Israel lança grande ataque contra alvos nucleares e comandantes militares do Irã: o que se sabe até agora

Prédio desabado

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Ataque militar de Israel ao Irã despertou temores de um conflito mais amplo no Oriente Médio
Tempo de leitura: 7 min

Israel realizou uma série de ataques de grande proporção contra o Irã na madrugada de sexta-feira (13/06) em horário local — noite de quinta-feira (12/06) no Brasil.

De acordo com a mídia estatal iraniana, 78 pessoas foram mortas somente na capital, Teerã, e mais de 320 ficaram feridas.

Mais explosões estão sendo registradas em Teerã na madrugada de sábado (14), em horário local.

Entre os mortos no Irã estão nomes importantes para o regime, como Hossein Salami, chefe do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica; Mohammad Bagheri, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã; e ao menos seis cientistas nucleares, incluindo Fereydoon Abbasi, ex-chefe da agência nuclear do país.

A morte de Salami é particularmente um duro golpe para Teerã. A Guarda Revolucionária Islâmica (GRI) é uma força militar estratégica, política e econômica no Irã, com laços estreitos com o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.

Khamenei afirmou que, com a operação, Israel "preparou para si mesmo um destino amargo, que certamente receberá."

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou em uma carta às Nações Unidas que os ataques israelenses foram uma "declaração de guerra" , segundo a agência de notícias AFP.

O porta-voz das Forças Armadas do Irã, Abolfazl Shekarchi, afirmou que os Estados Unidos e Israel pagarão um "preço alto", segundo a agência Reuters.

Os EUA, no entanto, declararam que o ataque foi uma decisão "unilateral" de Israel. Em Tel Aviv, israelenses estão estocando comida e água na expectativa de uma resposta do Irã.

Carros danificados em Teerã

Crédito, EPA

Legenda da foto, Carros destruídos em Teerã após operação israelense; segundo Tel Aviv, ataques foram 'preventivos'
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Ao anunciar os ataques, o governo israelense declarou estado de emergência no seu território na expectativa de retaliações — o que ocorreu ao longo da sexta-feira, com menos de 100 mísseis balísticos disparados pelo Irã, segundo as forças israelenses.

Cerca de 40 pessoas foram feridas em Israel e prédios foram danificados em cidades como Tel Aviv. Entretanto, Israel afirma que a maioria dos mísseis foi interceptada ou falhou em atingir o alvo.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou em pronunciamento que o ataque "atingiu o coração do programa de enriquecimento nuclear do Irã" e teve como alvo cientistas iranianos que trabalhavam no desenvolvimento de bombas.

A principal instalação de enriquecimento do Irã, na cidade de Natanz, a cerca de 225 km ao sul da capital Teerã, foi atacada, disse Netanyahu.

"Após o ataque preventivo do Estado de Israel contra o Irã, um ataque com mísseis e drones contra o Estado de Israel e sua população civil é esperado em um futuro próximo", diz comunicado do Ministério de Defesa israelense.

As Forças de Defesa de Israel (FDI) escreveram nas redes sociais que dezenas de jatos "completaram a primeira etapa" do ataque, que incluiu dezenas de alvos militares e nucleares do Irã.

A mídia estatal iraniana noticiou que áreas residenciais da capital foram atingidas, além do quartel-general da Guarda Revolucionária — braço das forças armadas e uma das instituições mais poderosas do país.

Voos no Aeroporto Internacional Imam Khomeini, em Teerã, foram suspensos.

Em nota, Netanyahu afirmou que a operação, chamada de Leão Ascendente, "continuará por quantos dias forem necessários".

"Nos últimos meses, o Irã tomou medidas nunca antes tomadas, medidas para transformar este urânio enriquecido em arma", afirmou o primeiro-ministro israelense.

"Se não for interrompido, o Irã poderá produzir uma arma nuclear em um prazo muito curto. Pode levar um ano. Pode levar alguns meses, menos de um ano. Este é um perigo claro e presente para a própria sobrevivência de Israel."

Netanyahu com olhar sério

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Netanyahu afirmou que ataque 'continuará por quantos dias forem necessários'

Os ataques israelenses realizados até agora não visaram apenas pessoas e pontos do programa nuclear iraniano, mas também as defesas aéreas do país.

Segundo Paul Adams, repórter de assuntos diplomáticos da BBC, isso sugere que Israel está preparando o terreno para novos ataques nos próximos dias.

Israel afirma que o ataque ao Irã envolveu 200 jatos, mas alguns relatos apontam que pode ter havido algum tipo de elemento clandestino semelhante ao recente ataque de drones da Ucrânia a bases aéreas russas.

Fontes de segurança disseram que a agência de espionagem israelense, Mossad, contrabandeou drones explosivos para o Irã "bem antes do ataque israelense".

Acredita-se que os drones tenham sido usados ​​para atacar lançadores de mísseis que poderiam representar uma ameaça a Israel no caso de uma retaliação iraniana em larga escala.

Segundo Adams, apesar de toda a sua retórica bélica, a capacidade do Irã de dar uma resposta militar direta não é mais a mesma.

O chefe da agência de vigilância nuclear da ONU (AIEA) classificou os ataques israelenses às instalações nucleares do Irã como "profundamente preocupantes".

Em declaração aos membros do conselho, Rafael Grossi disse: "Tenho afirmado repetidamente que instalações nucleares jamais devem ser atacadas, independentemente do contexto ou das circunstâncias, pois isso pode prejudicar tanto as pessoas quanto o meio ambiente".

"Tais ataques têm sérias implicações para a segurança, a proteção e as salvaguardas nucleares, bem como para a paz e a segurança regionais e internacionais."

Ele apelou "a todas as partes para que exerçam a máxima contenção para evitar uma nova escalada".

Na quinta-feira (12/06), a AIEA havia declarado formalmente que o Irã violou suas obrigações de não proliferação pela primeira vez em 20 anos.

Trump e Putin reagem aos ataques

Buraco na parede de prédio em Teerã após ataque israelense

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Prédio danificado após ataques israelenses em Teerã; Israel disse se tratar de uma operação 'preventiva'

Autoridades americanas foram informadas na quarta-feira (11/06) que Israel estava prestes a lançar uma operação contra o Irã, informou a CBS, parceira americana da BBC, citando autoridades familiarizadas com o assunto.

Segundo essas fontes, esse foi um dos motivos pelos quais os EUA aconselharam alguns americanos a deixarem a região. Membros do governo americano também acreditam que o Irã pode retaliar em certos postos americanos no Iraque.

Os ataques ocorrem depois que os EUA anunciaram a evacuação do pessoal não essencial de sua embaixada em Bagdá, no Iraque, devido ao aumento dos riscos à segurança.

As autoridades americanas não especificaram o motivo exato da evacuação, mas a emissora CBS, parceira da BBC nos EUA, afirmou que Washington foi informado de que Israel estava pronto para lançar uma operação no Irã.

Em um comunicado divulgado logo após o início dos ataques israelenses, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a operação foi uma "decisão unilateral de Israel".

As autoridades americanas também restringiram a circulação de seu pessoal dentro do território israelense.

A nova escalada do conflito acontece num momento em que as negociações entre Irã e os Estados Unidos sobre o programa nuclear iraniano pareciam ter estagnado.

Nesta quinta-feira, perguntaram ao presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a possibilidade de um ataque israelense ao Irã, e ele foi explícito ao afirmar que não queria que isso acontecesse.

"Enquanto acreditar que haverá um acordo [nuclear com o Irã], não quero que se concretize", declarou, acrescentando que qualquer ataque poderia arruinar as negociações.

Apesar disso, Trump disse acreditar que um ataque estava "bastante próximo".

"Não quero dizer que seja iminente", comentou. "Mas parece algo que realmente poderia acontecer."

Além disso, Trump afirmou que gostaria de "evitar um conflito".

"Eles [Irã] terão que estar dispostos a nos dar algumas coisas que não estão dispostos a dar agora", afirmou.

Entretanto, na sexta-feira, o presidente americano se referiu aos ataques de uma forma mais positiva — descrevendo-a como "excelente" e elogiando o "excelente equipamento americano" utilizado.

O especialista em contraterrorismo Javed Ali, que trabalhou no Conselho de Segurança Nacional durante o primeiro governo de Donald Trump, disse à BBC News que a grande incógnita agora é o que acontecerá com as negociações nucleares previstas entre Irã e EUA, que tinham uma sexta rodada programada para este fim de semana.

"O Irã advertiu que responsabilizaria os EUA se Israel o atacasse e pode tentar atingir bases americanas", afirmou Ali.

"Isso ainda não ocorreu, mas, se acontecer, provocaria uma forte resposta de Washington."

Ali acrescentou que "o Irã, por enquanto, não quer envolver diretamente os Estados Unidos nesse conflito, mas a situação é extremamente volátil".

Dmitry Peskov, o porta-voz do presidente russo Vladimir Putin, disse que "a Rússia está preocupada e condena a forte escalada das tensões."

Ele acrescentou que Putin está recebendo atualizações sobre a situação do Ministério da Defesa, do Serviço de Inteligência Estrangeira e do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.

A Rússia é uma aliada próxima do Irã.

No início deste ano, os presidentes de Rússia e Irã assinaram um acordo abrangente de parceria estratégica os dois países. Mas o acordo não representa uma aliança militar formal nem inclui obrigações mútuas de assistência militar.

O que se sabe sobre o programa nuclear iraniano

Israel afirma ter "atingido o coração do programa de enriquecimento nuclear do Irã".

Mas do que se trata exatamente?

Teerã sustenta há anos que seu programa nuclear tem fins exclusivamente civis. No entanto, possui várias instalações espalhadas pelo país — e pelo menos algumas delas teriam sido alvo dos recentes ataques israelenses.

Apesar das afirmações iranianas, diversos países, assim como o Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), principal entidade de supervisão nuclear mundial, duvidam de que o programa tenha apenas objetivos pacíficos.

Nesta semana, um conselho da AIEA declarou formalmente que o Irã está descumprindo suas obrigações de não proliferação nuclear pela primeira vez em 20 anos.

O órgão citou "múltiplas violações" por parte do Irã, incluindo a falta de respostas claras sobre material nuclear não declarado e o volume de urânio enriquecido em sua posse.

Um relatório anterior do AIEA apontou que o Irã enriqueceu urânio a até 60% de pureza — um nível próximo ao grau armamentista, suficiente para fabricar até nove bombas nucleares.

O Irã, por sua vez, classificou a resolução da agência como "política".