Como orcas do Atlântico estão 'aprendendo' a atacar barcos

Crédito, DAVID ELLIFRIT/CWR
- Author, Por Victoria Gill e Kate Stephens
- Role, Equipe Científica da BBC News
O estranho e perigoso comportamento de avançar sobre e colidir com pequenos barcos à vela e de pesca está se espalhando por uma população de orcas na costa da Espanha.
Os cientistas dizem que pelo menos 20 orcas-ibéricas (uma subpopulação de orcas que vive no nordeste do Atlântico) já aprenderam a fazer o mesmo imitando animais mais velhos.
Acredita-se que uma ou duas orcas começaram a interagir com e danificar pequenos veleiros em 2020.
Os cientistas disseram à BBC que os animais pareciam mais estar "brincando" com os barcos do que agindo de forma agressiva.
"É apenas uma brincadeira. Não é vingança [contra barcos], não é mudança climática, é apenas uma brincadeira e ponto", disse Renaud de Stephanis, um cientista na costa sul da Espanha.
De Stephanis é presidente da Conservation, Information and Research on Cetaceans (Circe), uma organização voltada para conservação marinha.
Ele disse que as orcas, também conhecidas como baleias assassinas (apesar de não serem baleias), pareciam estar fazendo um "jogo" focado nos lemes dos barcos.
De Stephanis e seus colegas colocaram etiquetas de rastreamento por satélite nas barbatanas de dois dos menos de 60 animais dessa população, que está criticamente ameaçada de extinção.
O governo espanhol está mapeando seus movimentos para ajudar a informar velejadores sobre como evitar esses mamíferos marinhos, que caçam atum ao longo da costa de Portugal e Espanha e pelo estreito de Gibraltar.
Brincadeiras no mar
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O velejador francês Lou Lombardi teve um encontro com as orcas perto de Gibraltar em julho.
Ele e o resto da tripulação acompanharam com atenção os movimentos de cinco dos animais que passaram a cutucar e empurrar seu barco por 80 minutos - golpeando o leme até que ele se partisse.
Conversando conosco no estaleiro em Barbate, na Espanha, enquanto ele e seus colegas se preparavam para colocar o barco consertado de volta na água, ele disse que o encontro teve mais um clima de brincadeira do que de agressão.
"As orcas empurravam o leme", explicou ele, "como se fosse um brinquedo".
"Tive a sensação de que elas estavam treinando umas às outras", ele disse.
"Havia duas pequenas, e a adulto fazia a ação e depois observava enquanto o filhote fazia - como se estivessem ensinando."
As orcas são conhecidas por serem mamíferos altamente sociais. Outras subespécies foram registradas brincando com algas marinhas flutuantes e com equipamentos de pesca, e uma população no Pacífico até passou por uma aparente fase de carregar salmões mortos em suas cabeças.
Usar lemes de barco como brinquedos é um comportamento novo e atualmente está confinado a esta pequena população ibérica ameaçada de extinção, mas os animais jovens parecem estar copiando orcas adultas.
Ao examinar filmagens e imagens, capturadas por velejadores, os cientistas identificaram alguns dos animais envolvidos.

Monica Gonzalez, bióloga marinha da organização Orca Ibérica, que está registrando e mapeando os encontros com orcas relatados por embarcações à vela, contou que "os adultos são muito direcionados - e estão focados no leme - apenas no leme.”
“Mas os jovens parecem se aproximar, se afastar, explorar todo o barco – é um tipo de comportamento muito diferente”, afirma.
'Nós somos os intrusos'
Estes grandes, inteligentes e agora problemáticos mamíferos marinhos estão causando confusão - e divisão - tanto na comunidade náutica quanto na comunidade científica ao longo deste trecho da costa atlântica.

Crédito, GTOA
Alguns cientistas sugeriram que uma orca fêmea começou a "atacar" barcos como vingança, porque ela havia sido ferida por uma embarcação.
Nas mídias socias, em discussões de grupos de velejadores houve quem sugerisse medidas para defender os barcos, como o uso de fogos de artifício para assustar as orcas que se aproximarem demais.
De Stephanis, que estuda os mamíferos marinhos desde 1996, espera que seu trabalho de rastreamento ajude a mostrar aos velejadores as regiões mais frequentados pelas orcas - para serem evitados.
"Elas tendem a ficar no mesmo lugar por 2 a 3 horas, porque estão procurando atum", explicou. "Portanto, a recomendação oficial do governo espanhol é não parar se você vir orcas - afaste-se da área o mais rápido possível."
Isso, no entanto, está em contradição direta com a recomendação do ano passado e as recomendações atuais do governo português de parar o barco no caso de as orcas se aproximarem.
A ideia por trás disso, explicou Monica Gonzalez, era de ser o menos interessante possível para as orcas. "Mantenha o leme parado, não jogue nada, não grite", disse ela. A ideia é que as orcas ficam entediadas e sigam em frente.
Luke Rendell, especialista em mamíferos marinhos da Universidade de St Andrews, na Escócia, teme o risco de que "os velejadores resolvam o problema com suas próprias mãos".

"Em última análise, se queremos que o comportamento pare, temos que tirar os barcos desse ambiente", diz ele. "Esse é um passo radical para nós como espécie - dizer que vamos restringir nosso comportamento pelo bem de outro."
Rendell acredita que, no futuro, pode haver razões econômicas, e não científicas, para que alguns barcos evitem as águas nas quais a maioria desses encontros acontece.
"As companhias de seguros podem estar olhando para isso", disse ele. "Podem exigir um custo extra para navegar nessas águas, o que pode reduzir a densidade de embarcações lá. Esse pode ser o resultado mais favorável para as orcas."
Enquanto isso, enquanto os velejadores e a indústria pesqueira tentam descobrir como evitar os animais, turistas na costa da Espanha, Portugal e Gibraltar pagam para fazer viagens de observação de baleias e orcas para vê-las.
Nuria Riera, uma artista que vive em Tarifa, na costa sul da Espanha, e que é voluntária na organização de conservação e observação de baleias Firmm, diz que a linguagem usada para descrever o comportamento das orcas é simplesmente injusta.
"Os cientistas nem sabem por que estão fazendo isso", disse ela. "E, no entanto, estou lendo relatórios sobre ataques de orcas - é uma linguagem tão agressiva.
"Temos que lembrar que o mar é a casa deles - nós somos os intrusos", disse ela.















