Mais rápido que a F1: a categoria extrema do automobilismo em que as mulheres são as maiores vencedoras

A piloto sueca de Top Fuel Susanne Callin, de capacete preto e laranja e com apenas os olhos expostos pelo visor, olha diretamente para a câmera, em foto tirada em Mantorp, na Suécia, em 2025
Legenda da foto, Susanne Callin venceu o Campeonato Europeu de Top Fuel em 2025 e 2026
    • Author, Jessica Abrahams
    • Role, Serviço Mundial da BBC
  • Published
  • Tempo de leitura: 10 min

Como "ser lançada de um canhão". É a melhor comparação que a piloto de corrida Susanne Callin pode fazer sobre os níveis radicais da sua categoria no automobilismo.

Callin é bicampeã europeia da Top Fuel, uma categoria frequentemente descrita como o esporte mais rápido do planeta.

As corridas começam com um ronco de fazer tremer os ossos. Os carros com aceleração mais rápida do mundo deixam a linha de partida com chamas saindo dos escapamentos.

Sua velocidade atinge mais de 480 km/h em corridas que duram apenas quatro segundos. Os pilotos sofrem mais força G que os astronautas quando são lançados ao espaço.

Esta é a única categoria de elite do automobilismo em que as mulheres frequentemente vencem os homens na disputa pelos principais títulos.

As mulheres conquistaram sete dos últimos nove campeonatos europeus. E, até recentemente, a piloto americana Brittany Force detinha o recorde mundial de velocidade no esporte.

Para efeito de comparação, a última mulher a concorrer em um Grande Prêmio de Fórmula 1 foi a italiana Lella Lombardi (1941-1992) 50 anos atrás. E ela segue sendo, até hoje, a única a pontuar na categoria.

Susanne Callin no seu carro da Top Fuel em Santa Pod, perto de Northampton, no Reino Unido, em setembro de 2026. Seu carro emite grandes chamas nas duas laterais, acima dos grandes pneus pretos, enquanto sua equipe observa atrás o carro deixando a linha de partida.
Legenda da foto, Os pilotos da Top Fuel sofrem força G maior que os astronautas quando são lançados ao espaço

As mulheres representam cerca de 10% dos participantes do automobilismo e apenas 4% das pilotos de elite, segundo o grupo ativista More Than Equal ("Mais do que iguais", em inglês).

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Mas elas compõem 20% dos pilotos que concorrem nas temporadas americana e europeia da categoria Top Fuel.

A More Than Equal afirma que a Top Fuel é "a categoria automobilística com maior igualdade de gênero do mundo". E também é a forma mais extrema do esporte. Seu nome vem do poderoso combustível nitrometano que alimenta seus carros.

As corridas têm lugar em uma pista reta, com apenas 305 metros de comprimento. Normalmente, dois carros competem entre si.

A intensa força G atinge os carros no primeiro segundo da prova, quando eles saem de 0 para 160 km/h. E um segundo soco no estômago ocorre quando a embreagem finalmente é engatada, mais ou menos no meio do trajeto.

A aparência pode ser assustadora e o surto de adrenalina é "extremamente viciante", segundo a piloto sueca Susanne Callin, de 43 anos, em entrevista à BBC.

Ela conta que a preocupação com os riscos "sempre está presente", mas "a segurança realmente funciona".

Os pilotos contam com forte proteção e as precauções de segurança, hoje, são muito maiores. Acidentes fatais ocorridos em carros movidos a nitrometano em 2004 e 2008 levaram à redução do comprimento da prova.

Susanne Callin sorri e segura um troféu após vencer o Campeonato Europeu de Top Fuel em 2025 em Tierp, na Suécia. Ela tem os cabelos presos e veste uma camiseta preta com detalhes amarelos.
Legenda da foto, Susanne Callin conta que nunca se sentiu menosprezada como mulher automobilista

Até mesmo assistir das arquibancadas já é uma experiência poderosa. As vibrações dos motores agitam o corpo e fazem o chão tremer.

Os espectadores são orientados a usar protetores auriculares. Afinal, o ruído é comparável a ficar ao lado de um jato de combate durante a decolagem.

A velocidade oficial mais alta já atingida em uma corrida de Top Fuel é de mais de 558 km/h, muito maior do que os mais de 372 km/h de um Grande Prêmio de Fórmula 1.

Os freios, sozinhos, não conseguem reduzir suficientemente a velocidade dos carros. Por isso, são abertos paraquedas na parte traseira dos veículos, após a linha de chegada.

A abrupta interrupção é "como se alguém chutasse você no peito", descreve Callin. "Você perde a respiração."

Os pilotos da Top Fuel precisam reagir com a velocidade de um raio e ter resistência física para suportar as intensas forças envolvidas. E técnicas precisas de direção são fundamentais, pois ajustes minúsculos são constantemente necessários para manter o carro na pista.

"É preciso ter reações instantâneas a tudo", explica Callin. "No momento em que você pensa sobre aquilo, já é tarde demais... Você e o carro precisam ser um só."

E os pilotos precisam de muita coragem. Ao mesmo tempo amiga e adversária de Callin, a piloto suíça Jndia Erbacher, de 32 anos, brinca ao dizer à BBC que é preciso ter "bolas".

Susanne Callin correndo no seu carro amarelo da Top Fuel em Santa Pod, perto de Northampton (Reino Unido), em 2025, com chamas de cor laranja saindo da parte de trás do carro enquanto ele acelera ao longo da pista
Legenda da foto, Os carros da Top Fuel saem de zero a 160 km/h em menos de um segundo

Callin garantiu seu segundo título europeu consecutivo da Top Fuel em setembro, na pista Santa Pod, perto de Northampton, no Reino Unido. Este é o quarto campeonato seguido vencido por mulheres.

No outro lado do Atlântico, a recordista Brittany Force conquistou o campeonato norte-americano, promovido pela National Hot Rod Association (NHRA), em 2017 e 2022.

As corridas de arrancada são "altamente incomuns" no automobilismo, segundo Fran Longstaff, chefe de inovação da More Than Equal, que apoia e defende a participação das mulheres no automobilismo.

Ter mulheres competindo e vencendo no esporte passou a ser "normal, sem ser tratado como algo excepcional", segundo ela, o que inclui o "repetido sucesso" na Top Fuel.

Pesquisas realizadas por Longstaff e outros estudiosos tentam descobrir por que as corridas de arrancada abrem o caminho para a igualdade no automobilismo, mas não foram identificados fatores físicos, nem biológicos, segundo ela.

Longstaff indica um "fluxo contínuo de mulheres visíveis que servem de modelos", além da "estrutura de base acessível, programas para jovens, boxes abertos e cultura colaborativa, orientada à família", oferecida pela modalidade.

A pioneira das corridas de arrancada, Shirley Muldowney, na corrida Winternationals da National Hot Rod Association (NHRA) americana no autódromo de Pomona (Califórnia), em 1970, vestindo uma jaqueta vermelha e sorrindo em frente ao seu carro
Legenda da foto, Shirley Muldowney foi a primeira mulher a vencer o campeonato de Top Fuel da NHRA americana

Nas corridas de arrancada, segundo Callin, as mulheres começaram a vencer provas importantes "décadas e décadas atrás".

A mais conhecida é Shirley Muldowney, considerada a "primeira dama" das corridas de arrancada. Ela foi a primeira mulher a obter a licença para a Top Fuel.

Muldowney venceu o campeonato da NHRA em 1977 e se tornou a primeira piloto a conquistar três títulos, após suas novas vitórias em 1980 e 1982.

Ela precisou batalhar para poder participar de competições de alto nível e chegou a enfrentar hostilidade de adversários e torcedores. Mas, agora, ela é elogiada pela sua perseverança.

A BBC encontrou Callin nos intervalos entre as corridas em Santa Pod, rodeada pelo ronco dos motores e pelo cheiro da borracha queimada. Enquanto a equipe preparava seu carro, ela assinou autógrafos para os fãs, jovens e idosos, homens e mulheres.

"Nunca me senti subestimada, nem mal tratada por ser mulher", conta Callin. "Nunca."

A declaração traz um forte contraste em relação à experiência das mulheres que tentam entrar na Fórmula 1. As jovens pilotos contam terem sido empurradas deliberadamente para fora das pistas de kart por adversários homens e enfrentado comentários sexistas, pessoalmente ou na internet.

As pesquisas da More Than Equal destacam a cultura colaborativa, familiar e com laços próximos das corridas de arrancada.

Como muitas pilotos de arrancada de elite, Callin vem de uma família de automobilistas. Ela se envolveu no esporte ainda criança, seguindo os passos do seu pai e do tio, ambos pilotos de corrida profissionais.

Da mesma forma, o pai de Erbacher, Urs, foi tricampeão europeu de Top Fuel. E Brittany Force é filha de John Force, 16 vezes campeão de arrancada da NHRA.

As mulheres pilotos também demonstraram que é possível ter sucesso na Top Fuel depois de terem filhos.

Callin fez um intervalo de mais de uma década para criar sua filha e suas enteadas. Ela retornou com 35 anos e foi ali que sua carreira realmente começou a florescer.

Já a piloto finlandesa Anita Mäkelä conquistou o campeonato europeu quatro vezes. E três dos títulos vieram após um intervalo de seis anos para que ela se dedicasse aos filhos e à granja da família.

Para Callin, as corridas fazem parte da sua vida familiar.

Seu pai faz parte da equipe até hoje. Seu marido, Keith Bartlett, administra o autódromo Santa Pod. Às vezes, ele é chamado de "padrinho" das corridas de arrancada no Reino Unido.

Duas das suas filhas participaram de corridas de arrancada júnior, a mais de 120 km/h, até atingirem a idade de testes. A mais jovem, Jacqueline, tem agora 19 anos e participa de classes para adultos.

A cultura colaborativa se mantém mesmo com a competição acirrada, como ficou evidente no campeonato do ano passado, quando Erbacher ofereceu peças de reposição a Callin, após o seu carro ficar danificado.

"Nós nos odiamos na linha de partida, mas nos amamos na linha de chegada", resume Erbacher.

Jndia Erbacher, em entrevista na pista Santa Pod perto de Northampton, no Reino Unido, vestida de preto, com cabelos loiros e sorrindo
Legenda da foto, Jndia Erbacher brinca que, para competir na Top Fuel, é preciso ter 'bolas'

Em relação à segurança, Callin e Erbacher contam que têm "respeito" pelo carro e pelos riscos.

Ao longo dos anos, procedimentos e regulamentações rigorosas foram sendo aprimoradas para aumentar a segurança.

Os pilotos usam trajes à prova de fogo e seus cockpits são altamente protegidos. Mesmo depois de acidentes dramáticos, eles escapam relativamente ilesos em muitos casos.

Callin, por exemplo, passou por dois acidentes graves. Ela sofreu uma concussão e quebrou a clavícula, mas não sofreu lesões permanentes.

A piloto conta que os acidentes sérios são um "percentual muito pequeno". Ainda assim, ela não sabe ao certo se ficaria confortável se sua filha desejasse competir na Top Fuel, devido às velocidades radicais da modalidade.

Erbacher conta que seu pai, inicialmente, se recusou a permitir que ela corresse. Mas ele cedeu quando ela afirmou que competiria com ou sem a sua ajuda. Agora, ele administra sua equipe.

A More Than Equal destaca que as barreiras financeiras para participar das corridas de arrancada são menores que para outras categorias do automobilismo.

Para chegar à Fórmula 1, são necessários milhões de dólares, o que exige altos níveis de patrocínio. As corridas de arrancada de elite também são caras, mas não na mesma escala.

Nos níveis inferiores, existem eventos acessíveis, conhecidos como "dias de pista". Neles, os participantes podem comparecer e dirigir seus próprios carros comuns.

A piloto de arrancada indiana e profissional de TI Uvashri Kannadasan Balajeyanthi, de óculos e camisa azul, sorrindo, em frente a um carro branco dentro de uma garagem
Legenda da foto, A piloto indiana Uvashri Kannadasan Balajeyanthi competiu pela primeira vez em um Skoda Octavia modificado

Os Estados Unidos, a Europa e a Austrália já viram mulheres campeãs de corridas de arrancada. Mas, em outras partes do mundo, o esporte é menos desenvolvido, a Top Fuel é uma modalidade incomum e o panorama é mais variado.

Mulheres individuais estão quebrando barreiras em diversas modalidades automobilísticas. E, em alguns países, elas estão buscando espaço na corrida de arrancada.

No Brasil, as corridas de arrancada são populares e as mulheres começam a causar impacto, como Fabíola Dal Bo, recordista da categoria DT-A Light.

Uma equipe sul-africana promove corridas de arrancada somente de mulheres e, no Oriente Médio, o popular reality show da TV The Fastest in Arabic ("O mais rápido em árabe", em tradução livre) aumentou a visibilidade das mulheres pilotos da região.

A piloto brasileira Fabíola Dal Bo, de óculos escuros, boné e macacão de corrida. com um carro ao fundo
Legenda da foto, A brasileira Fabíola Dal Bo quebrou o recorde da categoria DT-A Light

Na Índia, a piloto Uvashri Kannadasan Balajeyanthi, de 35 anos, venceu várias vezes seus adversários homens na principal competição de arrancada do país, a Valley Run. Ela colecionou vitórias em três categorias diferentes, entre 2022 e 2024.

Conhecida como Menina do Octy, como referência ao carro Skoda Octavia modificado que ela dirigia quando começou, Balajeyanthi conta à BBC seus "sentimentos contraditórios" quando vê suas conquistas serem recebidas com surpresa.

"Por que eles precisam ficar chocados?", questiona ela. "Qualquer pessoa pode dirigir, certo?

Mas "às vezes, fico orgulhosa... Estou quebrando as barreiras de um esporte dominado pelos homens", destaca ela.

De volta à Europa, Callin conta que ser mulher na corrida de arrancada é "super normal". Ela descreve seu bicampeonato europeu como uma "imensa conquista".

E ela já tem em vista seu próximo objetivo: passar a ser a primeira pessoa, entre homens e mulheres, a conquistar o título três anos seguidos.

Gráfico com a expressão Mulheres Globais, em inglês, em branco sobre fundo roxo, com arcos roxo-azulados concêntricos à direita

Esta reportagem faz parte da série Mulheres Globais, do Serviço Mundial da BBC, que conta histórias importantes e inéditas de mulheres de todo o mundo.