As vozes na cabine do piloto que alimentam controvérsia sobre o acidente da Air India

Crédito, Getty Images
- Author, Soutik Biswas
- Role, Correspondente da BBC News na Índia
- Tempo de leitura: 6 min
Quando o relatório preliminar sobre o acidente do voo 171 da Air India — que matou 260 pessoas em junho — foi divulgado, muitos esperavam que ele apresentasse algum tipo de conclusão.
Em vez disso, o documento de 15 páginas alimentou uma série de especulações. Pois, apesar do tom comedido do relatório, um detalhe continua a assombrar os investigadores, os analistas do setor de aviação e o público em geral.
Segundos após a decolagem, ambos os interruptores de controle de combustível do Boeing 787 mudaram abruptamente para a posição "cut-off" (desligar), cortando o fornecimento de combustível para os motores, e causando perda total de potência — uma ação que normalmente só é realizada após o pouso.
A gravação de voz da cabine de comando capta um piloto perguntando ao outro por que ele "desligou" o combustível, ao que a pessoa responde que não fez isso. A gravação não esclarece quem disse o quê. No momento da decolagem, o copiloto estava pilotando a aeronave, enquanto o capitão estava supervisionando.
Os interruptores voltaram à sua posição normal durante o voo, acionando a reativação automática do motor. No momento do acidente, um motor estava recuperando propulsão, enquanto o outro havia sido religado, mas ainda não havia recuperado a potência. O avião ficou no ar por menos de um minuto antes de cair em um bairro na cidade de Ahmedabad, no oeste da Índia.
Várias teorias especulativas surgiram desde a divulgação do relatório preliminar — a expectativa é de que um relatório completo seja apresentado em cerca de um ano.
O Wall Street Journal e a agência de notícias Reuters informaram que "novos detalhes na investigação do acidente da Air India no mês passado estão mudando o foco para o piloto mais experiente na cabine de comando".
O jornal italiano Corriere della Sera publicou que suas fontes afirmaram que o copiloto perguntou repetidamente ao capitão por que ele "desligou os motores"
Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.
Clique para se inscrever
Fim do Whatsapp!
Sumeet Sabharwal, de 56 anos, era o capitão do voo, enquanto Clive Kunder, de 32, era o copiloto que estava no comando do avião. Juntos, os dois pilotos tinham mais de 19 mil horas de experiência de voo — quase metade delas no Boeing 787. Ambos haviam passado em todos os exames médicos pré-voo antes do acidente.
É compreensível que a onda de vazamentos especulativos tenha incomodado os investigadores e irritado pilotos indianos.
Na semana passada, a Agência de Investigação de Acidentes Aéreos da Índia (AAIB, na sigla em inglês), o principal investigador, declarou em comunicado que "certos setores da mídia internacional estão tentando repetidamente tirar conclusões por meio de reportagens seletivas e não verificadas". E descreveu essas "ações [como] irresponsáveis, especialmente enquanto a investigação continua em andamento".
Jennifer Homendy, presidente do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA (NTSB, na sigla em inglês), que está auxiliando na investigação, disse no X (antigo Twitter) que as reportagens da imprensa eram "prematuras e especulativas", e que "investigações dessa magnitude levam tempo".
Na Índia, a Associação de Pilotos Comerciais do país condenou a pressa em culpar a tripulação, classificando como "imprudente" e "profundamente insensível", e pedindo moderação até a publicação do relatório final.
Sam Thomas, chefe da Associação de Pilotos de Linhas Aéreas da Índia (ALPA Índia), disse à BBC que "a especulação triunfou sobre a transparência", enfatizando a necessidade de analisar o histórico de manutenção e a documentação da aeronave junto aos dados da caixa-preta.
No centro da controvérsia, está o breve trecho da gravação de voz da cabine de comando que consta no relatório — a transcrição completa, esperada no relatório final, deve esclarecer melhor o que realmente aconteceu.

Um investigador de acidentes aéreos do Canadá, que preferiu não se identificar, disse que o trecho da conversa no relatório apresenta várias possibilidades.
Por exemplo, "se o piloto 'B' foi quem operou os interruptores — e fez isso de forma involuntária ou inconsciente — é compreensível que mais tarde ele negue ter feito isso", disse o investigador.
"Mas se o piloto 'A' operou os interruptores deliberadamente e com intenção, ele pode ter feito a pergunta sabendo muito bem que o gravador de voz da cabine seria analisado, e com o objetivo de desviar a atenção e evitar ser identificado como o responsável."
"Mesmo que a AAIB consiga determinar quem disse o quê, isso não responde decisivamente à pergunta 'Quem desligou o combustível?'."
"Talvez nunca saibamos a resposta a essa pergunta."
Os investigadores disseram à BBC que, embora pareça haver fortes evidências de que os interruptores de combustível foram desligados manualmente, ainda é importante manter "a mente aberta".
Uma falha no Controle Digital do Motor (FADEC, na sigla em inglês) do avião — que monitora a saúde e o desempenho do motor — poderia, em teoria, acionar um desligamento automático se receber sinais falsos dos sensores, sugerem alguns pilotos.
No entanto, se a pergunta do piloto — "por que você desligou [o combustível]? — ocorreu depois que os interruptores passaram para a posição "cut-off" (conforme observado no relatório preliminar), isso enfraqueceria essa teoria. O relatório final provavelmente vai incluir o diálogo com registro de data e hora, e uma análise detalhada dos dados do motor para esclarecer isso.
A especulação tem sido alimentada menos por quem disse o quê, e mais pelo que não foi dito.
O relatório preliminar não incluiu a transcrição completa do gravador de voz da cabine de comando (CVR, na sigla em inglês), divulgando apenas uma única fala reveladora dos momentos finais.
Essa revelação seletiva levantou questões: será que a equipe de investigação estava confiante quanto à identidade dos locutores, mas optou por ocultar o restante por uma questão de sensibilidade? Ou eles ainda não tinham certeza de quem eram as vozes que estavam ouvindo, e precisavam de mais tempo para investigar completamente a questão antes de publicar qualquer conclusão?
Peter Goelz, ex-diretor administrativo do NTSB, diz que a AAIB deveria divulgar uma transcrição do gravador de voz com as vozes dos pilotos identificadas.
"Se alguma falha ocorreu durante a decolagem, ela seria registrada no gravador de dados de voo (FDR, na sigla em inglês) e provavelmente teria disparado alertas no sistema de gerenciamento de voo — alertas que a tripulação quase certamente teria notado e, mais importante, discutido."
Os investigadores estão pedindo cautela ao tirar conclusões.
"Temos que ser cautelosos porque é fácil presumir que, se os interruptores foram desligados, isso deve significar uma ação intencional — erro do piloto, suicídio ou algo do tipo. E esse é um caminho perigoso a ser seguido com as informações limitadas que temos", disse à BBC Shawn Pruchnicki, ex-investigador de acidentes aéreos e especialista em aviação da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA.
Ao mesmo tempo, teorias alternativas continuam a circular.
Jornais indianos, incluindo o Indian Express, apontaram um possível incêndio elétrico na cauda como um dos principais focos. Mas o relatório preliminar deixa claro: os motores foram desligados porque ambos os interruptores de combustível foram movidos para a posição "cut-off" — um fato respaldado pelos dados do gravador. Se houve um incêndio na cauda, ele provavelmente ocorreu após o impacto, provocado por combustível derramado ou baterias danificadas, disse um investigador independente.
Na semana passada, o chefe da AAIB, GVG Yugandhar, destacou que o relatório preliminar tem como objetivo "fornecer informações sobre 'O QUE' aconteceu".
"É muito cedo para conclusões definitivas", ele afirmou, enfatizando que a investigação está em andamento e que o relatório final vai identificar "as principais causas e recomendações". Ele também se comprometeu a compartilhar atualizações sobre "questões técnicas ou de interesse público" à medida que surgirem.
Em suma, Pruchnicki disse que a investigação "se resume a duas possibilidades — ação deliberada ou confusão, ou um problema relacionado à automação".
"O relatório não se apressa em culpar o erro ou a intenção humana; não há provas de que isso tenha sido feito intencionalmente", acrescentou.
Em outras palavras, não há evidências conclusivas — apenas uma espera incômoda por respostas que talvez nunca venham à tona completamente.















