Terceira rodada de negociações entre EUA e Irã termina com 'avanços significativos' sobre acordo nuclear, diz mediador

Jared Kushner, Steve Witkoff e o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, reunidos em uma mesa durante negociações.

Crédito, Ministério das Relações Exteriores de Omã

Legenda da foto, O ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, disse que os EUA e o Irã demonstraram "abertura a novas ideias" após se reunir com Jared Kushner e Steve Witkoff
    • Author, Hugo Bachega
    • Role, Correspondente no Oriente Médio
    • Reporting from, Jerusalem
  • Tempo de leitura: 5 min

Autoridades dos Estados Unidos e do Irã tiveram um avanço significativo nas negociações nucleares realizadas em Genebra nesta quinta-feira (26/2), afirmou o chanceler de Omã, Badr Albusaidi.

Apesar do progresso, ainda não está claro se as conversas resultarão em um acordo capaz de evitar uma guerra.

Segundo Albusaidi, que atua como mediador das negociações, os dois países devem retomar as conversas em breve, após consultas internas em suas capitais. Reuniões técnicas estão previstas para a próxima semana em Viena.

Essa foi a terceira rodada de negociações mediada entre os dois países.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, que lidera a delegação do país, afirmou que houve um "bom progresso".

De acordo com ele, já há entendimento sobre alguns pontos, embora divergências persistam em outros.

Araghchi disse ainda que a próxima rodada de negociações deve acontecer em menos de uma semana.

Nesta sexta-feira (27/2), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que não está "satisfeito" com as recentes negociações sobre o programa nuclear do Irã, mas ainda não decidiu se irá atacar o território.

Pule Whatsapp! e continue lendo
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

"Não estou satisfeito com o fato de eles não estarem dispostos a nos dar o que precisamos ter. Portanto, não estou nada contente", afirmou.

Ele ainda ressaltou que não quer usar força militar contra o Irã, mas que, às vezes, "é preciso".

A perspectiva de novas rodadas de negociação pode reduzir a chance de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprir suas ameaças de atacar o Irã.

Trump ordenou a maior mobilização militar americana no Oriente Médio desde a invasão do Iraque em 2003, enquanto Teerã prometeu responder a qualquer ataque com força.

Há décadas, os EUA e Israel acusam o Irã de tentar desenvolver secretamente uma arma nuclear.

O governo iraniano nega que tenta construir uma bomba.

Segundo o Irã, seu programa tem fins exclusivamente pacíficos — embora o país seja o único sem arsenal nuclear a enriquecer urânio próximo ao nível necessário para uso militar.

De acordo com a mídia estatal iraniana, os negociadores insistiram que o Irã tinha direito à energia nuclear para fins pacíficos e rejeitaram as exigências dos EUA de interromper totalmente o enriquecimento de urânio em território iraniano e de transferir seu estoque de cerca de 400 kg de material enriquecido para fora do país.

Ainda assim, acredita-se que as autoridades iranianas tenham sinalizado possíveis concessões, embora as propostas não tenham sido divulgadas.

Uma das opções relatadas era que Irã fosse autorizado a retomar o enriquecimento de urânio em nível mínimo após uma suspensão de três a cinco anos, sob monitoramento internacional.

Em troca, os negociadores exigiram a retirada das sanções que têm prejudicado a economia iraniana, afirmou Araghchi à TV estatal.

Críticos do regime afirmam que qualquer alívio nas sanções daria um fôlego político e financeiro aos líderes religiosos que governam o Irã.

As negociações indiretas aconteceram em duas sessões. Uma pela manhã, que durou três horas, e outra mais curta durante a noite.

Assim como nas rodadas anteriores, a delegação americana foi representada pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Também participou das negociações o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi.

Ainda não está claro quais condições Trump consideraria aceitáveis para um acordo, e o presidente pouco explicou por que haveria necessidade de uma ação militar agora, oito meses após os EUA bombardearem instalações nucleares iranianas durante a guerra entre Israel e o Irã.

Teerã já rejeitou discutir limites ao programa de mísseis balísticos do país e o fim do apoio a grupos aliados na região, incluindo o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano, milícias no Iraque e os Houthis no Iêmen.

Navio no meio do mar

Crédito, Reuters

Legenda da foto, O USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, deixou a Baía de Souda, em Creta, na quinta-feira.

Nas últimas semanas, os Estados Unidos enviaram milhares de soldados para a região, incluindo dois porta-aviões, além de outros navios de guerra, caças e aeronaves de reabastecimento.

Trump ameaçou pela primeira vez bombardear o Irã no mês passado, quando forças de segurança reprimiram com violência protestos contra o governo, deixando milhares de mortos.

Desde então, porém, o foco do presidente passou a ser o programa nuclear iraniano, que está no centro de uma disputa de longa data entre Teerã e o Ocidente.

Carros chegando à residência do embaixador em Genebra. Do lado de fora, há policiais

Crédito, AFP

Legenda da foto, As negociações indiretas estão sendo realizadas na residência do embaixador de Omã em Genebra

Em seu discurso de Estado da União no Congresso na terça-feira, Trump mencionou brevemente e de forma vaga as tensões com o Irã, sem apresentar claramente justificativas para eventuais ataques.

Ele afirmou que o Irã estaria trabalhando no desenvolvimento de mísseis que poderiam alcançar os Estados Unidos "em breve", mas não deu detalhes.

Também acusou o país de tentar "recomeçar do zero" um programa de armas nucleares após os ataques do ano passado, e disse que não iria permitir que o "maior patrocinador do terrorismo do mundo" tivesse uma arma nuclear.

Horas antes do discurso, porém, o ministro das Relações Exteriores iraniano havia publicado nas redes sociais que o país "em hipótese alguma desenvolveria uma arma nuclear".

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, discursando

Crédito, Reuters

Legenda da foto, O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que o país "em hipótese alguma desenvolveria uma arma nuclear"

Em junho do ano passado, os Estados Unidos atacaram três instalações nucleares no Irã.

Na ocasião, Trump disse que as instalações haviam sido "destruídas".

Teerã diz que suas atividades de enriquecimento foram interrompidas após os ataques, embora não tenha permitido que inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica acessem os locais danificados.

Reportagens da imprensa americana, citando autoridades do governo sob anonimato, indicam que Trump teria considerado lançar, nos próximos dias, um ataque inicial contra a Guarda Revolucionária Islâmica ou contra instalações nucleares iranianas, com o objetivo de pressionar as lideranças do país.

Segundo essas reportagens, caso as negociações fracassem, o presidente poderia chegar a ordenar uma campanha militar com o objetivo de derrubar o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei.

O presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA também teria alertado que ataques ao Irã seriam arriscados e poderiam arrastar os EUA para um conflito prolongado, mas Trump tem dito que o general Dan Caine acredita que a guerra seria "facilmente vencida".

O Irã, por sua vez, ameaçou responder a qualquer ataque atingindo alvos militares americanos no Oriente Médio e também em Israel.

Países aliados dos EUA na região estão preocupados que um ataque ao Irã possa desencadear um conflito mais amplo, e alertam que o poder aéreo sozinho não seria suficiente para mudar a liderança do país.

Já o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, alertou contra um acordo que não inclua o programa de mísseis balísticos do Irã e seus aliados.

Há anos Netanyahu descreve o Irã como uma ameaça central para Israel e uma fonte de instabilidade regional.

Analistas avaliam que o primeiro-ministro, que visitou a Casa Branca no início do mês, pode estar pressionando por uma campanha com o objetivo de derrubar o regime iraniano.

Os Estados Unidos possuem o segundo maior arsenal nuclear do mundo. Israel também é amplamente considerado um país com armas nucleares, embora nunca tenha confirmado ou negado isso.