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Moçambique, o país das calamidades naturais | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A província de Gaza, no Sul de Moçambique, será talvez o mais eloquente exemplo do grau de vulnerabilidade do país em relação aos desastres naturais. Depois de, há cinco anos, ter sido a mais atingida pelas maiores cheias de que há memória em Moçambique, Gaza vê-se agora confrontada com os efeitos do que começa a ser descrito como a pior seca dos últimos anos. À entrada de Xai Xai, a capital de Gaza, dorme sonolento do rio Limpopo. Para quem não tenha vivido o drama que foram as devastadoras cheias de 2000, é difícil acreditar que tenha sido daqui que saíu a água que provocou o luto, a dor e a destruição que marcaram então a tragédia. A traição do Limpopo Que tenha sido sob as águas deste rio ora adormecido que ficaram mergulhadas aldeias e cidades - como a própria Xai Xai. E mais difícil se torna acreditar na face violenta do Limpopo quando nos apercebemos que, apesar de todas as lições do passado recente, as populações locais ainda habitam as margens do rio. Deste e de outros. A verdade contudo é que às populações não parece restar outra alternativa. A falta de chuva a isso obriga, até porque a cor do milho aqui, junto às terras férteis sobre as quais se plasma o Limpopo, exibe um verde que já não é mais de esperança mas de certeza. Colheitas à vista Certeza em relação à colheita de Julho. Mas, tanto o verde como a certeza que já não é esperança pouco significam para as cerca de seiscentas mil pessoas que, segundo dados do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, necessitam actualmente de ajuda de emergência em Moçambique. Pessoas como aquelas com quem passei a tarde de quarta-feira em Cumbene, um povoado de Chongoene, aqui em Gaza descrita como a província que mais se está a ressentir do défice pluviométrico que atravessa este país.
Aqui o verde dá lugar ao amarelo murcho das plantas e certeza é uma palavra quase inexistente quando se fala da próxima colheita. Como ter certeza, pergunta-me uma camponesa, se a última vez que choveu foi em princípios de Maio? Sobrevivência Com efeito, depois do fracasso que foi a última colheita, aqui sobrevive-se a muito custo, e apenas os mecanismos de sobrevivência locais e algumas iniciativas de segurança alimentar têm evitado o pior. Por todas estas razões, face a todos estes contrastes, Gaza constitui um dos mais vivos exemplos daquilo que é a vulnerabilidade crónica de Moçambique aos desastres naturais. Mas é também motivo de debate e reflexão em torno de questões relacionadas com a redução dessa mesma vulnerabilidade. Calamidades cíclicas É que não se trata de um fenómeno novo: as cheias, as secas e até mesmo os ciclones e depressões tropicais sempre, de forma cíclica, fustigaram Moçambique. Talvez mais agora do que antes, o certo é que a localização geográfica, o enquadramento climático do país assim o determinaram, determinam e determinarão. Daí a interrogação: como explicar o contínuo estado de vulnerabilidade extrema de Moçambique em relação aos desastres naturais? |
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