'Adolescência': o estudo britânico que alerta sobre 'meninos em crise' e vulneráveis à radicalização online

Legenda do vídeo, 'Adolescência': 'Meninos estão desesperados por sentido e modelos de comportamento'
'Adolescência': o estudo britânico que alerta sobre 'meninos em crise' e vulneráveis à radicalização online

Um relatório sobre a juventude britânica aponta que meninos e adolescentes estão em crise, perdidos e isolados. Muitos deles não têm modelos positivos de masculinidade e se deixam influenciar por discursos misóginos e violentos na internet.

Estas conclusões são também o ponto central da série da Netflix Adolescência, que conta a história de um menino de 13 anos acusado de matar uma colega de escola. A família de Jamie é estável e afetuosa, e ele vai bem na escola. O que deu errado então?

A série tem gerado um debate em vários países sobre a vida online de adolescentes e o risco de eles se radicalizarem sem que os pais, professores ou a polícia percebam – e sem que adultos sequer entendam como eles se comunicam.

Embora Adolescência seja fictícia, Stephen Graham, ator e cocriador da série, se inspirou em casos reais de meninas assassinadas por colegas adolescentes na Inglaterra.

"Fiquei congelado pelo pensamento: 'em que tipo de sociedade vivemos hoje, em que isso está se tornando uma ocorrência comum?'", disse Graham ao programa BBC Breakfast.

O estudo do think-tank Centro para Justiça Social no Reino Unido faz um diagnóstico preocupante dessa crise. Em um relatório recém-publicado, o centroz que toda uma geração de meninos pode sentir que está ficando para trás, sem clareza sobre quais valores seguir e sem conseguir acompanhar os avanços sociais conquistados pelas mulheres.

Na visão dos pesquisadores, "meninos estão desesperados por sentido, direção e por modelos de comportamento".

De um lado, eles são os maiores perpetradores e também as principais vítimas da violência no mundo real. Isso é muito evidente no Brasil: de 15,1 mil crianças e adolescentes brasileiros mortos de forma violenta entre 2021 e 2023, 90% são do sexo masculino.

Enquanto isso, eles passam cada vez mais tempo no mundo virtual, muitas vezes expostos a abusos e outros riscos.

No Brasil, 60% das crianças entre 9 e 10 anos que usam internet têm perfil em pelo menos uma rede social, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024. Vale lembrar que, em teoria, as plataformas sequer poderiam aceitar menores de 13 anos.

Além disso, 3 em cada 10 crianças e adolescentes brasileiros disseram já ter sofrido algum tipo de ofensa ou discriminação na internet, também segundo a pesquisa TIC.

Pornografia e violência online

Uma preocupação adicional tem a ver com o acesso precoce à pornografia - algo que, segundo especialistas, distorce percepções dos adolescentes sobre sexualidade, relacionamentos e consentimento.

No Reino Unido, em média, as crianças veem pornografia online pela primeira vez aos 13 anos de idade. Algumas, mais cedo ainda, aos 9 anos. Existem indícios de que essa seja uma tendência global.

Outro alerta do estudo do Centro para Justiça Social no Reino Unido é que as redes sociais oferecem cada vez mais conteúdo violento para jovens, inclusive a promoção de violência contra mulheres.

Um dos movimentos abordados na série Adolescência é o incel, abreviação em inglês de celibatários involuntários. São homens que culpam as mulheres pela suposta incapacidade deles em ter relacionamentos românticos ou sexuais.

Embora esse tipo de comportamento exista há décadas, foi com as redes sociais que o mundo dos incels ganhou força e se espalhou globalmente. E já provocou atos violentos no mundo real – como um jovem inglês que divulgava ideias incels e que foi acusado de matar cinco pessoas em 2021.

Especialistas também se preocupam com o impacto de influenciadores famosos.

O caso mais proeminente é o do britânico Andrew Tate, que é acusado de estupro, tráfico humano e de formar um grupo criminoso para explorar mulheres na Romênia. Ao mesmo tempo, ele tem milhões de seguidores nas redes sociais e se autodescreve como misógino e sexista.

No Reino Unido, a discussão desse conjunto de problemas já chegou ao Parlamento. O premiê Keir Starmer disse ter assistido à série Adolescência e ter ficado preocupado com "a violência provocada por jovens influenciados pelo que eles veem online".

Mas especialistas no mundo inteiro dizem que governos e agências reguladoras têm sido lentos.

Uma voz influente nesse debate é o psicólogo americano Jonathan Haidt, autor do livro "A Geração Ansiosa". Haidt que defende que governos e pais imponham regras mais rígidas em torno do uso de dispositivos eletrônicos por adolescentes e crianças. O psicólogo propõe que adolescentes só ganhem smartphones quando estiverem no ensino médio e tenham acesso a redes sociais a partir dos 16 anos.

A ideia, segundo Haidt, é retardar o impacto das redes sociais na infância e abrir espaço pra mais interações interpessoais e brincadeiras na vida real.

Debates sobre masculinidade tóxica

Nas escolas, além do veto a telefones celulares, a masculinidade tóxica também começa a ser discutida.

No Reino Unido, um projeto chamado Masculinidade tem realizado workshops com alunos das séries equivalentes aos ensinos fundamental 2 e médio, discutindo temas como modelos de comportamento masculinos, bullying no ambiente virtual e até se meninos veem uns aos outros chorando.

"É sempre animador, do meu ponto de vista, ver que eles demonstram, sim, emoções. O problema é que eles sentem que precisam escondê-las", diz à BBC Paul Clark, do Projeto Masculinidade.

"Uma das coisas que ficaram comigo é o caso de um garoto que admitiu ter chorado, mas sem ninguém ver. Eu perguntei onde ele havia chorado, se tinha sido diante de professores, da enfermeira da escola, dos pais, e ele respondeu: 'de jeito nenhum'. Ele disse que chorava no banheiro, porque a água escondia. É tão triste que meninos tenham que se esforçar tanto para esconder suas emoções, apenas para se encaixar nesse estereótipo de o que significa ser um homem de verdade. Até que a gente rompa esse estigma, isso vai continuar a acontecer, de garotos não demonstrarem emoções e não receberem a ajuda de que necessitam", prossegue Clark.

Ele afirma que, na "terra sem lei" que são os ambientes virtuais, meninos e adolescentes já são bombardeados por conteúdos violentos e misóginos.

"Não conseguimos impedir que eles recebam isso. Só o que podemos fazer é prepará-los para que, quando eles receberem esse conteúdo, saibam como lidar."