Wagner Moura à BBC: 'O Agente Secreto é sobre memória, a memória pessoal se confunde com a do país'
Depois de ser escolhido para representar o Brasil no Oscar 2026, O Agente Secreto, filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, foi indicado ao Globo de Ouro, um dos principais prêmios do cinema e da televisão nos Estados Unidos.
A obra concorre nas categorias Melhor Filme – Drama e Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, enquanto o ator Wagner Moura, protagonista do longa, concorre como Melhor Ator de Filme Drama.
Ambientado em 1977, durante a ditadura militar brasileira,O Agente Secreto aborda questões como o abuso de poder e ameaças à democracia.
Moura interpreta Marcelo, um professor viúvo que se opôs às tentativas de um funcionário do governo de roubar sua pesquisa patenteada. Agora, ele tenta se reencontrar com o filho pequeno, que mora com os avós, e conseguir os documentos necessários para fugir do país.
Em entrevista à BBC News Brasil em setembro, o ator disse que o thriller político é, sobretudo, sobre memória, a do personagem e do próprio país.
"Meu personagem passa o filme inteiro tentando encontrar um registro de sua mãe, uma prova de que sua mãe existiu, de fato, com um documento. A memória pessoal, a memória individual, ela se confunde com a memória do país", afirmou.
Moura falou com a BBC durante a estreia do longa no Recife, onde a história do filme se passa.
A reportagem o acompanhou enquanto ele arriscava passos de frevo embalado pela Orquestra Popular do Recife e o Grupo Guerreiros do Paço, rumo ao palco do Cine São Luiz, prédio histórico, que acaba de celebrar 73 anos.
Lá, uniu-se ao diretor, Kleber Mendonça, à produtora Emily Lesclaux e ao resto do elenco de O Agente Secreto.
Confira os principais trechos da entrevista feita pela jornalista Adriana Amâncio.
Baiano-pernambucano
A estreia de O Agente Secreto no Recife aconteceu após sua passagem pelo 50º Festival de Cinema de Toronto, no início de setembro.
Logo após vencer os prêmios de melhor diretor e melhor ator no Festival de Cannes, em maio, o filme teve uma agitada turnê internacional, passando por festivais na Polônia, na Austrália, Portugal e Nova Zelândia.
Na exibição do filme, nos Cinemas do Teatro do Parque São Luiz, Moura disse "estar muito feliz e à vontade" em Recife.
"Eu sou baiano, mas nasci em Rodelas, bem na fronteira com Pernambuco, e tenho esse Estado no sangue", afirmou.
Relembrando o início da carreira, o ator citou duas passagens especiais pelo Recife. Em 2000, com a peça A Máquina, de João Falcão, com quem contracenou ao lado do conterrâneo Lázaro Ramos, no Armazém 14.
A parceria se repetiria dois anos mais tarde com o filme e a série Ó Paí Ó.
O Agente Secreto marca o retorno de Wagner Moura ao cinema brasileiro após 11 anos envolvido com produções internacionais.
A sua última atuação foi em Praia do Futuro, de Karim Aïnouz. "Não tinha momento melhor para voltar a filmar em português", diz.
Para Wagner, "o filme é sempre a mistura entre o que um diretor e o roteirista querem dizer com o tempo em que esse filme é apreciado pelo público".
Americanos estão com 'inveja' do Brasil
Na capital pernambucana, a estreia do longa — que atualmente está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil — foi em clima de final de Copa do Mundo.
Recebido com euforia e aplausos, o ator diz ter se deparado com uma energia bem diferente de quando passou por festivais nos Estados Unidos.
"A gente está hoje vendo as instituições funcionando [no Brasil], vendo um crime contra a democracia sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enquanto nos festivais norte-americanos pelos quais o filme passou, a gente sentia uma certa tristeza dos americanos, quase uma inveja".
Moura se referia ao julgamento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro(PL) e outros sete membros de seu governo — incluindo membros da cúpula militar — que foram condenados por golpe de Estado.
Os acontecimentos que resultaram na condenação do grupo são frequentemente comparados aos episódios ocorridos nos Estados Unidos, após a derrota de Donald Trump para Joe Biden nas eleições de 2020
Lá, Trump também foi acusado de liderar uma rebelião contra o resultado eleitoral, mas não só foi absolvido como se reelegeu presidente, em 2024. Trump nega ter cometido qualquer ilegalidade.
O Agente Secreto coroa o encontro artístico entre Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, que "primeiro se aproximaram por razões políticas", segundo o ator.
Moura diz que o filme foi gerado "num momento difícil pelo qual artistas, universidades e a imprensa brasileiras passaram entre 2018 e 2022", durante o governo de Bolsonaro.
O ex-presidente enxergava setores da imprensa, das artes e das universidades como inimigos ideológicos e promoveu cortes de verbas federais a essas áreas. Hoje, o momento é outro,
"Uma coisa que eu tenho certeza é que, tanto eu quanto o Kleber, estamos muito orgulhosos do momento pelo qual passa o Brasil, as instituições brasileiras, a democracia no Brasil", disse Moura.
"É tão bonito ver que hoje, finalmente, o Brasil está reencontrando-se com sua memória", afirma.
Vivendo em Los Angeles, nos Estados Unidos, há sete anos com a esposa e os três filhos, Moura critica outro aspecto do governo Trump: sua postura com imigrantes sem documentos.
"É um horror, eu conheço muitos imigrantes ilegais. Eu moro em Los Angeles, é uma cidade onde vivem muitos latinos, muitos mexicanos, sobretudo, e as pessoas estão com medo", diz.
"Esse negócio do ICE [agência de imigração americana] é uma coisa fascista mesmo, né? É racista. Eles atacam as pessoas na rua por uma identificação visual e racial. Se o cara não tiver o documento, o cara não volta para casa nunca mais", diz Moura.
A queixa de Moura sobre a postura da agência migratória é ecoada por muitos grupos de defesa de imigrantes nos EUA, que acusam o órgão de usar critérios raciais para abordar pessoas nas ruas e deportá-las se não estiverem no país legalmente.
Em uma decisão recente, no entanto, a Suprema Corte dos EUA decidiu que os órgãos migratórios podem adotar critérios raciais em suas abordagens. Trump se elegeu prometendo deportar milhões de imigrantes ilegais durante seu governo.
"O que está acontecendo nos Estados Unidos hoje é grave. É um país que deixou de ser mesmo uma democracia e começou a ser um país com tendências autoritárias evidentes", avaliou Moura.



