Trump defende tarifas no Congresso e diz que prefere 'diplomacia' para lidar com o Irã

Presidente Trump discursando no Capitólio

Crédito, Getty Images

Tempo de leitura: 4 min

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez seu discurso anual de Estado da União na noite desta terça-feira (24/2) em Washington.

A cerimônia é uma tradição da política norte-americana, na qual o presidente apresenta ao Congresso as prioridades do governo e faz um balanço do que foi realizado até o momento.

O discurso desta terça-feira é considerado especialmente relevante porque haverá eleições legislativas no segundo semestre, em um ano que começa com Trump atento aos próprios índices de popularidade.

Uma pesquisa recente da CNN indica que sua aprovação está em torno de 36%, enquanto um levantamento do Washington Post a coloca em aproximadamente 39%.

Durante seu discurso, Trump criticou a Suprema Corte dos EUA, disse que as tarifas impostas pelo governo americano contra produtos de outros países promoveram uma "reviravolta econômica impressionante" e que elas vão continuar.

Ele também afirmou que prefere resolver as tensões com o Irã por meio da diplomacia, mas voltar a fazer ameaças dizendo que não deixará o país ter uma arma nuclear.

Trump de braços abertos durante discurso no Congresso

Crédito, Getty Images

Na última sexta-feira (20/2), a Suprema Corte americana derrubou as tarifas impostas no ano passado pelo presidente americano contra dezenas de parceiros comerciais globais.

No fim de semana, Trump anunciou que usaria um novo instrumento legal para aplicar uma tarifa de 15% sobre produtos importados do resto do mundo. Essas tarifas entrariam em vigor na terça com validade de apenas 150 dias.

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Em seu discurso no Congresso, o presidente dos EUA chamou a decisão da Corte de "decepcionante" e "lamentável", se dirigindo a quatro dos nove juízes que assistiam à cerimônia.

Apesar disso, afirmou que "as tarifas permanecerão em vigor sob bases legais alternativas totalmente aprovadas e testadas", acrescentando que elas "podem algum dia substituir totalmente o imposto de renda dos americanos".

"Acredito que as tarifas pagas por países estrangeiros irão, como no passado, substituir substancialmente o sistema moderno de imposto de renda, aliviando um grande fardo financeiro das pessoas que amo", declarou.

O Brasil é um dos países mais beneficiados pela decisão da Suprema Corte de derrubar tarifas de Trump que vigoravam desde o ano passado, segundo um estudo que avalia os impactos da mudança nos EUA.

Mesmo com a nova tarifa de 15% anunciada pela Casa Branca, o Brasil segue em melhor posição do que estava com o "tarifaço" original.

Um estudo do Global Trade Alert (GTA) — um grupo que compila dados comerciais, ligado a uma entidade sem fins lucrativos baseada na Suíça — mostra que o Brasil é o terceiro país no mundo com maior queda na alíquota de seus produtos exportados para os EUA.

O GTA afirma que a mudança de tarifas nos EUA produziu "vencedores e perdedores claros", e colocou o Brasil no primeiro grupo.

Antes da decisão da Suprema Corte, produtos brasileiros vinham sendo taxados em 26,33% em média — a 17ª maior tarifa do mundo. O GTA estima que a taxação brasileira cairá em 13,56 pontos percentuais. Essa queda é a terceira maior do mundo, atrás apenas da redução de tarifas para produtos importados pelos EUA de Mianmar e Laos.

Com a decisão da Suprema Corte e o novo instrumento usado por Trump, o GTA prevê que a tarifa média paga por produtos brasileiros será de 12,77% — fazendo com que o país caia da 17ª para a 125ª posição entre os mais taxados pelos EUA.

Tensão com Irã

O presidente também dedicou parte do seu discurso para falar do Irã, em meio a atual tensão entre os dois países.

Os dois países voltaram a negociar sobre o programa nuclear iraniano, após repetidas ameaças militares dos EUA contra o Irã.

Na semana passada, Trump deu um ultimato ao país, dizendo que o mundo descobriria "nos próximos provavelmente 10 dias" se eles chegariam a um acordo ou se tomaria medidas militares.

Nesta terça-feira, ele disse que "prefere resolver o problema por meio da diplomacia", mas que não vai permitir que o Irã tenha uma arma nuclear.

Trump ainda acrescentou que o o governo iraniano quer fazer um acordo para evitar novos ataques dos EUA, mas ainda não se comprometeu a nunca produzir uma arma nuclear.

"Minha preferência é resolver esse problema por meio da diplomacia. Mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o maior patrocinador do terrorismo do mundo — e eles são de longe — tenha uma arma nuclear", afirmou.

Venezuela

O presidente americano também falou da Venezuela na cerimônia. Ele disse que os EUA já receberam mais de 80 milhões de barris de petróleo do país sul-americano.

"A produção de petróleo dos EUA aumentou em mais de 600.000 barris por dia, e acabamos de receber de nosso novo amigo e parceiro, a Venezuela, mais de 80 milhões de barris de petróleo", declarou.

Dias após Nicolás Maduro ser preso durante uma operação americana na Venezuela, Trump publicou uma mensagem na rede social Truth Social anunciando que o governo da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, entregaria entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA (equivalente a entre um e dois meses da produção venezuelana nos níveis atuais).

O presidente declarou que o petróleo bruto seria vendido a preços de mercado e que ele controlaria a receita dessa venda para garantir "que ela seja usada em benefício do povo da Venezuela e dos EUA".

No dia seguinte, o Departamento de Energia dos EUA (DOE, na sigla em inglês) anunciou em comunicado que os Estados Unidos haviam começado a negociar petróleo venezuelano no volume de barris mencionado e indicou que esse mecanismo seria aplicado indefinidamente.

A estatal petrolífera venezuelana, PDVSA, confirmou as negociações para tal acordo com os EUA, mas não mencionou que ele seria aplicado indefinidamente e o comparou ao acordo existente com a petroleira americana Chevron

"[O acordo] baseia-se numa transação estritamente comercial, com critérios de legalidade, transparência e benefício para ambas as partes", afirmou a PDVSA.

Em comunicado, o DOE afirmou que os EUA contataram "as principais empresas de comercialização de commodities do mundo e bancos importantes" para executar e fornecer apoio financeiro para essas vendas de petróleo bruto.

Posteriormente, foi revelado que as empresas envolvidas eram a Vitol e a Trafigura, duas das maiores empresas de comercialização de commodities do mundo.

Juntas, elas movimentam um volume diário de petróleo suficiente para atender ao consumo combinado do México, Alemanha, Índia e Japão, segundo a Bloomberg.