A história de Maduro, da escolha por Chávez para dar continuidade a seu legado à captura em operação militar dos EUA

Ilustração de Nicolás Maduro.

Crédito, Daniel Arce/BBC

    • Author, Daniel García Marco, Ángel Bermúdez e José Carlos Cueto
    • Role, BBC News Mundo
  • Tempo de leitura: 11 min

Em 2013, Nicolás Maduro substituiu um dos políticos latino-americanos mais carismáticos dos últimos tempos, Hugo Chávez, como presidente da Venezuela, e sobreviveu por mais de uma década à frente de um país instável.

Ele resistiu à pior crise humanitária e econômica da história recente da Venezuela, ao êxodo de milhões de cidadãos e às repetidas pressões da oposição, de organismos internacionais e de outros países para que cedesse o poder diante das denúncias de autoritarismo e erosão democrática.

Não resistiu, no entanto, a uma operação militar relâmpago neste sábado, 03/01, na qual as forças americanas o capturaram junto com sua esposa, Cilia Flores.

Sua prisão e transferência para os EUA ocorrem meses depois que o governo de Donald Trump aumentou a presença militar no Caribe e alertou sobre um ataque contra o governo de Maduro, que acusa de ligação com o narcotráfico.

"Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram acusados no Distrito Sul de Nova York. Nicolás Maduro foi acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos", anunciou na rede social X a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi.

"Em breve, eles enfrentarão todo o peso da justiça americana em solo americano e nos tribunais americanos", acrescentou.

Assim terminam quase 13 anos de Maduro no poder, marcados por sua astúcia para superar vários momentos em que parecia estar em xeque.

Depois de Hugo Chávez e de Juan Vicente Gómez, que morreu em 1935, ninguém, exceto Maduro, ficou mais tempo no poder na Venezuela.

Uma história turbulenta que começou em 8 de dezembro de 2012.

O escolhido

Naquele dia, o mundo viu Chávez pela última vez, que viajava de Caracas a Havana para tratar um câncer.

Após meses de incerteza e ausências, Chávez escolheu seu sucessor na televisão.

"Se algo acontecesse que me incapacitasse de alguma forma, Nicolás Maduro não só deveria concluir o mandato, conforme determina a Constituição, mas minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que, nesse cenário, que obrigaria a convocar eleições presidenciais, vocês elegessem Nicolás Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela".

O então vice-presidente Maduro, sentado à sua esquerda, mostrava uma expressão entre o medo e a preocupação. Chávez o escolhia. E o fazia porque o líder não seria mais presidente. Em março de 2013, foi Maduro quem anunciou a morte do comandante.

Nicolás Maduro e Hugo Chávez durante uma coletiva de imprensa conjunta em Paris

Crédito, Antoine Gyori/AGP/Corbis via Getty Images

Legenda da foto, Para surpresa de muitos, Maduro foi escolhido sucessor por Chávez pouco antes da morte do comandante.

Chávez elogiou Maduro, que o conheceu quando estava na prisão de Yare, onde cumpriu dois anos de pena após o golpe de Estado fracassado de 4 de fevereiro de 1992.

Em suas visitas à prisão, o atual presidente também se encontrou com Cilia Flores, que atuava como uma das advogadas do comandante e acabou se tornando sua esposa e uma figura silenciosa a quem muitos atribuíram grande influência no governo.

Sobre Maduro, Chávez elogiou seu "dom de lidar com as pessoas" e o chamou de "um revolucionário genuíno, com grande experiência apesar de sua juventude".

Então, aos 49 anos, Maduro era um homem de confiança que já havia sido presidente do Parlamento, chanceler e vice-presidente.

Alguns ficaram surpresos com a nomeação de Maduro como sucessor, à frente do militar Diosdado Cabello, atual ministro do Interior, e do poderoso ex-presidente da estatal PDVSA, Rafael Ramírez.

Nicolás Maduro, fotografado em janeiro de 2013.

Crédito, RAUL ARBOLEDA/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Aos poucos, Maduro foi se distanciando da gestão de Chávez, com mudanças na administração que desgastaram o projeto político.
Pule Whatsapp! e continue lendo
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

Não foi uma surpresa para aqueles que viram a ascensão progressiva de Maduro e suas constantes viagens a Havana para se reunir com Chávez, que se encontrava com a saúde debilitada.

Chávez viu nele o civil que deveria dar continuidade à revolução bolivariana. Um homem pragmático, não radical; com capacidade de negociação e de atuar tanto em um comício político na rua, vestindo roupas informais, quanto nos gabinetes, de terno e gravata.

Em 2018, quando foi declarado vencedor das eleições que renovaram seu primeiro mandato, um ex-funcionário do governo alertou a BBC Mundo que Maduro tendia a ser subestimado porque não tinha estudado nem tinha uma trajetória intelectual.

"Tende-se a pensar que ele é um bruto", disse essa fonte sob condição de anonimato. Seus rivais da oposição o chamavam de "Maburro".

O desprezo tornou-se uma arma a favor que o presidente utilizou praticamente durante todo o seu governo, mesmo quando Trump o advertia repetidamente sobre a proximidade do seu fim e Maduro aparecia dançando em público e respondendo ao americano, jocosamente, que "guerra, não; paz, sim".

O presidente diante da crise

Maduro anunciou a morte de Chávez em 5 de março de 2013. Ele liderou o funeral e os dias de luto. E, logo depois, embarcou na campanha para as eleições de abril, nas quais venceu Henrique Capriles por uma margem estreita.

Muitos alegaram fraude, mas Maduro assumiu o cargo em Miraflores.

Sua tarefa não era apenas tentar substituir o carisma e a devoção a Chávez, mas também enfrentar um panorama econômico muito diferente, que o próprio comandante já havia percebido.

Durante o governo Chávez, foram elaboradas propostas macroeconômicas em um momento em que os preços do petróleo começavam a desacelerar.

Com a morte do comandante, a tarefa de implementar reformas, como a do sistema cambial, acabou ficando nas mãos de Maduro.

Mas o ex-chanceler, com uma liderança muito mais fraca do que seu antecessor e no centro de várias correntes políticas, não foi o reformista que prometeu ser.

Em 2014, os preços do petróleo despencaram e desencadearam a terrível crise que até hoje assola os venezuelanos.

Pessoas conversam com membros do Serviço Nacional de Fronteiras do Panamá enquanto tentam cruzar a fronteira entre o Panamá e a Costa Rica.

Crédito, PAUL MONTENEGRO/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Estima-se que quase 8 milhões de venezuelanos tenham fugido do país desde o início da crise em 2014.

Analistas criticaram então a inércia do governo em um momento crítico.

Durante seu mandato, Maduro deixou importantes tarefas administrativas a cargo de altos comandantes do Exército, aos quais confiou a importação de alimentos e produtos básicos e até mesmo a direção da petrolífera PDVSA, a fonte mais robusta de receitas do país.

A influência dos militares não evitou, no entanto, certo descontentamento nos quartéis, conspirações, rumores de revolta e detenções.

Desde então, Maduro parecia viver permanentemente por um fio.

A primeira sobrevivência

Em 2015, a oposição obteve uma ampla maioria nas eleições para a Assembleia Nacional (AN) pela primeira vez desde a chegada de Chávez ao poder em 1999.

Com 107 cadeiras obtidas pela oposição da Mesa da Unidade Democrática contra as 55 do partido governista PSUV, a oposição estava habilitada a aprovar leis e nomear membros de outros poderes públicos, como magistrados do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), membros do Conselho Nacional Eleitoral ou altos funcionários, como o Procurador-Geral da República, sem precisar contar com os votos do partido governista.

Esse revés eleitoral não pegou Maduro e o governo de surpresa.

Nas semanas festivas de dezembro, antes da instalação da nova Assembleia Nacional em janeiro de 2016, Maduro nomeou novos magistrados do TSJ, instituição alinhada ao governo, a partir da qual seria bloqueada a possibilidade de a Assembleia Nacional exercer suas competências constitucionais.

Entre outras medidas, o tribunal suspendeu a posse de três deputados indígenas — com os quais a oposição alcançava sua maioria qualificada — e, em seguida, declarou a Assembleia Nacional em desacato, invalidando assim todas as suas decisões.

Figuras emblemáticas do chavismo, como a então procuradora-geral Luisa Ortega Díaz, romperam com o governo, enquanto o ex-secretário-geral da OEA, Luis Almagro, falou em "autogolpe".

Governos de diferentes países da região, como Peru, Colômbia, Uruguai, Brasil, Argentina e Chile, questionaram duramente o que ocorreu.

Em outubro de 2016, o TSJ já havia emitido 27 decisões que bloqueavam o trabalho do Legislativo.

Naquele ano, ao completar metade do mandato de Maduro, surgiu a possibilidade constitucional de convocar um referendo revogatório para destituí-lo do poder, mas esses esforços da oposição foram bloqueados pelos tribunais, que também impediram as tentativas da Assembleia Nacional de submeter o presidente a um processo de impeachment.

Em março de 2017, a oposição denunciou um "golpe de Estado" e a "ruptura definitiva" da ordem constitucional depois que o TSJ decidiu que basicamente assumia os poderes da AN, enquanto esta permanecesse em "desacato".

Nicolás Maduro em um discurso contra Trump em meio à crise política e social de 2017.

Crédito, Carlos Becerra/Anadolu Agency/Getty Images

Legenda da foto, Trump já tentou forçar a saída de Maduro do poder durante seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021.

Embora o tribunal tenha "corrigido" a sentença em 72 horas, o mal-estar provocou uma onda de protestos que se estendeu por quatro meses, deixando cerca de 120 mortos.

O governo respondeu com repressão, mas também com suas próprias manifestações.

No entanto, sua arma mais eficaz para neutralizar a oposição seria a convocação de eleições regionais — diante das quais a oposição se dividiu — e uma Assembleia Nacional Constituinte com poderes plenos, que lhe deu o controle de um órgão legislativo que, em teoria, estava acima dos poderes constituídos.

As eleições foram marcadas por denúncias de fraude, incluindo as alegações da empresa de software eleitoral Smartmatic, que afirmou que os números da eleição para a Constituinte haviam sido manipulados.

A repressão, o cansaço causado pelos protestos e a constatação de que o governo permanecia inabalável ajudaram Maduro a sair desse período conturbado.

O ano terminou com o início de uma mesa de diálogo entre o governo e a oposição na República Dominicana, que terminaria sem acordo em fevereiro de 2018.

Maduro contra Guaidó

Em janeiro de 2019, Maduro tomou posse para um segundo mandato após vencer as eleições presidenciais de maio de 2018, realizadas sem a participação da maior parte da oposição e consideradas fraudulentas pelos EUA, pela União Europeia e por mais de uma dezena de países latino-americanos.

A posse de Maduro desencadeou um processo sem precedentes: partindo do princípio de que as eleições não eram válidas e que Maduro não era um presidente legítimo, a oposição argumentou que havia uma vacância absoluta na presidência, pelo que decidiu aplicar o artigo 233 da Constituição.

O dispositivo indica que, nesses casos, o presidente da Assembleia Nacional assumirá a presidência interina e convocará eleições em um prazo de 30 dias.

Em 23 de janeiro, o opositor Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, declarou-se "presidente interino" da Venezuela, estabelecendo como objetivos "o fim da usurpação, um governo de transição e eleições livres".

Guaidó recebeu o reconhecimento do governo Trump nos EUA e, em seguida, de dezenas de países da Europa e da América Latina.

Juan Guaidó durante uma coletiva de imprensa na Flórida em 2023

Crédito, Eva Marie Uzcategui/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, A entrada em cena de Guaidó representou mais um obstáculo que Maduro conseguiu superar em sua tentativa de manter o poder na Venezuela

O reconhecimento do governo interino veio acompanhado de uma pressão que buscava forçar uma mudança na Venezuela. Trump impôs sanções à indústria petrolífera venezuelana, principal fonte de receita do Estado.

A produção petrolífera venezuelana caiu drasticamente, ficando abaixo dos 500.000 barris diários, enquanto o governo de Maduro perdeu o controle de ativos milionários que a Venezuela tinha no exterior, como a petrolífera Citgo nos EUA ou 30 toneladas de ouro que o país tem depositadas no Banco da Inglaterra.

Na madrugada de 30 de abril de 2019, acompanhado por um grupo de militares venezuelanos e pelo líder opositor Leopoldo López, que acabara de ser libertado de sua prisão domiciliar por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin), Guaidó transmitiu uma mensagem dos arredores da Base Aérea de La Carlota, em Caracas, na qual convocava os cidadãos a saírem às ruas.

Por alguns instantes, houve a impressão de que algo poderia acontecer, mas depois ficou claro que os esforços para conseguir uma ruptura no apoio militar ao governo de Maduro fracassaram.

Incapaz de forçar essa ruptura e sujeito à ameaça de detenção, o governo temporário de Guaidó foi lentamente enfraquecendo.

Contagem regressiva

Desde 28 de julho de 2024, vários acontecimentos marcaram uma espécie de contagem regressiva para Maduro no poder.

Embora o presidente tenha sido declarado vencedor das eleições presidenciais pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano, sob controle do governo, essas eleições foram consideradas um marco pela oposição.

María Corina Machado

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Nobel da Paz concedido a María Corina Machado deveria servir, segundo pesquisadora Roxanna Vigil, como um apelo para que a comunidade internacional se empenhe em apoiar uma transição democrática na Venezuela.

Ao contrário do CNE, que se recusou a apresentar resultados detalhados e auditáveis, a oposição divulgou mais de 80% das atas que mostravam como claro vencedor o seu candidato, Edmundo González Urrutia.

Isso levou a um consenso majoritário entre as democracias ocidentais de que a reeleição de Maduro era fraudulenta e que González era o presidente legítimo.

Milhares de venezuelanos, inclusive de bairros tradicionalmente chavistas, saíram às ruas para protestar. O governo reprimiu e prendeu mais de 2.000 pessoas, segundo dados oficiais.

Ameaçado, González Urrutia exilou-se na Espanha, enquanto a líder da oposição, María Corina Machado teve que viver mais de um ano na clandestinidade, da qual só saiu em dezembro de 2025 para receber o Prêmio Nobel da Paz em Oslo.

Pressão militar

Com o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, as regras do jogo mudaram.

Com uma estratégia de mano dura (mão de ferro) para combater o narcotráfico na América Latina, o governo Trump acusou Maduro de ter ligações com o narcotráfico e liderar o Cartel dos Sóis, uma suposta organização designada como terrorista pelos EUA e que teria sua base nas Forças Armadas da Venezuela.

Durante meses, os EUA mobilizaram o que Trump chamou de "a maior armada já reunida na história da América do Sul" ao redor da Venezuela.

A mobilização inclui o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald S. Ford, navios de guerra, um submarino nuclear, caças F-35 e uma força de cerca de 15.000 soldados.

Um incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, é visto à distância após uma série de explosões em Caracas, em 3 de janeiro de 2026

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Um incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, é observado à distância após uma série de explosões em Caracas, em 3 de janeiro de 2026.

Desde setembro, essas forças têm atacado embarcações supostamente carregadas de drogas, matando pelo menos 110 pessoas.

Os ataques estão sob intenso escrutínio por parte do Congresso dos EUA e têm sido duramente criticados por defensores dos direitos humanos, que os classificaram como "execuções extrajudiciais".

Dias antes da captura de Maduro, Roxanna Vigil, pesquisadora especializada em Segurança Nacional do Conselho de Relações Exteriores, alertou a BBC Mundo que a presença militar dos Estados Unidos no Caribe reduzia significativamente as opções de Maduro para negociar um acordo para resolver essa crise.

O governo de Maduro mobilizou as forças militares venezuelanas e ordenou o envio de armas e meios táticos, ao mesmo tempo em que desenvolveu uma ampla campanha diplomática, entrando em contato com governos aliados, como os da Rússia e da Turquia, e solicitando a intervenção do Conselho de Segurança da ONU.

Havia analistas que suspeitavam que, por trás da campanha de Trump contra o narcotráfico na América Latina, estava uma estratégia para uma mudança de regime na Venezuela.

Maduro não continuará no poder. O motorista de ônibus escolhido por Chávez para dar continuidade ao seu legado será julgado em Nova York após uma operação militar dos EUA que lembra a que possibilitou a captura do presidente Manuel Antonio Noriega no Panamá, em janeiro de 1990.