2026 começa: o que é o tempo e o quanto é verdadeira a crença de que só existe o presente?

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- Author, Max Seitz
- Role, BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 6 min
2026 já tomou o lugar de 2025 — mais uma mudança de calendário que nos lembra da implacável passagem do tempo.
Mas você já parou para pensar no que é o tempo, além do que nos dizem relógios e calendários?
Reflita um pouco. Em nossa experiência como seres humanos, percebemos o tempo como uma sequência de eventos.
Ou seja: um futuro que se torna presente e um presente que se transforma em passado.
Sentimos que o presente é tudo o que existe, mas ele é efêmero, desaparecendo a cada segundo que passa.
Consideramos o passado como algo que deixou de existir e está se afastando de nós rumo ao esquecimento, embora parte dele permaneça em nossas memórias.
E acreditamos que o futuro é algo potencial que ainda não aconteceu e promete caminhos alternativos.
Mas o que há de verdade em tudo isso? O tempo é algo real ou uma mera ilusão? Ou uma mistura dos dois?
Prepare-se, porque o que a física clássica e a atual dizem sobre isso pode causar perplexidade, já que colocam em questão algumas das crenças mais difundidas sobre o tempo.
Tempos distintos?

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Chamkaur Ghag, renomado astrofísico da University College London (UCL), afirma que os físicos ainda não chegaram a um acordo sobre o que é o tempo.
"Mas há consenso em aceitar o que a teoria da relatividade de Albert Einstein afirma. Ela apresenta um universo onde espaço e tempo são inseparáveis e se influenciam mutuamente, e onde os fenômenos são percebidos de forma diferente, dependendo do estado de movimento do observador", explica Ghag à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).
O tempo é relativo, explica Ghag: se dilata à medida que um corpo se move mais rápido em relação a outros.
Assim, quanto mais próximo um objeto (ou um indivíduo) chega da velocidade da luz, mais perceptível se torna a desaceleração do tempo.
Segundo Einstein, o tempo também passa mais lentamente quando um corpo experimenta uma força gravitacional maior.
No filme Interestelar (2014), de Christopher Nolan, há uma cena que ilustra isso bem: o protagonista desce a um planeta sujeito a uma gravidade intensa devido à sua proximidade com um buraco negro.
Quando ele retorna à nave principal depois do que lhe parece pouco mais de uma hora, encontra um tripulante para quem se passaram 23 anos.
A dilatação do tempo foi verificada experimentalmente nas últimas décadas usando relógios atômicos ultraprecisos e modernos aceleradores de partículas.
Isso foi corroborado pela detecção de ondas gravitacionais geradas por distorções no espaço-tempo.
São vários os triunfos para as ideias de Einstein.

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"Outro princípio aceito pelos físicos é que o tempo avança e nunca retrocede", diz Ghag.
No entanto, uma nova — e controversa — corrente na física, conhecida como teoria pós-quântica da gravidade clássica, adiciona ainda mais complexidade à noção de tempo, imbuindo-a de um grau de aleatoriedade.
De acordo com essa teoria, a passagem do tempo pode oscilar aleatoriamente em certas partes do universo, explica Jonathan Oppenheim, pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Quântica da UCL e defensor dessa teoria revolucionária.
"Essas flutuações ocorrem devido à interação entre o mundo quântico, que tem um comportamento estranho e imprevisível, e a estrutura do espaço-tempo, que é governada por regras previsíveis", esclarece Oppenheim à BBC News Mundo.
Isso explicaria curiosidades do nosso cosmos, como que uma partícula possa estar em dois lugares ao mesmo tempo ou estar conectada a outra partícula a milhões de anos-luz de distância.
Uma ilusão?

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Mas será que o tempo é mais do que tempo relativo com um toque de acaso?
No livro Uma Breve História do Tempo, o renomado físico britânico Stephen Hawking mencionou a existência do "tempo psicológico".
Segundo Chamkaur Ghag, do University College London, isso se refere à forma como nosso cérebro processa a relatividade temporal.
"Por alguma razão que a neurociência ainda não explicou, uma parte da nossa psique interpreta o fluxo do tempo em termos de passado, presente e futuro."
"Estamos presos a um cérebro limitado que entende algo tão complexo quanto o tempo dessa maneira... O que podemos fazer? Este é um campo de estudo fascinante com muito mais a explorar", afirma o físico.
A questão, então, passa a ser: como funcionam no universo as categorias que conhecemos como passado, presente e futuro?
Um lugar para o passado
Uma das noções mais intrigantes é a de que, em teoria, nosso passado continua a existir em algum lugar do universo.
"Como espaço e tempo são inseparáveis e interagem, cada evento em nossas vidas ocorre em um espaço-tempo diferente, mesmo que aconteça no que acreditamos ser o mesmo lugar", explica Ghag.
"É como se nossa existência fosse uma sucessão de instantâneos."
Para ajudar você a entender, caro leitor, pense, por exemplo, no que você está fazendo agora: lendo este texto, talvez no seu celular.
Mas o seu "eu" atual não ocupa mais o mesmo espaço-tempo que ocupava um segundo atrás. Aquele que você deixou para trás continua a existir em outro plano, mesmo que você não possa vê-lo.
E assim acontece a cada segundo que passa.
Ghag explica que, se soubéssemos as coordenadas exatas dos eventos do nosso passado e fosse possível viajar até esses pontos — algo altamente improvável —, poderíamos encontrar nossos "eus" do passado.
Fascinante, não é? Ou aterrorizante?

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Em relação ao presente, a física atual sustenta que o que chamamos de "agora" é o conjunto de eventos que, em nossa percepção humana, ocorrem simultaneamente em um dado instante.
No entanto, como o tempo pode dilatar, passar em ritmos distintos para diferentes observadores e até mesmo apresentar oscilações aleatórias, também é possível que o presente seja uma "duração" em vez de um momento.
Isso o tornaria um tanto menos fugaz do que pensamos.
Futuro certo ou incerto?
E quanto ao futuro, agora que um novo ano está começando? Vale a pena fazer uma lista de resoluções para os próximos 12 meses se considerarmos que o futuro depende da nossa liberdade de escolha?
Ou o futuro é predeterminado, o que invalidaria o livre-arbítrio — mas, ao mesmo tempo, facilitaria a previsão do que está por vir?
É aqui que os físicos se sentem mais desorientados quando se fala sobre o tempo.
"Alguns dizem que podemos influenciar o futuro escolhendo entre diferentes caminhos", diz Ghag.
"Mas suponha que o livre-arbítrio também estivesse sujeito à relatividade. Teoricamente, se você conhecesse todas as trajetórias possíveis das mentes e dos fenômenos, poderia prever o futuro."
Claro, isso criaria um paradoxo, como explica o físico da UCL: "O conhecimento do que vai acontecer acaba alterando o que vai acontecer."
"A verdade é que a física ainda não tem uma resposta clara sobre o que é o futuro", admite Ghag.
Entretanto, o cientista destaca que a esperança e o desejo de mudança nos seres humanos continuam a ser alimentados pela ideia de que o amanhã pode ser moldado — inclusive o ano que acabou de começar.












