Por que Israel 'rebaixou' Brasil nas relações diplomáticas, segundo jornal

Crédito, Getty Images/Reuters
- Author, Mariana Alvim e Rute Pina
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Tempo de leitura: 4 min
Israel decidiu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil após o governo brasileiro não responder à indicação de um novo embaixador, segundo reportagem do jornal Haaretz.
O Brasil não teria respondido à indicação de Gali Dagan ao cargo, deixando de conceder o agrément — consentimento à nomeação de um diplomata estrangeiro para atuar em seu território.
A reportagem do jornal israelense foi publicada na segunda-feira (25/08) no horário brasileiro, terça-feira (26) em Israel.
"Após o Brasil, excepcionalmente, recusar-se a atender a um pedido de reunião do Embaixador Dagan, Israel retirou o pedido e as relações entre os países passaram a ser conduzidas em um nível diplomático inferior", disse o Ministério das Relações Exteriores de Israel ao Haaretz.
O ministério israelense acrescentou que "continua mantendo contato próximo com os diversos círculos de amigos que Israel mantém no Brasil".
A BBC News Brasil pediu posicionamento oficial do governo israelense e do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) e atualizará o texto em caso de resposta.
Celso Amorim, assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, disse à TV Globo que o Brasil não vetou o nome, apenas deixou de responder à indicação.
"Não houve veto. Pediram um agrément e não demos. Não respondemos. Simplesmente não demos. Eles entenderam e desistiram. Eles humilharam nosso embaixador lá, uma humilhação pública. Depois daquilo, o que eles queriam?", indagou Amorim.
O assessor provavelmente se referia a um episódio ocorrido em fevereiro de 2024, envolvendo o diplomata brasileiro Frederico Meyer.

Crédito, EPA
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Na ocasião, o então embaixador do Brasil em Israel foi convidado para um evento no Museu do Holocausto, onde ouviu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tornou-se "persona non grata" no país e não era mais bem-vindo em Israel.
Pouco antes, Lula havia comparado a ofensiva isralense contra Gaza ao Holocausto — quando milhões de judeus foram mortos e perseguidos pelos nazistas.
Na ocasião, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a comparação havia ultrapassado "a linha vermelha".
O governo brasileiro considerou a situação em que Meyer foi colocado como um insulto ao país.
Em maio de 2024, Lula decidiu retirar Meyer de Israel, que ficou sem um embaixador brasileiro.
Na entrevista à TV Globo, Amorim afirmou que o Brasil não é contra Israel, mas contra a política do atual governo.
"Nós queremos ter uma boa relação com Israel. Mas não podemos aceitar um genocídio, que é o que está acontecendo. É uma barbaridade. Nós não somos contra Israel. Somos contra o que o governo Netanyahu está fazendo."
Ministro de Israel chama Lula de 'antissemita'
Nesta terça-feira (26/8), o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, chamou Lula de "antissemita declarado e apoiador do Hamas" por retirar o país da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês).
Em julho deste ano, o governo brasileiro deixou a aliança criada para o combate ao antissemitismo e memória do massacre dos judeus.
A decisão de deixar a IHRA foi tomada porque a adesão foi feita, segundo o Itamaraty, de maneira inadequada durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
Katz também associou o presidente brasileiro ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
No X, ele publicou uma imagem gerada por inteligência artificial de Lula controlado como uma marionete por Khamenei.
O ministro israelense alegou que a decisão de Lula de sair da IHRA coloca o país "ao lado de regimes como o Irã, que nega abertamente o Holocausto e ameaça destruir o Estado de Israel".
"Como Ministro da Defesa de Israel, afirmo: saberemos nos defender contra o eixo do mal do islamismo radical, mesmo sem a ajuda de Lula e seus aliados", afirmou Katz na rede social em português;
"Vergonha para o maravilhoso povo brasileiro e para os muitos amigos de Israel no Brasil que este seja o seu presidente. Dias melhores ainda virão para a relação entre nossos países."
O Itamaraty respondeu à publicação também utilizando o X.
"O Ministro da Defesa e ex-chanceler israelense, Israel Katz, voltou a proferir ofensas, inverdades e grosserias inaceitáveis contra o Brasil e o Presidente Lula", afirmou a diplomacia brasileira.
"Espera-se do sr. Katz, em vez de habituais mentiras e agressões, que assuma responsabilidade e apure a verdade sobre o ataque de ontem contra o hospital Nasser, em Gaza, que provocou a morte de ao menos 20 palestinos, incluindo pacientes, jornalistas e trabalhadores humanitários."
"Como Ministro da Defesa, o senhor Katz não pode se eximir de sua responsabilidade, cabendo-lhe assegurar que seu país não apenas previna, mas também impeça a prática de genocídio contra os palestinos", concluiu o Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Dois dias antes de deixar a IHRA, em julho, governo brasileiro anunciou que vai aderir a uma ação, na Corte Internacional de Justiça (CIJ), que acusa Israel de genocídio em Gaza.
A guerra em Gaza foi desencadeada pelo ataque liderado pelo grupo palestino Hamas a Israel em 7 de outubro. Na ocasião, cerca de 1.200 pessoas foram mortas e outras 251 foram levadas para Gaza como reféns.
Israel respondeu com uma grande ofensiva militar que dura até hoje e matou mais de 62.744 pessoas no território palestino, segundo dados do Ministério da Saúde administrado pelo Hamas (e considerados confiáveis pelas Nações Unidas).
O Brasil também enfrenta uma grave crise diplomática com os Estados Unidos, o principal aliado de Israel na ofensiva em Gaza.
As relações entre os países se deterioraram principalmente a partir de julho, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportado ao país.
A ofensiva seguiu com a aplicação de sanções a autoridades brasileiras, como Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), com base na Lei Global Magnitsky.
No início do ano, Trump ventilou um plano para os EUA tomarem o controle da Faixa de Gaza e reassentarem os palestinos em outro local. A proposta precisaria da cooperação dos Estados árabes, que rejeitaram a proposta.
Os EUA também apoiaram Israel nos ataques contra o Irã, em junho.
O presidente americano mantém boa relação com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que em julho chegou a dizer que vai indicar Trump para o Prêmio Nobel da Paz.












