Tim Vickery: Na Copa e na vida, temos que dar mais valor ao esforço e menos à 'brasilidade'

Crédito, Eduardo Martino
- Author, Tim Vickery
- Role, Colunista da BBC News Brasil*
Oitenta anos atrás, Alzira, filha de Getúlio Vargas, fazia o papel de madrinha da seleção brasileira que foi jogar a Copa do Mundo na França. Quando o Brasil perdeu na semifinal, notou que "o jogo de futebol monopolizou as atenções. A derrota do time brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza no espírito público, como se se tratasse de uma desgraça nacional". Futebol, esse novo esporte bretão, já tinha se transformado em coisa séria.
Vinte anos mais tarde, essa transformação ajudaria o Brasil a ganhar a taça pela primeira vez - e 1958, na Suécia, ainda permanece sendo o único triunfo tupiniquim na Europa (pelo menos até 15 de julho, quando ocorrerá a final da Copa da Rússia).
E, desde então, tem sido difícil separar os mitos do futebol brasileiro dos mitos sobre o país. Os dois caminham juntos, correm juntos, driblam juntos e chutam juntos. E tanto a verdade quanto os mitos formam um campo fértil para debate.
O triunfo maravilhoso de 1958 aconteceu, em grande parte, justamente porque o futebol aqui já tinha se transformado em coisa tão séria, em assunto de Estado.
Em termos de organização, a seleção brasileira foi um espetáculo. Como exemplo de contraste, a seleção inglesa foi para a Copa de Chile de 1962 sem sequer levar um médico. Quatro anos antes, o Brasil já contava com uma enorme comitiva, com médicos, preparadores físicos, um dentista - até uma experiência, prematura, com um psicólogo.

Crédito, Domínio público/Acervo Museu Paulista (USP)
A mesma curiosidade e o espírito de mente aberta se aplicavam à parte tática. O futebol brasileiro se desenvolveu com uma grande participação de técnicos uruguaios e argentinos. Depois, chegou uma influência húngara. Filtrando vários conceitos, a seleção brasileira lançou uma novidade, muito à frente da concorrência - a linha de quatro defensores, em que um jogador fica recuado até o miolo da zaga. Até hoje, pessoas com mais idade falam do "quarto zagueiro". Com mais cobertura na retaguarda, o Brasil não levou nenhum gol na Copa de 1958 até a semifinal - e, em um time sólido atrás, cada lance de genialidade de seus atacantes é valorizado.
O Brasil, então, virou campeão sustentado por um processo fascinante. Mas, no discurso popular, esse processo tem sempre sido subvalorizado, até esquecido. A vitória foi vista menos como consequência de um processo e mais como resultado de uma essência da "brasilidade".
A voz - ou a caneta, ou a máquina - mais brilhante a falar disso foi a de Nelson Rodrigues, que trouxe para o futebol o espírito épico de um dramaturgo. "Qualquer pelada", escreveu, "oferece uma margem imensa de mistério, de magia, de sobrenatural." E oferece oportunidades enormes para a criação de mitos - que era o grande objetivo de Rodrigues.
"O jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado", escreveu. "O fato em si vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo de imaginação." Como exemplo, ele narrava a história fictícia de um jornalista que, vendo um pequeno e insignificante incêndio, comoveu a cidade interia inventando um pássaro que, cantando, voou para a morte em direção às chamas. "Sem passarinho", conclui Rodrigues, "não há jornalismo possível."
Com uma combinação potente de futebol e nação, os voos da imaginação de Rodrigues deram vida a pássaros poderosos.
Para ele, somente um fator havia impedido um triunfo brasileiro na Copa antes de 1958: a falta de autoestima. Estava obcecado com a ideia do Brasil como "um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem." Superado isso, não há quem possa.

Crédito, domínio público/ Pressens Bild
"A pura, a santa verdade é a seguinte - qualquer jogador brasileiro, quando se desmarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo único, em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de 'complexo de vira-latas'. (...) A inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, face ao resto do mundo."
A força e a influência dessas palavras são inegáveis. Mas é também inegável que se trata de uma visão bastante estranha.
O termo "vira-lata" não se refere a uma mistura de raças ("o brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas"). Tem muito mais a ver com o pensamento varguista do Brasil como "uma unidade racial". Rodrigues adora falar sobre "o brasileiro", como se fosse um país sem divisões sociais, sem história, um país não construído de imigrantes, a maioria recém-chegada da Europa.
O Flamengo estava endividado, e Rodrigues achava isso excelente. "Difícil encontrar um brasileiro sem dívidas", escreve. "Insisto - um brasileiro sem dívidas é o que há de mais utópico, inexequível e mesmo indesejável." Aí ele iguala a situção financeira de um campeão mundial de desigualdade econômica para pegar emprestado um conceito do historiador Eric Hobsbawm - o ex-escravo e o ex-dono de escravos unidos na sua condição de devedores. Todos cordialmente gastando mais do que ganhavam.
Óbvio que se trata de uma visão do Brasil que hoje em dia não é sustentável. A unidade racial, a cordialidade, a democracia racial - um por um caíram os mitos.
Está na hora, acredito, de olhar para além da ideia dos brasileiros entrando em um estado de graça - até porque nunca se explica por que outras nacionalidades não podem alcancar esse mesmo patamar.
As vitórias no futebol servem como inspiração, sim. Menos por serem produtos da "brasilidade" e mais porque foram frutos de um processo - uma aula para qualquer tarefa na vida.
*Tim Vickery é colunista da BBC News Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.
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