Menino de Lapedo: o esqueleto que reforça teoria de que neandertais e humanos cruzaram
- Author, Da Redação
- Role, BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 5 min
O esqueleto de uma criança de 4 anos encontrado em 1998 em Portugal foi uma das mais importantes descobertas arqueológicas feitas no século passado, que ofereceu uma nova perspectiva sobre a evolução.
O chamado "menino de Lapedo" foi encontrado no sítio arqueológico do Abrigo do Lagar Velho, no vale do Lapedo, a cerca de 150 km de Lisboa. Ele foi enterrado há cerca de 29 mil anos.
O esqueleto logo chamou a atenção dos arqueólogos.
"Havia algo estranho na anatomia da criança", disse à BBC João Zilhão, arqueólogo e líder da equipe que trabalhou na descoberta. "Quando encontramos a mandíbula, sabíamos que seria um humano moderno, mas quando expusemos o esqueleto completo (...) vimos que tinha as proporções corporais de um neandertal.”
"A única coisa que poderia explicar essa combinação de características é que a criança era, de fato, evidência de que os neandertais e os humanos modernos se cruzaram.
Se voltarmos ao que se pensava sobre a evolução dos humanos no final dos anos 1990 - quando se supunha que os neandertais e os humanos modernos eram espécies diferentes e, portanto, o cruzamento era impensável - não surpreende que a grande maioria dos especialistas tenha acreditado que a interpretação de Zilhão e sua equipe era um tanto exagerada.
Mas sua teoria provocou uma revolução nos estudos da Evolução humana.
Esqueleto quase intacto

Crédito, Museu Nacional de Arqueologia de Portugal
A comunidade à qual o menino pertencia era de caçadores-coletores e de natureza nômade.
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Conforme explicou à BBC a arqueóloga Ana Cristina Araújo, quando o menino morreu, o grupo cavou um buraco no chão, queimou um galho de pinheiro e depositou seu corpo envolto em uma mortalha tingida de ocre sobre as cinzas.
“Não sabemos (com certeza) se era menino ou menina, mas há indícios de que era menino”.
Sobre a causa da morte, a arqueóloga diz que não há pistas que apontem para uma doença ou acidente, como uma queda.
"O menino pode ter comido um cogumelo venenoso ou pode ter se afogado", disse Araújo.
Seu corpo permaneceu enterrado por milênios até que, em 1998, foi descoberto por acaso. O local não era um sítio arqueológico, era um terreno prestes a ser usado para a construção de um grupo de terraços.
O dono do terreno usou uma retroescavadeira para remover partes de uma rocha vertical, e a máquina atingiu um crânio, despedaçando-o. Por sorte, os trabalhos foram interrompidos a tempo.
O local de enterro do corpo foi encontrado praticamente intacto, assim como cerca de 90% do esqueleto, disse Zilhão.
Depois de transferido para o Museu Nacional de Lisboa, começaram a estudá-lo detalhadamente.

Crédito, Museu Nacional de Arqueologia de Portugal
"Os ossos das pernas eram mais curtos do que o normal para uma criança da idade dele. Como as pernas poderiam parecer de um neandertal? Alguns dentes também pareciam de um neandertal, enquanto outros pareciam de um humano moderno. Como explicar isso?", questionou Zilhão.
Os pesquisadores lidaram com duas hipóteses. A primeira, era de que eles toparam com um caso totalmente único de uma criança resultante do cruzamento entre um neandertal e um humano moderno (o Homo sapiens).
Mas, para Zilhão, seria muito improvável ter encontrado um evento único e esporádico desses 30 mil anos depois.
A segunda hipótese era a de que neandertais e o sapiens mantinham relações sexuais regulares entre si.
"Sabíamos que na Península Ibérica o momento do contato (entre os dois) foi (...) há cerca de 37 mil anos. Se o esqueleto pertencesse a essa época, a primeira teoria poderia funcionar. Mas se o menino era de um período muito mais tardio, as implicações tinham que ser que estávamos olhando para um processo em nível populacional, não um encontro casual entre dois indivíduos", diz Zilhão.
A datação por radiocarbono resolveu a questão: a criança de Lapedo tinha 29 mil anos.
“Se tantos milênios após o tempo de contato, as pessoas que vivem nesta parte do mundo ainda apresentam evidências anatômicas dessa população ancestral de neandertais, deve ser porque o cruzamento não aconteceu apenas uma vez, foi a norma”, apontou o arqueólogo.
A força das evidências encontradas pela equipe em Portugal fez com que outros especialistas tivessem que considerar seriamente essa hipótese.
Graças a essa descoberta, houve uma mudança em nossa compreensão dos neandertais como espécie.

"A implicação é de que os neandertais não são uma espécie tão diferente. Nós exageramos muito nas pequenas diferenças no esqueleto facial ou na robustez do esqueleto. E (criamos) essa imagem, ainda bastante em voga, do neandertal como um brutamontes retardado que não tem nada a ver com humanos" , diz Zilhão.
Outras descobertas de fósseis feitas posteriormente com características semelhantes às do menino de Lapedo deram mais peso à teoria do cruzamento, que mais tarde foi reforçada quando os pesquisadores sequenciaram todo o genoma neandertal.
Hoje sabemos que europeus e asiáticos podem ter até 4% de DNA neandertal.
"Isso não quer dizer que em cada um de nós tenha os mesmos 2% ou 4% (de genes neandertais). Na verdade, se você juntar todas as partes do genoma neandertal encontrados por aí, isso vai dar quase 50% ou 70% do que era especificamente neandertal. Portanto, o genoma neandertal persistiu quase em sua totalidade”, explica o pesquisador.
Esse conhecimento “enriquece a nossa compreensão da evolução humana”, diz Zilhão, em vez de “pensar que apenas descendemos de uma população muito pequena que viveu em algum lugar da África há 250 mil anos e que todo o resto das pessoas que viveram nessa época simplesmente desapareceram."
Com os trabalhos arqueológicos realizados em Portugal e Espanha, são esperados novas peças no quebra-cabeças da Evolução.
"O estudo da pré-história e especialmente do (período) paleolítico se desenvolveu primeiro na Europa Central ou norte da Europa", diz Zilhão.
"A imagem que temos de como essas pessoas viviam vem de registros (arqueológicos) feitos na França, Alemanha e Áustria. Na verdade, é uma imagem distorcida. As pessoas do paleolítico na França e na Alemanha eram, tipo 'os esquimós do seu tempo'."
"A maioria das pessoas vivia no sul (da Europa), porque elas tinham mais proteção do frio e as áreas eram menos afetadas pela da elevação do nível das águas do mar há 10 mil anos, no fim da Era do Gelo."
"Na Ibéria em particular, essas pesquisas arqueológicas começaram muito mais tarde, cresceram lentamente e só nos últimos 25 anos é que começamos a fazer descobertas que mudaram tudo", disse Zilhão.
















