Velas em garrafas de champanhe são causa provável do incêndio na Suíça, diz procuradora

Crédito, Imagem cedida
- Author, Nick Johnson, Silvia Costeloe e Sarah Rainsford
- Role, Da BBC News em Crans-Montana (Suíça)
- Tempo de leitura: 7 min
O incêndio que deixou ao menos 40 mortos e 119 feridos em um bar na estação de esqui de Crans-Montana, na Suíça, teria se iniciado quando velas de faísca - no mercado brasileiro, também chamadas de vela vulcão -, colocadas em garrafas de champanhe, entraram em contato com o teto do estabelecimento.
Essa é a principal hipótese das autoridades suíças, informou a procuradora-geral do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, nesta sexta-feira (2/1)
Segundo Pilloud, após as velas encostarem no teto, o fogo se espalhou rapidamente. Vídeos foram obtidos e analisados pelas autoridades, e várias pessoas foram entrevistadas.
A procuradora-geral afirmou que os dois gerentes franceses do bar foram entrevistados, assim como pessoas que conseguiram escapar do incêndio.
Na quinta-feira (1º), duas pessoas que estavam no bar no momento do incêndio relataram ao canal francês BFMTV que uma das garçonetes teria colocado velas de aniversário em cima de garrafas de champanhe e que uma delas teria sido erguida muito próxima ao teto, que teria então pegado fogo.
Pilloud explicou na coletiva de imprensa que as velas utilizadas "são velas de aniversário que se pode comprar em qualquer loja".
A procuradora explicou que "todos nós temos acesso a elas" e diz que a investigação vai analisar essas velas e se elas são adequadas para uso em um ambiente fechado.
A tragédia no Ano Novo deixou 40 mortos e 119 feridos.
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O incêndio foi tão intenso — causando queimaduras tão graves — que a identificação de todas as vítimas é difícil.
Vários cidadãos franceses e italianos estão entre os desaparecidos, incluindo Giovanni, de 16 anos, de Bolonha, cuja mãe fez um apelo desesperado por ajuda para encontrá-lo. Dois adolescentes de Milão também seguem desaparecidos.
A polícia suíça alerta que pode levar dias ou até semanas para identificar todos os que morreram.
O suíço Arthur Brodard, de 16 anos, é outro que está com paradeiro desconhecido, segundo um apelo feito por sua mãe, Laetitia.
"Estou vivendo um pesadelo, um pesadelo. Ou encontro meu filho no necrotério, ou o encontro em estado crítico. É terrível", afirmou a mãe ao jornal Le Temps.
Dos feridos, 71 são suíços, 14 franceses, 11 italianos, quatro sérvios, um bósnio, um belga, um luxemburguês, um polonês e um português. Outros 14 ainda não tiveram a nacionalidade revelada.
A BBC Verify, serviço de verificação da BBC, analisou duas fotos que mostram velas de faísca acesas presas a garrafas dentro do bar Le Constellation.
As imagens foram compartilhadas online com a alegação de que teriam sido feitas por volta do início do incêndio, na noite de Ano Novo.
Uma das imagens mostra pessoas erguendo várias garrafas, com velas de faísca acesas, e o que parece ser fogo no teto.
A equipe buscou versões anteriores da imagem na internet e não encontrou cópias anteriores ao dia 1º de janeiro. Há vários detalhes na fotografia que correspondem a fotos antigas do interior da boate, incluindo o bar, a decoração das paredes e a tubulação.
A foto foi analisada com quatro ferramentas de detecção de IA; nenhuma identificou manipulação por inteligência artificial, embora uma tenha apontado que a imagem foi editada.
Uma análise adicional com uma ferramenta de detecção de manipulação digital não encontrou nenhuma evidência de adulteração.
'Flashover' pode explicar por que fogo se espalhou rápido
Um especialista ouvido mais cedo pela BBC aponta uma possível razão para explicar porque o fogo se espalhou tão rápido dentro do Le Constellation, onde várias pessoas comemoravam o Ano Novo na madrugada do dia 1º.
Em entrevista ao programa The World Tonight, o presidente da Associação Britânica de Investigadores de Incêndios, Richard Hagger, falou sobre o fenômeno do "flashover", que, em sua avaliação, pode ter tornado o incêndio tão mortal.
"Um flashover é basicamente o rápido desenvolvimento de um incêndio dentro de um ambiente. Começa com um foco de incêndio, as chamas e a radiação térmica sobem até o teto e se espalham rapidamente", disse Hagger.
"Essa radiação térmica então se propaga para baixo, atingindo outros materiais combustíveis, como móveis e mesas, elevando a temperatura a ponto de esses materiais se decomporem termicamente e produzirem gás inflamável. E então esse gás se inflama, mas a uma velocidade bem rápida", acrescentou.
"O lugar, na prática, fica completamente tomado pelas chamas em questão de segundos."
A procuradora-geral Beatrice Pilloud afirmou que as autoridades estão investigando se a espuma acústica do local foi "a causa do problema", assim como se ela "estava em conformidade com as normas".
Dois especialistas em segurança contra incêndios disseram à BBC Verify que os materiais visíveis em fotos e vídeos do Le Constellation parecem ser "espuma tipo caixa de ovos", um tipo de material de absorção sonora feito de poliuretano (PU).
Essa espuma costuma ser tratada com retardante de chamas antes de ser instalada como material de redução de ruído em fábricas e locais de entretenimento. Mas, sem tratamento, ela pode ser altamente inflamável.
O trabalho para reconhecimento dos mortos e dos feridos ainda está em curso e "vai levar tempo", disse o chefe do governo regional do cantão de Valais, Mathias Reynard, reconhecendo, no entanto, que a espera é "insuportável" para a família das vítimas.
Falando à BBC Radio 4, Robert Larribau, chefe do Centro de Comunicação Médica de Emergência dos Hospitais Universitários de Genebra, informou que parte das vítimas é muito jovem, com idades entre 15 e 25 anos.
Algumas sofreram queimaduras internas no corpo, após inalarem fumaça.

Crédito, Valais Cantonal Police via Getty Images
A área ao redor do bar foi totalmente cercada pela polícia, que ainda trabalha no local. Segundo o repórter da BBC Nick Johnson, que está na cidade, além da fita policial também foram montadas tendas forenses, por onde os agentes têm circulado no dia seguinte à tragédia.
Do outro lado do cordão policial, acrescenta Johnson, a atmosfera é mais silenciosa e reflexiva, com as dezenas de velas, centenas de buquês de flores e mensagens de carinho e esperança deixadas pelos que passaram durante a noite de quinta para prestar homenagens a vítimas.

Crédito, Getty Images
Segundo o repórter, embora o Crans-Montana seja um resort internacional, predomina na região uma atmosfera de comunidade unida.
Muitos dos moradores entrevistados após a tragédia afirmaram conhecer alguém que estava no bar no momento do incêndio.
Uma mulher entrevistada pela reportagem contou que acabara de saber que seus dois amigos que estavam no Le Constellation morreram no hospital após sofrerem os efeitos da inalação de fumaça. Ambos tinham 20 anos.
Ela falou sobre a culpa que sentia por estar bem, enquanto a família dos amigos passava por um momento de tanto sofrimento.

'Muitas cenas chocantes'
O Le Constellation, por sua vez, era uma "verdadeira instituição", como descreveu a jornalista da BBC Silvia Costeloe, acrescentando que, apesar de a região ser conhecida pelo luxo, o bar não era suntuoso.
Tinha um espaço amplo, onde muitos turistas e locais iam se divertir.
Os relatos de testemunhas e pessoas que estavam no local no momento do incêndio são de desespero.
"As pessoas corriam em todas as direções, gritando e chorando", contou Daniella, de Milão. "Um jovem veio até mim e disse que tinha visto o inferno — coisas que jamais esqueceria."
Um jovem de 18 anos que não quis se identificar disse que entrou no bar durante o incêndio para procurar seu irmão mais novo. "Vi pessoas queimando... Encontrei pessoas queimando da cabeça aos pés, sem roupa nenhuma", disse ele.
Axel Clavier disse que ficou preso no prédio em chamas e precisou quebrar uma janela para escapar. "Não conseguíamos enxergar nada por causa da fumaça", disse ele à agência de notícias AFP, "metade das minhas roupas sumiu, foi uma loucura."
A testemunha Dominic Dubois disse à agência de notícias Reuters que um bar próximo ofereceu abrigo e usou cortinas para ajudar a manter as pessoas aquecidas.
"Eles fizeram um trabalho incrível ao permanecer abertos. Estava quente lá dentro, e isso era o necessário", afirmou.
Uma agência local do banco UBS também foi aberta, acrescenta ele: "Empurramos todas as mesas para o lado, todas as mesas foram afastadas, e as pessoas entraram. Estava quente lá dentro e havia mais luz também".
Dubois disse ter visto "muitas cenas chocantes", acrescentando: "Havia muitas pessoas muito fortes, que se mantiveram firmes e entenderam que suas vidas estavam em perigo, mas decidiram que, mentalmente, era mais importante manter a calma".

Crédito, Getty Images
Entre os mortos e feridos, acredita-se que haja pessoas de várias nacionalidades, que estavam passando o fim de ano nos Alpes suíços.
O Ministério das Relações Exteriores da Itália informou que 16 cidadãos italianos estão desaparecidos. O país é vizinho da Suíça.
Três cidadãos italianos foram transferidos para um hospital em seu país, na cidade de Milão.
O Ministério das Relações Exteriores da França afirmou que oito cidadãos do país são considerados desaparecidos após a ocorrência na Suíça e podem estar entre os mortos.
O time francês FC Metz confirmou que um de seus jogadores, da categoria juvenil, está entre os feridos e foi transferido um hospital na Alemanha. Tahirys dos Santos, de 19 anos, foi "queimado de forma grave", disse o clube.
O presidente suíço, Guy Parmelin, classificou o incêndio como "uma das piores tragédias que o país já viveu".
















