Quem é Delcy Rodríguez, a poderosa sucessora de Maduro com trânsito nos EUA, na China e entre empresários

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- Author, Ángel Bermúdez
- Role, BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 7 min
A detenção de Nicolás Maduro pelas forças militares dos Estados Unidos no sábado (03/01) colocou todos os olhos sobre Delcy Rodríguez, a vice-presidente escolhida pelo líder venezuelano como seu braço direito.
Rodríguez assumiu nesta segunda-feira (05/01) o cargo de presidente interina do país sul-americano.
Ela recebeu o apoio do exército venezuelano e de Nicolás Maduro Guerra, parlamentar e filho de Nicolás Maduro.
No final da tarde de sábado, após a detenção de Maduro, a Suprema Corte já havia determinado que Rodríguez assumisse a chefia do Estado diante da "ausência forçada" de Maduro.
Em comunicado, a presidente da Sala Constitucional do tribunal, Tania D'Amelio, argumentou que a Constituição atribui à vice-presidência a função de substituir o presidente em caso de ausência temporária ou definitiva.
A magistrada referiu-se à operação militar norte-americana que deteve Maduro e sua esposa como um "sequestro" e uma "agressão estrangeira".
Com a nomeação de Rodríguez como presidente interina, o tribunal lhe concedeu o poder de liderar "a defesa da soberania" e "preservar a ordem constitucional" da Venezuela, disse o comunicado assinado por Tania D'Amelio.
Horas antes do pronunciamento do tribunal, a nova presidente interina também condenou a ação dos EUA e classificou a captura de Maduro e sua esposa como "sequestro ilegal e ilegítimo".
"O que está sendo feito com a Venezuela é uma barbaridade", afirmou Rodríguez em discurso transmitido em rede nacional de rádio e televisão.
"Cercá-la, bloqueá-la é uma barbárie que viola todos os mecanismos do sistema internacional de direitos humanos e constitui crimes contra a humanidade. Que nenhum bloqueio tente mudar a vontade deste povo", acrescentou, convocando venezuelanos a saírem em defesa de seu país.
"Na Venezuela, só há um presidente, que se chama Nicolás Maduro Moros."
Com essas palavras, ela respondeu ao que foi dito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a primeira coletiva de imprensa após a captura de Maduro.

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Na coletiva convocada para explicar a operação militar realizada no sábado, Trump já havia sugerido que Rodríguez poderia ficar à frente do governo após a saída de Maduro, mas trabalhando em alinhamento com o governo dos EUA na recuperação da Venezuela.
Trump afirmou que Rodríguez havia feito contato com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e deu a entender que ela aparentemente estaria disposta a aceitar todas as exigências de Washington.
"Ela não tem alternativa", afirmou o presidente americano.
Mas, pouco depois da entrevista coletiva de Trump, Rodríguez reafirmou em pronunciamento sua posição de considerar Maduro como "o único presidente da Venezuela", denunciou a captura do líder venezuelano como um "sequestro" e acrescentou que o país sul-americano "não se entrega, não se rende e nunca será colônia de ninguém".
Estas últimas declarações são coerentes com o histórico de Delcy Rodríguez, a quem Maduro já descreveu no passado como uma "tigresa", devido à sua defesa do socialismo bolivariano.
Quem a conhece costuma dizer que ela é "muito inteligente", mas também "dogmática".
O jornal americano New York Times, no entanto, disse em uma reportagem publicada neste domingo (4/1) que, semanas atrás, o governo Donald Trump já havia decidido que Rodríguez poderia ser a sucessora de Maduro com quem eles poderiam trabalhar.
Segundo a reportagem, a Casa Branca teria sido convencida por "intermediários" que Delcy Rodríguez, conhecida por ser boa gestora da indústria petroleira estatal, "protegeria e defenderia futuros investimentos americanos em energia" na Venezuela.
Neste domingo, Rubio deu várias entrevistas à imprensa americana e fez acenos — mas também ameaças — ao novo governo Venezuelano.
Disse que a nova cúpula não será julgada por seu passado, nem pelo que diz "publicamente", mas por atos e pela capacidade de tomar "decisões corretas", protegendo os interesses americanos.
Trump fez o mesmo. À revista The Atlantic disse que a interina "vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro" se "não fizer o que é certo".
No governo brasileiro, a avaliação é a de que ainda está em curso uma negociação entre Delcy Rodríguez e os EUA e que, "se ela não der o que eles querem", ela pode cair, segundo disse à BBC News Brasil uma fonte que acompanha as discussões sobre o tema no Planalto.
O pedido de Washington, considerado "inaceitável", teria a ver com petróleo.
O Brasil, segundo essa mesma fonte, também a vê como hábil e com bons contatos no empresariado. Ela também é uma interlocutora do chanceler brasileiro Mauro Vieira.
Mas, afinal, quem é Delcy Rodríguez e como ela ficou tão poderosa no chavismo?
Linhagem política de esquerda

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Delcy Rodríguez tem a política no sangue.
A advogada de 56 anos é filha de Jorge Antonio Rodríguez, que foi guerrilheiro na década de 1960 e morreu sob custódia policial em 1976, após ser detido por sua ligação com o sequestro de William Niehous — um alto executivo de uma empresa norte-americana que operava na Venezuela.
A morte de Jorge Antonio Rodríguez causou comoção na opinião pública, pois ocorreu devido às torturas e maus-tratos a que foi submetido pelas autoridades policiais.
Essa morte se tornaria parte da motivação que levaria Delcy a estudar Direito, curso que ela fez na Universidade Central da Venezuela e que, posteriormente, continuou com estudos de Direito Trabalhista e Sindical na França.
"Tomei a decisão de fazer justiça no caso do meu pai e entrei na faculdade de Direito. Lá, imediatamente me candidatei a uma vaga de assistente de pesquisa no Instituto de Estudos Penais", comentou ela certa vez.
Esse acontecimento também teria influenciado sua aproximação com a política.
"A revolução bolivariana, a chegada do comandante Hugo Chávez, foi nossa vingança pessoal", disse ela em uma entrevista em 2018, embora tenha garantido que não agia movida pelo ódio.
De Chávez a Maduro

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Assim como seu irmão mais velho, Jorge Rodríguez, atual presidente da Assembleia Nacional [o poder legislativo], Delcy Rodríguez começou sua ascensão na hierarquia política durante o governo de Hugo Chávez.
Foi quando ela chegou pela primeira vez ao gabinete para ocupar por alguns meses o Ministério do Despacho da Presidência.
Mas foi após a chegada de Maduro ao poder que ela ocupou vários cargos no topo do Poder Executivo. Inicialmente, foi ministra da Comunicação e Informação, ministra da Economia e chanceler.
E, recentemente, ascendeu à vice-presidência executiva, além de acumular as responsabilidades de ministra do petróleo (Ministerio del P.P. de Hidrocarburos).
Ela também foi a primeira presidente da controversa Assembleia Nacional Constituinte eleita em 2017.
Um cargo de grande relevância, pois — pelo menos na teoria jurídica — tinha mais poder do que a presidência, por ser considerado um órgão de caráter supraconstitucional.
Assim como seu irmão Jorge, Delcy foi uma peça fundamental que o governo de Maduro usou como operadora da política, tanto fora quanto dentro da Venezuela.
"Delcy trabalha em dupla com seu irmão. Ela é um pouco menos intelectual, mais operacional. São pessoas bem formadas que ocuparam um vazio como consequência do abandono absoluto de pessoas capazes que havia no governo", opinou o cientista político Nícmer Evans em entrevista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) em 2024.

Agente de diplomacia
Delcy Rodríguez ocupou formalmente o cargo de ministra das Relações Exteriores de Maduro entre 2014 e 2017, mas, independentemente de exercer o cargo, ela nunca deixou de ser uma das figuras visíveis do governo, tanto dentro quanto fora da Venezuela.
Nos últimos anos, em que Maduro reduziu suas viagens ao exterior, ela foi uma figura-chave nas relações com países aliados como Turquia, China ou Irã.
Segundo uma fonte do governo brasileiro, ela tem bons contatos com os EUA desde o governo Joe Biden (2020-2025).
No cenário internacional, Rodríguez também protagonizou vários incidentes — como em 2016, quando, enquanto ministra das Relações Exteriores, tentou entrar em uma reunião do Mercosul em Buenos Aires, após a Venezuela ter sido excluída do bloco.
Anos mais tarde, ocorreria o que a imprensa espanhola chamou de "Delcygate".
A polêmica surgiu depois que, na madrugada de 20 de janeiro de 2020, Rodríguez aterrissou em um avião particular no aeroporto de Barajas, em Madri, onde se reuniu por algumas horas com o então ministro dos Transportes da Espanha, José Luis Ábalos, apesar de ter uma proibição de entrada no espaço Schengen emitida pela Áustria.
Rodríguez está entre os cerca de cinquenta funcionários de alto escalão venezuelanos sobre os quais a União Europeia impôs sanções por causa das violações dos direitos humanos e da deterioração da democracia na Venezuela.
Foi também sancionada pelos EUA em 2018, quando o Tesouro americano impôs esse tipo de medida contra seu irmão Jorge Rodríguez, contra o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, e contra a primeira-dama, Cilia Flores.
Naquela época, assim como agora, Delcy Rodríguez rejeitou esse tipo de sanção e questionou abertamente as decisões americanas.
Por isso, passar desse histórico a ser um suposto instrumento de Trump para uma transição pós-Maduro na Venezuela pode exigir um contorcionismo político que só poderia ser alcançado sob a pressão das realidades mais duras.
Com informações de Flávia Marreiro, da BBC News Brasil em São Paulo















