Acordo UE-Mercosul, Trump e Venezuela: os recados da entrevista de Lula

Crédito, Getty Images
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Tempo de leitura: 6 min
Em entrevista a jornalistas nesta quinta-feira (18/12), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abordou diversos temas, desde a tensão entre a Venezuela e os Estados Unidos à proposta do fim da escala de trabalho no modelo 6x1.
O presidente também falou sobre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, cuja assinatura estava prevista para o sábado (20/12).
Segundo o site de notícias americano Politico, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, comunicou nesta quinta a líderes europeus que o acordo não seria mais assinado neste sábado, e sim em janeiro.
A informação foi dada ao Politico por dois diplomatas em condição de anonimato.
A expectativa do governo brasileiro era de que o acordo fosse finalmente assinado, após 25 anos de negociações, durante a Cúpula de chefes de Estado do Mercosul, em Foz do Iguaçu.
Uma fonte afirmou à BBC News Brasil que Von der Leyen e António Costa, presidente do Conselho Europeu, já desmobilizaram suas viagens a Foz do Iguaçu, com cancelamento de reservas.
Mais cedo, falando a jornalistas, Lula havia afirmado que a Itália pediu mais tempo para que o assunto seja votado.
"A novidade, para mim, foi a Itália. Eu liguei hoje para primeira-ministra [Georgia] Meloni. Conversei com ela e disse a ela que a data de 20 de dezembro não foi uma data proposta por nós. O 20 de dezembro foi a data proposta pela Ursula Von der Leyen e o António Costa, que disseram que no dia 19 eles votariam em Bruxelas", disse Lula.
Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.
Clique para se inscrever
Fim do Whatsapp!
Na terça, o Parlamento Europeu aprovou as salvaguardas que haviam sido propostas pela França para proteger produtos agrícolas europeus às vésperas da data prevista para a assinatura do acordo comercial.
"Minha surpresa foi de que a Itália estava, também, junto com a França, não querendo assinar o acordo (...) e na conversa com a primeira-ministra Meloni ela ponderou para mim que ela não é contra o acordo. Ela apenas está vivendo um certo embaraço político por conta dos agricultores italianos, mas que ela tem certeza de que eles são capazes de contornar", afirmou Lula.
A aprovação das salvaguardas era aguardada pelo governo brasileiro, que preside temporariamente o Mercosul neste semestre, e é interpretada como um sinal favorável à assinatura do acordo nesta semana.
"Da parte do Mercosul está tudo resolvido. O Mercosul está 100% disposto a fazer o acordo. Mesmo não ganhando tudo o que a gente queria ganhar. O acordo é mais favorável à União Europeia do que a nós", afirmou Lula.
Confira outros assuntos abordados pelo presidente na entrevista coletiva.
Venezuela
A escalada da tensão entre Estados Unidos e Venezuela — com várias ameaças de um ataque militar direto feitas pelo presidente americano, Donald Trump — traz ao governo do Brasil os temores de uma crise humanitária na fronteira e de caos no país vizinho.
"A Venezuela está completamente cercada pela maior armada jamais reunida na história da América do Sul. E ela vai apenas ficar maior e o choque sobre eles [Venezuela] será como algo que eles nunca viram antes", disse Trump em uma postagem terça-feira (16/12).
Lula afirmou nesta quinta que conversou com Maduro, mas não revelou o que o presidente venezuelano lhe disse.
"Com relação à Venezuela, eu tive uma conversa com o Maduro para saber o que o governo Maduro estava pensando. Ele me colocou as coisas que foram colocadas [por Trump] e peço permissão para não dizer (...) eu disse que já tinha informação de que ele já tinha falado e disse que era possível negociar sem guerra"
O presidente brasileiro também afirmou que, após a conversa com Maduro, conversou com Trump.
"Disse para o Trump sobre a preocupação do Brasil com a Venezuela, porque isso aqui é zona de paz e não é zona de guerra."
Lula também afirmou que se colocou à disposição, tanto para Trump, quanto para Maduro.
"O Brasil tem muita responsabilidade aqui na América do Sul. Estou pensando em, antes de chegar o Natal, conversar com o presidente Trump outra vez para saber o que é possível o Brasil contribuir para que a gente tenha um acordo diplomático e não uma guerra fratricida".
Desde setembro, militares americanos mataram pelo menos 90 pessoas em ataques a barcos que, segundo eles, transportariam fentanil e outras drogas ilegais para os EUA.
Nos últimos meses, os EUA também deslocaram navios de guerra para a região.
Como parte da campanha de pressão, foram mobilizados 15 mil soldados e uma série de porta-aviões, destróieres lança-mísseis guiados e navios de assalto anfíbios para o Caribe.
INSS
O presidente Lula falava com jornalistas nesta quinta-feira enquanto uma nova operação da Polícia Federal (PF) prendia o secretário-executivo do Ministério da Previdência, Adroaldo da Cunha Portal, número dois da pasta.
A prisão ocorreu no âmbito da operação "Sem Desconto", conduzida pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU) e que investiga o esquema de descontos irregulares aplicados a benefícios do INSS.
Lula se pronunciou sobre seu filho Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, e sobre possíveis ligações com o "Careca do INSS", um dos principais alvos de investigação da PF.
Uma testemunha acusa Lulinha de receber "mesada" do empresário.
"Se tiver filho meu [envolvido], ele será investigado", disse Lula a jornalistas.
O presidente assegurou que a decisão de investigar o INSS "foi do governo".
Em abril, uma investigação conjunta da Controladoria-Geral da União (CGU) e da PF revelou uma fraude bilionária no INSS, que roubou centenas de milhares de aposentados por meio de descontos não autorizados em seus benefícios.
Segundo a polícia, sindicatos e associações de aposentados conseguiam, por meio de convênios com o INSS, descontar mensalidades de aposentados e pensionistas sem autorização.
Estima-se que o esquema tenha movimentado R$ 6,3 bilhões em descontos, entre valores legais e ilegais, no período de 2019 a 2024.
Preso em setembro, Antunes é apontado pelas investigações como facilitador do esquema que desviou recursos de aposentados e pensionistas.
"A decisão de apurar esse fato foi do governo. Demorou porque a gente não queria fazer pirotecnia. A CGU levou praticamente dois anos investigando. Seria muito fácil fazer denúncia e a operação e fomos nós que tomamos a decisão de comunicar à sociedade brasileira o desfeito", afirmou Lula nesta quinta.
Eleições
O presidente se mostrou, mais uma vez, otimista em relação à sua reeleição.
"Não tenho nenhuma capacidade de julgar adversário. Se o adversário acha que pode ganhar, se lance candidato e vamos para a disputa", disse. "Não me cabe julgar o filho do Bolsonaro, neto de Bolsonaro, mulher de Bolsonaro. Saiam quantos quiserem. O dado concreto é que nós vamos ganhar as eleições".
Na quarta-feira, uma pesquisa realizada pela Quaest apontou que Lula lidera em todos os cenários de primeiro e segundo turno testados.
Escala 6x1
Lula também afirmou que o Brasil "está pronto para o fim da escala 6x1".
"Não existe um único argumento que possa dizer que a sociedade brasileira não está pronta. Porque se nos anos 1980 a gente já queria reduzir a jornada de trabalho, e já faz 45 anos, temos que medir os avanços tecnológicos desses 45 anos", afirmou o presidente.
Na semana passada, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou uma proposta de emenda constitucional (PEC) sobre o fim da escala de seis dias de trabalho por um dia de descanso e a redução da jornada de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas semanais.
Para virar lei, o texto ainda precisa passar por diversas etapas: aprovação no plenário do Senado, trâmite na Câmara dos Deputados e veto ou sanção presidencial.












