Operação no Rio: perita analisa imagens de câmeras de policiais

Legenda do vídeo, Governo do Rio de Janeiro divulgou imagens de drone e das câmeras corporais de dois policiais
Operação no Rio: perita analisa imagens de câmeras de policiais

A megaoperação da polícia do Rio de Janeiro, realizada na última semana (28/10) nos complexos do Alemão e da Penha, tinha como objetivo conter a expansão da facção do Comando Vermelho.

A ação terminou com 113 pessoas presas e outras 121 mortas, entre elas quatro policiais. O alto número de mortes fez dessa operação a mais letal já registrada no Brasil.

Grupos de direitos humanos classificaram o episódio como uma chacina. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também disse que "houve matança" e quer uma investigação paralela sobre o que aconteceu.

O governo fluminense afirma que a operação foi um sucesso e que, de vítimas, há "apenas os policiais".

Segundo o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), o número de mortes foi uma consequência do uso "desproporcional da força" feito pelos traficantes.

"Não era intenção de ninguém [as mortes], queríamos ter prendido todos com vida, mas foi uma consequência da retaliação que eles acabaram fazendo", afirmou.

Nos últimos dias, o governo divulgou dois vídeos pelo ponto de vista de dois policiais, gravados por câmeras corporais, além de imagens registradas por drones.

Os vídeos têm ao todo pouco mais de uma hora de duração e mostram o socorro a policiais feridos em tiroteio e a e movimentação de suspeitos de integrar o Comando Vermelho.

Para a perita e analista forense Flávia Palladino, as gravações não esclarecem dúvidas sobre as mortes de 117 suspeitos pela polícia.

"A gente precisa entender o que tipo de narrativa que está sendo construída e por quê. Quem que está sendo excluído dessa narrativa? Que histórias não estão sendo contadas quando a gente só mostra isso, né?", declarou.

Palladino usa técnicas de análise forense para investigar violações de direitos humanos em ações policiais. Ela trabalha no Projeto Mirante, da Universidade Federal Fluminense em parceria com as defensorias públicas do Rio e de São Paulo.

Ela questiona a divulgação de imagens de apenas duas câmeras, em uma operação que contou com mais de 2 mil policiais.

"Teve essa seleção de material onde os policiais foram baleados, essa situação de prestação de socorro, mas a gente não tem nada além disso para entender a dinâmica da operação, a cronologia da operação".

Imagem de câmera corporal de um policial mostra dois policiais no meio da mata

Crédito, Divulgação/Governo do Rio de Janeiro

Legenda da foto, Imagens de câmeras corporais de dois policiais foram divulgadas pelo governo do Rio de Janeiro

"Eu defendo transparência no envio e no uso do material e do jeito e da forma que o material está sendo tratado e editado. A partir daí as pessoas podem fazer, tomar suas decisões de forma mais informada."

Nas imagens por drone há apenas um vídeo com metadados disponíveis.

"Os metadados são as informações da imagem no momento em que ela foi feita. Eles fornecem o horário em que aquela imagem foi feita, a data em que aquela imagem foi feita, aonde aquela imagem foi feita. Então, isso é fundamental para a gente entender se as imagens são relacionadas ao incidente em questão."

Ao divulgar as gravações, o governo do Rio de Janeiro disse que elas mostram "o heroísmo dos policiais e a organização e o poder de fogo dos criminosos".

Procurado pela BBC News Brasil para comentar a análise da perita, o governo não se manifestou.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o secretário estadual de Segurança Pública, Victor Santos, disse que tudo que foi filmado está à disposição do Ministério Público do Rio.

Já o secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes, disse que a bateria das câmeras policiais dura entre 10 e 12 horas e que algumas podem ter ficado em energia em algum momento da operação, que, segundo ele, durou cerca de 15 horas.

Assista ao vídeo em que Palladino analisa as imagens das câmeras dos policiais divulgadas pelo governo.