'Não é surpresa, o esperado é que ela funcione', diz Tatiana Sampaio sobre polilaminina, esperança para reverter paralisia por lesões na medula
A polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida pelo nosso corpo — surge como uma nova esperança para tratar vítimas de lesões na medula.
Estudada há quase três décadas pela pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a polilaminina ainda está nas fases iniciais dos testes clínicos, mas tem apresentado resultados promissores em modelos experimentais.
No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou especialistas independentes — com oito pacientes.
Nos testes, conduzidos pela UFRJ em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância foi aplicada diretamente na medula espinhal durante uma cirurgia e apresentou resultados variados.
Alguns pacientes tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos — um efeito considerado "sem precedentes" pelos autores.
"Não é surpresa, porque o esperado é que ela funcione. Na verdade, a surpresa é que a gente sempre imagina que algo vai dar errado, que é muito bom para ser verdade", declara Sampaio em entrevista à BBC News Brasil.
"Até porque existem muitas propostas de medicamentos para a lesão medular que você tem um racional bom para usar em modelo animal, e mesmo assim não funciona. E mesmo aqueles que funcionam em modelo animal, ainda assim podem não funcionar em humano. Mas temos passado por todas as etapas e conseguido", declara. complementa.
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.
Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.
Apesar de ainda estar longe de ter uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.
Tatiana Sampaio explica que o uso experimental fora dos protocolos clínicos é inadequado e pode trazer riscos sem o devido acompanhamento.
Ao mesmo tempo, ela reconhece o lado humano da questão. Quando familiares, sem perspectivas de melhora, pedem ajuda e perguntam se há chance real, a resposta é honesta: pode haver.
Assista a um trecho da entrevista.
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