dorneles, que cobria o time para rádios e jornais locais, apareceu na lista de vítimas do acidente que deixou 71 mortos, entre jogadores, comissão técnica, tripulação e jornalistas, segundo informações oficiais.

As mensagens publicadas pelo jornalista começaram a se espalhar imediatamente pela rede. Desesperados, seguidores e amigos mandavam, em vão, mensagens ao jornalista.

"Vocês estão vivos, né??"; "Mano, apareçam com notícias, o Brasil esta rezando por vocês"; "Bicho! Acalma a gente, pelo amor de deus!"

Os registros derradeiros no Twitter também deram uma pista a jornalistas, que começaram a buscar informações sobre a proibição do voo fretado com a companhia Lamia, sediada na Bolívia, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

O avião que caiu em Medellín tinha 17 anos e era justamente da Lamia.

Twitter/Douglas Dorneles

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Legenda da foto, Avião com equipe da Chapecoense sofreu acidente quando se aproximava de Medellín, na Colômbia
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Legenda da foto, Amigos de jornalista Douglas Dorneles pedem informações sobre seu paradeiro

Prejuízo

A Anac emitiu nota à imprensa às 9:39 desta terça-feira. No texto, o órgão informa que a companhia Lamia Corporation pediu uma autorização de voo para o transporte do time.

"O voo partiria do Brasil para a Colômbia, na segunda-feira, 28/11, segundo a solicitação. O pedido foi negado com base no Código Brasileiro de Aeronáutica (CBAer) e na Convenção de Chicago, que trata dos acordos de serviços aéreos entre os países. O acordo com a Bolívia, país originário da companhia aérea Lamia, não prevê operações como a solicitada", diz a nota.

Depois do veto ao voo fretado, o time decidiu pegar um voo comercial até o aeroporto boliviano de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

À reportagem, a Anac confirmou que, de lá, o time embarcou em um voo fretado da companhia boliviana Lamia rumo a Medellín.

Fontes dentro da agência de aviação disseram à BBC Brasil que o time já havia usado a mesma "estratégia" em outubro, quando venceu o Junior Barranquilla por 3 a 1.

Nos corredores da ANAC, fala-se que o time teria um contrato de viagem com a empresa aérea boliviana e que, desta forma, teria menos prejuízo com o dinheiro já pago para o voo que foi negado.

O vice-presidente da Chapecoense, Ivan Tozzo, informou, também por nota, que não comentará a tragédia até receber "manifestação oficial da autoridade aérea colombiana para emitir nota oficial".

A reportagem não conseguiu contato com a companhia aérea Lamia. O site da empresa está fora do ar desde a manhã desta terça-feira.

Destroços de avião com equipe da Chapecoense

Crédito, Teleantioquia

Legenda da foto, Avião com time catarinese sofreu acidente nesta terça-feira na Colômbia; 71 pessoas morreram

Frota

À BBC Brasil, Décio Correa, presidente do Fórum Brasileiro de Aviação Civil, disse que o modelo de avião Avro RJ85, que caiu na Colômbia, tem boa avaliação e funciona bem em locais com pouca infraestrutura e pistas curtas.

Popular nos anos 1980 e 1990, o modelo foi produzido entre 1983 e 2002 pela empresa britânica British Aerospace.

Ao todo, foram construídas 387 unidades. Um dos trunfos do avião, considerado um dos jatos britânicos mais bem sucedidos, é operar em pistas curtas.

"A razão de descontinuar foi técnica", diz o especialista. "A tecnologia mudou de lá para cá, o que gera um impacto econômico, porque o modelo antigo deixa de ser um negócio interessante".

O avião que levava o time até Medellín era um dos dois da companhia aérea Lamia.

O site especializado em aviação Airway publicou um histórico da aeronave.

Destroços de avião com equipe da Chapecoense

Crédito, Teleantioquia

Legenda da foto, Relatos indicam que avião teve pane elétrica

"O exemplar que levava o time brasileiro para Medellín, na Colômbia, foi fabricado em 1999 e entregue originalmente para a companhia regional americana Mesaba. Em 2007, foi repassado para a empresa irlandesa CityJet e chegou a voar com as cores da Air France. Em 2013, foi comprado pela Lamia para operar na Venezuela. No ano passado, ele passou a voar na Bolívia", diz a publicação.

Para Correa, a idade da aeronave pode sugerir problemas técnicos. "Dezessete anos é bastante tempo. As peças podem se desgastar, ficam obsoletas. Não dá para comparar com um avião novo, seria colocar um iPhone e um telefone analógico lado a lado."

Acidente

O avião que transportava o time de futebol da Chapecoense sofreu um acidente na madrugada desta terça-feira na Colômbia, para onde viajava para disputar a final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional, de Medellín.

Segundo um comunicado do Aeroporto José María Córdoba, de Medellín, a tripulação comunicou uma emergência por "falhas elétricas" por volta das 22h15 locais (1h15 de Brasília).

Estavam a bordo 77 pessoas, 68 passageiros e nove tripulantes. Vinte e um eram jornalistas.

Desse total, 71 morreram e seis sobreviveram.

Entre os sobreviventes confirmados estão os goleiros Danilo e Follmann, o lateral Alan Ruschel e o jornalista Rafael Henzel, assim como uma aeromoça, identificada como Ximena Suárez.

O mau tempo na região torna mais difícil o trabalho de resgate, que chegou a ser suspenso por causa da forte chuva. O avião partiu-se em três pedaços.

O local da queda, a cerca de 50 quilômetros da cidade de Medellín, no Departamento (Estado) de Antióquia, é montanhoso e de difícil acesso.

A Confederação Sul-Americana de Futebol anunciou a suspensão da competição e de todas as suas atividades esportivas.