|
Risco de seca na Amazónia 10 vezes maior em 2030 | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As chances de ocorrerem períodos de seca intensa na região da Amazónia podem aumentar dos actuais 5% (uma forte estiagem a cada 20 anos) para 50% em 2030 e até 90% em 2100, informam cientistas do Hadley Centre. A informação foi apresentada durante um encontro em Março na Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, onde especialistas em mudanças climáticas debateram temas críticos sobre o futuro do planeta. Um dos casos estudados por cientistas foi a forte seca ocorrida na região da Amazónia, há dois anos. As imagens de centenas de peixes apodrecendo no rio Amazonas, o segundo maior rio do planeta, chocaram o mundo. Em algumas áreas, a seca superou todos os recordes desde que se começou a medir estatísticas climáticas do local. O governo brasileiro teve de declarar estado de emergência. O mundo pode ter esquecido a seca de há dois anos atrás, mas a comunidade científica não. Especialistas tentam agora entender se o aquecimento global causou a seca e qual foi o grau de devastação causado pela seca. Há consenso entre os cientistas de que a seca de 2005 não esteve relacionada com o fenómeno El Niño, mas sim com o aquecimento da superfície na área tropical do Atlântico do Norte. Colapso da Amazónia O professor de dinâmicas de mudanças climáticas da Universidade de Essex, na Grã-Bretanha, Peter Cox, diz acreditar que os mesmos factores que causaram a estiagem devem repetir-se. "Não podemos dizer com certeza que a seca como a que ocorreu em 2005 foi causada pelo aquecimento global", disse Cox. "Mas podemos dizer que a probabilidade de um evento como esse vai aumentar como consequência da mudança de clima provocada pelo homem, podendo tornar-se bastante comum até ao final do século", afirma Cox. O modelo do Hadley Centre é um dos diversos GCMs (sigla em inglês para Modelos de Clima Global) que tenta prever mudanças na Amazónia. O modelo é conhecido por alertar para impactos catastróficos na Floresta Amazónica durante um período de décadas, conhecido como o "colapso da Amazónia". Outros modelos mostram padrões muito diferentes de chuva na Amazónia, mas especialistas em Oxford acreditam que o Hadley é o mais confiável. "O modelo do Hadley Centre faz um trabalho de credibilidade", afirma o representante brasileiro do programa International Geosphere-Biosphere, Carlos Nobre. "O que todos os GCMs prevêem é um aumento maior da variabilidade do clima, e o modelo Hadley mostra isso muito bem." Factor humano Há menos dúvidas sobre o impacto e a natureza rara da seca de 2005. "Foi muito atípica tanto pela localização como pela intensidade", diz Nobre. "A maior parte da secas na Amazónia acontece no nordeste da floresta, mas esta começou no oeste e no sudoeste, e seu impacto se espalhou até o centro e o leste." Próximo a Manaus, o nível do Amazonas chegou a ficar três metros abaixo da média. Muitas comunidades dependentes do rio para transporte ficaram ilhadas com a seca dos afluentes. Pela primeira vez, houve registro de incêndios generalizados no sudoeste. Uma nova pesquisa do cientista Luiz Aragão, do Instituto de Mudanças no Meio Ambiente de Oxford, aponta a extensão dos incêndios. "Uma área de 2,8 mil quilómetros quadrados foi perdida devido a uma proliferação extensiva de incêndios em florestas", afirma o estudo. A pesquisa de Aragão mostra que os incêndios ocorreram principalmente em áreas onde há actividade humana. Em outras regiões afectadas pela seca, onde há poucas pessoas, como no sudeste do Peru, havia pouca evidência de fogos. Alto impacto As previsões mais alarmistas para a Amazónia indicam que a combinação de incêndios, secas, desmatamento, mudanças no uso da terra (como plantação de soja) e aquecimento global vão empurrar a Amazónia para o limite de um ciclo de destruição. Cientistas na conferência em Oxford alertaram que não sabem ainda qual é o risco exacto de isso acontecer, mas falam em "corredores de probabilidade". Há discordância sobre esses corredores. "O modelo do Hadley Centre prevê que é, de facto, muito provável que a Amazónia seja severamente prejudicada pela mudança climática nas próximas décadas", disse Cox. Mas, por mais baixa que seja a probabilidade, mudanças na Amazónia devem ter um "alto impacto" no clima global. Como disse um dos conferencistas: "Você não entraria em um avião se você soubesse que há 10% de chance de ele cair". | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||