'Bombardeios insanos': palestinos tentam fugir de ataque israelense na Cidade de Gaza

Homem com curativo em uma das mãos dirige o guidão de uma bicicleta, com duas crianças pequenas deitadas sobre o assento e a barra frontal. Sacolas estão penduradas no guidão enquanto eles viajam à noite, com uma luz brilhante sobre eles.

Crédito, Anadolu via Getty Images

    • Author, Rushdi Abualouf
    • Role, Correspondente em Gaza, de Istambul (Turquia) para a BBC News
  • Tempo de leitura: 5 min

Milhares de famílias estão tentando fugir da Cidade de Gaza, desde que as Forças Armadas de Israel confirmaram o início das operações em terra, como parte do seu ataque em larga escala para ocupar a cidade.

Lina al-Maghrebi, de 32 anos, é mãe de três crianças e mora no bairro de Sheikh Radwan, na Cidade de Gaza.

Ela declarou à BBC que resistiu a deixar sua casa, mesmo sabendo dos riscos, até receber uma ligação de um militar israelense, ordenando sua evacuação.

"Fui obrigada a vender minhas joias para cobrir os custos do deslocamento e uma tenda", segundo ela.

"Levamos 10 horas para chegar a Khan Younis [no sul da Faixa de Gaza] e pagamos 3,5 mil shekels [cerca de US$ 1 mil ou R$ 5,3 mil] pela viagem. A fila de carros e caminhões parecia interminável."

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que foi lançada uma "operação poderosa" na Cidade de Gaza, descrita por ele como o último reduto importante do Hamas.

As Forças Armadas israelense designaram a estrada costeira de al-Rashid como o único caminho permitido para evacuação dos civis.

Muitos descreveram forte congestionamento, filas intermináveis de carros e caminhões e longos atrasos. Famílias ficaram paradas no acostamento, enquanto os ataques aéreos continuavam sobre suas cabeças.

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A operação recebeu condenação internacional generalizada, incluindo do chefe de Direitos Humanos da ONU e do ministro alemão de Relações Exteriores.

A ministra de Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, chamou a ofensiva de "terrível e totalmente inconsequente". Ela destacou que a ação "só traria mais derramamento de sangue, matando mais civis inocentes e colocando em risco os reféns restantes".

Mas o secretário de Estado americano Marco Rubio pareceu oferecer apoio tácito à operação de Israel, durante uma entrevista coletiva com Netanyahu na segunda-feira (15/9).

Ele declarou que os Estados Unidos prefeririam um final negociado para a guerra, mas, "às vezes, quando você lida com um grupo de selvagens como o Hamas, isso não é possível".

O aumento da ofensiva de Israel vem no momento em que uma comissão de investigação das Nações Unidas publicou um relatório, na terça-feira (16/9), afirmando que Israel comete genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. Os israelenses rejeitaram categoricamente a acusação.

Dezenas de pessoas carregando bagagem, usando carros e outros veículos, andando por uma estrada de terra ao anoitecer

Crédito, Anadolu via Getty Images

Legenda da foto, Centenas de milhares de pessoas fugiram da Cidade de Gaza nas últimas semanas

Nivin Imad al-Din, de 38 anos, é mãe de cinco filhos. Ela conta que fugiu para o sul da Faixa de Gaza, depois que aviões militares de Israel lançaram folhetos sobre a evacuação no seu bairro. Mas seu marido se recusou a sair de casa.

"Não consegui trazer minha mobília, porque não consegui pagar o custo de um caminhão grande", explicou ela. "Deixar tudo para trás foi a decisão mais difícil que já tomei."

O custo do deslocamento disparou muito além do alcance da maioria das famílias.

Os moradores afirmam que o aluguel de um pequeno caminhão, agora, custa cerca de 3 mil shekels (US$ 860, cerca de R$ 4,6 mil). Já uma tenda para cinco pessoas está sendo vendida por cerca de 4 mil shekels (US$ 1,15 mil, cerca de R$ 6,1 mil).

Com a maioria das famílias sem renda desde o início da guerra, algumas foram obrigadas a andar por quilômetros ou permanecer em casa, apesar dos riscos.

Na noite de segunda para terça-feira, aviões militares israelenses realizaram uma onda de fortes ataques aéreos em toda a Cidade de Gaza. Houve bombardeios concentrados no bairro central de al-Daraj, no campo de refugiados Beach a oeste e em Sheikh Radwan, ao norte.

Os ataques foram acompanhados de fogo de artilharia e disparos por drones e helicópteros.

As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmaram que estão se movendo "gradualmente" para a Cidade de Gaza, como parte da "próxima fase" da ofensiva.

A organização declarou que forças aéreas e terrestres participariam desta nova fase da operação militar e o número de soldados aumenta dia após dia.

Moradores descreveram os ataques noturnos como um "inferno".

Ghazi al-Aloul, morador deslocado do norte de Gaza, contou à BBC que, agora, ele dorme na entrada do hospital al-Quds Hospital em Tel al-Hawa, no sudoeste de Gaza.

"Não escolhi isso", segundo ele. "Fui obrigado, depois de deixar a casa onde minha família e eu nos abrigamos por cerca de um mês, depois de fugirmos para o norte."

"Houve um bombardeio insano por horas e o exército ameaça demolir diversos edifícios residenciais na região."

Fluxo de carros se movendo lentamente à noite, no escuro, em uma estrada litorânea

Crédito, Anadolu via Getty Images

Legenda da foto, Nos últimos dias, pessoas foram forçadas a fugir à noite pela estrada do litoral da Faixa de Gaza

Sami Abu Dalal, de al-Daraj, na zona central de Gaza, descreveu a noite como "extremamente difícil".

"Blocos residenciais inteiros foram arrasados com seus moradores, deixando muitos mortos, desaparecidos ou feridos", ele conta.

Ele afirma que Israel avança em três frentes e que o avanço foi acompanhado do uso de veículos armados, intensos ataques aéreos e pesados bombardeios. Paralelamente, helicópteros Apache pairavam sobre diferentes partes da cidade, disparando continuamente.