Experiências que recriam naufrágio do Titanic atraem multidões: é certo faturar em cima da tragédia?

Visitantes comparecem à exposição imersiva "A Lenda do Titanic" em 8 de maio de 2025 em Munique, Alemanha

Crédito, Bojan Ritan/Getty Images

Legenda da foto, A atração foi criada para fazer com que o público se sinta a bordo do transatlântico condenado
    • Author, Adam Bloodworth
    • Role, BBC Culture
  • Tempo de leitura: 9 min

Os grandes salões internos do Titanic vão, aos poucos, sendo tomados pela água. Vídeos projetados no piso, no teto e nas paredes de um galpão no sul de Londres mostram móveis e estruturas desaparecendo sob as ondas.

Essa é uma das atrações centrais de The Legend of the Titanic: The Immersive Exhibition (A Lenda do Titanic: A Exposição Imersiva, em tradução livre), criada para fazer com que o público se sinta a bordo do transatlântico que naufragou em 1912.

A exposição busca fazer essa imersão com projeções de vídeo e trechos de realidade virtual (VR, na sigla em inglês). Os visitantes usam óculos especiais.

Na loja da exibição, há apitos para chamar atenção e cartões-postais do navio afundando cercado por icebergs.

Casais formam fila para posar diante de um fundo verde e recriar a famosa cena protagonizada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no filme Titanic (1997), dirigido por James Cameron, na proa da embarcação.

Outros jogam videogames de "desvie do iceberg", em que é preciso conduzir o navio entre obstáculos de gelo, ou tomam prosecco no bar.

São de fato envolventes os recursos de realidade virtual, que permitem caminhar pelo convés sob o sol, percorrer os interiores luxuosos do navio e até descer em um submersível até os destroços.

Já a parte da experiência em que o visitante fica cercado por projeções em 360 graus do navio se enchendo de água parece de mau gosto e mais "voyeurística" do que educativa ou emocional.

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A exposição é bem avaliada no site TripAdvisor, com nota 4,2, e visitantes elogiam a tecnologia de realidade virtual, os painéis informativos e as narrativas apresentadas.

Julie Akhtar, de Virginia Water, no condado de Surrey (Reino Unido), afirmou ter se sentido transportada "desde o momento em que atravessamos as portas" e disse que o uso de VR a fez "se sentir parte" da vida a bordo do navio.

Sua única crítica foi o preço dos ingressos (£32 por adulto, cerca de R$ 237) e a sensação de que "tirar uma foto posando como Kate Winslet e Leonardo DiCaprio pareceu um pouco comercial".

Sarah Mattock, de Brighton (Reino Unido), também ficou impressionada.

"Eu já sabia que seria um pouco brega, mas sempre fui intrigada pelo Titanic desde jovem."

Essa é uma de pelo menos três experiências imersivas sobre o Titanic em cartaz no Reino Unido no momento.

Em Titanic: Echoes from the Past (Titanic: Ecos do Passado, em tradução livre), outra atração do gênero localizada no bairro de Camden, no norte de Londres, o público presencia o momento em que o navio colide com o iceberg.

Diferentemente de The Legend of the Titanic, trata-se de uma experiência apenas com realidade virtual.

Com meus óculos posicionados, fico frente a frente com membros da tripulação.

Mais adiante, caminho em direção à proa, até que a experiência me leva àquela noite fatídica.

A música orquestral cresce à medida que o navio se aproxima lentamente do iceberg, até que o impacto arremessa trabalhadores ao chão.

A tripulação repete "vamos lá, vamos conseguir". Em seguida, ouve-se o gelo raspando ao longo do casco.

A ascensão das experiências imersivas

Visitantes comparecem à exposição imersiva "A Lenda do Titanic" em 8 de maio de 2025 em Munique, Alemanha

Crédito, Bojan Ritan/Getty Images

Legenda da foto, The Legend of the Titanic: exposição combina projeções de vídeo e realidade virtual

A história do Titanic é apenas um dos muitos episódios históricos que hoje podem ser revisitados em formato imersivo.

Outra atração em cartaz na capital britânica aborda uma das erupções vulcânicas mais destrutivas da história.

A experiência The Last Days of Pompeii (Os Últimos Dias de Pompeia, em tradução livre), exibida no leste de Londres, recria a aniquilação da cidade romana pela atividade do Monte Vesúvio em 79 d.C.

Uma projeção de oito metros de altura mostra a cidade em chamas, fazendo com que o público se sinta cercado por cinzas e brasas queimando.

Com o recurso da realidade virtual, visitantes fazem um passeio de biga (tipo de veículo puxado por cavalos) por uma arena repleta de espectadores; em outro momento, circulam pela casa de uma família na noite do desastre.

Também fui convidado a ficar em pé e olhar para uma câmera instalada no teto para posar para uma foto, disponível para compra, na qual minha imagem aparecia sobreposta a um fundo de lava derretida — dando a impressão de que eu emergia do topo do monte Vesúvio.

Essas novas experiências imersivas estão bombando.

O mercado global do entretenimento imersivo foi estimado em mais de US$ 114 bilhões (aproximadamente R$ 631,71 bilhões) em 2025.

Projeções indicam que o valor pode chegar a US$ 412 bilhões (cerca de R$ 2,28 trilhões) até 2030.

No Reino Unido, as buscas pelo termo "experiência imersiva" na plataforma de eventos Eventbrite cresceram 83% no último ano, segundo um porta-voz ouvido pela BBC.

Formas tradicionais e "passivas" de mídia e de performances estão "estagnadas ou em declínio", enquanto "experiências centradas no engajamento e na interatividade dos participantes continuam a crescer", diz o relatório "Evolving Immersive: The 2025 Immersive Entertainment & Culture Industry Report", publicado pelos institutos Gensler Research Institute e pelo Immersive Experience Institute.

Experiências imersivas sobre o Titanic estão em cartaz também em São Paulo, Los Angeles, Cincinnati, Hamburgo, Singapura, Copenhague e muitas outras cidades ao redor do mundo.

O navio com destino trágico se consolidou como um dos temas mais populares desse tipo de atração.

Alguns fatores explicam esse fascínio.

O enorme transatlântico era considerado inafundável, e o fato de sua viagem fatídica ter vitimado algumas das pessoas mais ricas do planeta, justamente aquelas que raramente enfrentam dificuldades, chama atenção por si só.

"É uma das tragédias mais emblemáticas, um símbolo da fragilidade da humanidade diante do imenso poder da natureza", afirmou Tim Maltin, historiador e pesquisador do Titanic.

"Uma das frases citadas [em Echoes from the Past] é 'todos nós somos passageiros do Titanic', e isso é verdade em certa medida. A história fala da própria condição humana."

Não falta público interessado em embarcar nessa viagem.

Desde a inauguração, em fevereiro, mais de 45.000 pessoas colocaram os óculos de realidade virtual para vivenciar Echoes from the Past, segundo os organizadores, em informações repassadas à BBC.

Ainda assim, há quem critique esse tipo de experiência imersiva centrada em desastres, alegando que ela explora tragédias históricas reais ao transformá-las em entretenimento.

Críticas desse tipo não são novidade. No passado, elas já foram dirigidas a produções que vão do próprio filme Titanic a videogames como a série Call of Duty, que permite aos jogadores participar de conflitos históricos.

O caráter profundamente imersivo dessas novas experiências, no entanto, pode intensificar o debate sobre a adequação desse tipo de atração.

Visitantes comparecem à exposição imersiva "A Lenda do Titanic" em 8 de maio de 2025 em Munique, Alemanha

Crédito, Bojan Ritan/Getty Images

Legenda da foto, A história do Titanic é apenas um dos muitos episódios históricos que hoje podem ser revisitados em formato imersivo

As questões em torno da recriação de eventos históricos

Em sua resenha de duas estrelas da exposição The Legend of the Titanic, Anna Moloney, do jornal londrino City AM, fez críticas à ética da atração.

Em entrevista à BBC, ela afirmou que a exibição se coloca no "território entre a educação e o entretenimento".

"Mas, de jogos de 'desvie do iceberg' a sessões de fotos sorridentes diante da câmera, fica claro qual dos dois é priorizado. Nenhuma exposição sobre uma tragédia deveria ser divertida; passar por uma pedra solene que exibe os nomes de todos os que perderam a vida na tragédia para, em seguida, ser conduzido a uma loja que vende apitos de emergência como lembrança beira o grotesco", avalia Moloney.

Os criadores de The Legend of the Titanic não estavam disponíveis para falar com a BBC.

Karl Blake Garcia, diretor do espaço de Titanic: Echoes from the Past, reconhece que há questões sérias na forma de contar histórias sobre tragédias reais.

"Não estou aqui para desqualificar nenhuma outra experiência", afirmou, "mas consigo identificar qualidade quando a vejo… Echoes from the Past não é sobre truques ou sobre sensacionalizar uma tragédia. De vez em quando, algum visitante pergunta: 'Ah, eu queria ver o navio afundar', mas achamos [essa ideia] um pouco de mau gosto. É possível vivenciar o impacto do iceberg, mas não vamos mostrar o navio afundando e centenas de pessoas perdendo a vida. Simplesmente não é isso que queremos fazer."

O acadêmico Adam Heardman, autor do artigo "Against Immersion" ("Contra a Imersão", em tradução livre), publicado na revista Art Monthly, mostra-se cético quanto ao valor das experiências imersivas em geral.

Em entrevista à BBC, ele afirmou que a ascensão desse tipo de atração representa "um desenvolvimento sinistro na paisagem cultural urbana".

Para Heardman, essas exibições estão mais ligadas a uma lógica de "geração de dinheiro agressiva" do que à oferta de uma experiência cultural valiosa.

Sobre as experiências relacionadas ao Titanic, em particular, ele diz que "não é difícil entender por que transformar a morte trágica de mais de mil pessoas no mar em uma atração turística de grande apelo pode ser um pouco exploratório".

Exposição imersiva "A Lenda do Titanic" em 8 de maio de 2025 em Munique, Alemanha

Crédito, Bojan Ritan/Getty Images

Legenda da foto, O mercado global do entretenimento imersivo foi estimado em mais de US$ 114 bilhões (aproximadamente R$ 631,71 bilhões) em 2025

Mas nem todos os críticos concordam com essa avaliação.

Andrzej Lukowski, editor de teatro da revista Time Out, afirma que a exposição The Legend of the Titanic é bem-sucedida por ser "simplesmente grande, barulhenta e tecnológica, e tratar de um tema que fascina as pessoas há um século".

E existe o argumento de que as pessoas sempre foram atraídas, de forma sombria, por tragédias.

No livro Morbidly Curious (Curiosidade Mórbida, em tradução livre), o psicólogo Coltan Scrivner sustenta que a tecnologia apenas criou novas maneiras de satisfazer esse fascínio.

"Podemos criar simulações imersivas e envolventes de desastres que atraiam milhões de pessoas", disse à BBC.

"Isso não significa que hoje as pessoas estejam mais interessadas no macabro; apenas que esse interesse se tornou mais acessível. Minhas pesquisas indicam que a curiosidade mórbida é um traço perfeitamente normal, comum e variável entre as pessoas, como qualquer outro traço de personalidade."

Sob essa perspectiva, ele considera que experiências imersivas sobre desastres "não são antiéticas".

Outra questão, completamente distinta, é a da precisão.

Informações exibidas em painéis da exposição The Legend of the Titanic apresentam diversos erros de digitação e de espaçamento, além de "fatos" questionáveis — como um texto que afirma que "para os passageiros mais jovens e também para os solteiros, a principal diversão a bordo do Titanic, e de todos os transatlânticos, era flertar".

Pessoas nas redes sociais também têm apontado imprecisões.

O material promocional de The Legend of the Titanic mostra o navio colidindo com o iceberg pelo lado de bombordo, em uma noite nublada e com o mar relativamente agitado.

"Chamem-me de pedante", escreveu um usuário no Facebook, "mas o Titanic raspou o iceberg pelo lado de estibordo, não pelo bombordo, como retratado na arte de vocês. Ah, sim, e estava escuro, com o céu limpo".

Representantes da exposição não responderam ao pedido de comentário da BBC Culture sobre essas questões de precisão.

Richard Parry, diretor-executivo da Experience UK, entidade setorial encarregada de impulsionar a chamada "economia da experiência" no país, afirma não ter conhecimento de iniciativas para estabelecer diretrizes éticas para exposições imersivas históricas, como aquelas que existem para museus — seja em relação à qualidade, seja à adequação do conteúdo.

Para ele, o próprio mercado acabará por "se autorregular" quanto ao que é ou não uma fonte apropriada de material.

Em meio aos questionamentos sobre o valor dessas experiências, uma coisa parece certa: elas devem se tornar cada vez mais presentes no cenário cultural.

Como resume Parry, "não há limite para o que pode ser reproduzido se houver demanda".