'Em países sérios, não dá para mentir para a polícia e escapar', diz analista americano

Crédito, Reuters
- Author, Ingrid Fagundez
- Role, Da BBC Brasil em São Paulo
O caso dos nadadores americanos cujo relato de assalto foi posto em xeque nos últimos dias deixará uma lição sobre as instituições brasileiras: "em países sérios, você não pode mentir para polícia e escapar com isso", opina Brian Winter, especialista em América Latina do centro de pesquisas Council of the Americas, em Washington.
Em entrevista à BBC Brasil, Winter, que morou cinco anos no país, usou a expressão em português "vai acabar em pizza" para falar das outras consequências do episódio. Ele diz que o imbróglio será esquecido em alguns dias e não haverá grandes efeitos legais ou diplomáticos mas, antes, é crucial que os fatos sejam revelados.
"Daqui a 24 horas, todos vão dizer, 'ah, foram só jovens na rua às cinco da manhã, depois de uma balada no Rio'. Tudo bem, mas esta etapa em que estamos agora, de descobrir a verdade vergonhosa, é importante para a imagem do país no exterior."
O analista se refere ao vídeo, divulgado na manhã desta quinta-feira, em que os atletas Ryan Lochte, James Felgen, Gunnar Bentz e Jack Conger - que disseram ter sido assaltados no domingo - aparecem causando confusão em um posto de gasolina.
A gravação é mais um furo na narrativa de Lochte sobre o assalto, que foi considerada fantasiosa pela polícia. Em entrevista coletiva na tarde de quinta-feira, Fernando Veloso, chefe da Polícia Civil do RJ, afirmou que um dos nadadores teria confirmado em depoimento que o roubo não aconteceu da forma como foi contado inicialmente.

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Para Winter, a atuação das autoridades brasileiras no caso, inclusive impedindo a saída de dois dos nadadores do país, foi adequada e necessária para a investigação. Na quarta-feira, Bentz e Conger foram retirados de um avião no aeroporto do Galeão, quando estavam prestes a viajar para os Estados Unidos.
"Ouvi algumas pessoas dizerem 'ah, isso mostra que as autoridades são agressivas'", prossegue Winter. "Mas é um caso clássico dos 'dois pesos e duas medidas' que os americanos têm para a América Latina. Em países sérios, você não pode mentir para a polícia e achar que vai escapar com isso. É crime."
De acordo com o americano, o caso é mais uma prova da força das instituições do país, o que seria visível nas recentes operações de combate à corrupção.
"Olhe isso no contexto do que aconteceu nos últimos três anos no Brasil. Tudo disse respeito a instituições legais fortes, como na Lava Jato. Este é outro caso de instituições brasileiras trabalhando como deveriam."
Agindo dessa forma, opina o analista, o Brasil deixa uma mensagem aos americanos.
"Sei, pela minha experiência, que o Brasil é um país com instituições policiais sólidas, onde você não pode fazer isso. Parece que agora eles sabem também."

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'Velho-oeste'
Segundo o especialista, é essencial esclarecer o relato antes de "tudo ser perdoado", porque ele teria prejudicado a imagem do Brasil no exterior, fortalecendo a ideia de que o Rio é um grande "velho-oeste".
"(O relato de roubo) esteve na capa de um grande jornal em Nova York, está em todos os programas televisivos matinais, nos noticiários. E reforça essa imagem que muitas pessoas já tinham do Rio como o velho-este. É por isso que a verdade é tão importante."
O analista diz que a revolta dos brasileiros nessas circunstâncias é compreensível, porque o fato de os atletas acreditarem que podem - pelos indícios apresentados até agora - criar uma história "extremamente ridícula" e "repeti-la em frente a milhões de pessoas" sem punição é "ofensivo para os anfitriões".
Frente aos novos desdobramentos, o sentimento da maioria dos americanos é de vergonha, afirma Winter.

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Segundo ele, até os veículos de imprensa que inicialmente adotavam um tom de defesa dos nadadores devem mudar sua cobertura com a divulgação do vídeo do posto de gasolina.
"Como um americano que viveu na América Latina por dez anos, fico envergonhado quando os homens do meu país viajam para a região e se comportam assim. Agora quero ouvir o que eles têm a dizer. Se ficar provado que tudo foi inventado, os americanos devem aos brasileiros um pedido de desculpas", opina.
"Todos (Comitê Olímpico dos Estados Unidos e o governo americano) vão ter que falar algo e vai ser vergonhoso. Mas, uma vez que a verdade for dita, vai acabar em pizza."












