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'Recrutamento imoral' de médicos africanos | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A dependência da Grã-Bretanha do recrutamento de médicos e enfermeiros de países pobres de África foi considerada "extremamente imoral" por James Johnson, o presidente da Associação Médica Britânica. Cerca de 12 mil e 500 médicos e 16 mil enfermeiros de África estão registados para trabalhar na Grã-Bretanha. O governo introduziu recentemente um código de conduta para acabar com a prática de recrutamento activo de pessoal médico em países em desenvolvimento. Êxodo Mas a Associação Médica Britânica alega que isso não é suficiente para travar o êxodo. De acordo com novos dados obtidos pela BBC, os países africanos dispenderam mais de 500 milhões de dólares na formação dos seus médicos e enfermeiros que emigraram para a Grã-Bretanha. Os mesmos dados mostram que, com a chegada desses emigrantes qualificados, o Serviço britânico de Saúde poupou mais de 5 mil milhões de dólares. A Associação Médica Britânica diz ser 'moralmente indefensável' que o país dependa de pessoal médico treinado por países em desenvolvimento. Mais formação O Doutor James Johnson diz ser necessário que se forme mais pessoal britânico devido ao já de si escasso número de médicos e enfermeiros em países menos desenvolvidos. "Um país como o Ghana, com 21 milhões de habitantes, tem apenas mil e 500 médicos. Há áreas do país virtualmente sem quaisquer cuidados de saúde". Mais de metade dos médicos ghanenses abandonaram o país e exercem principalmente na Grã-Bretanha e na Alemanha. O guineense Justino Monteiro é um médico que se formou em Portugal e que trabalha agora aqui em Londres. Sustentáculo Ele diz que os médicos estrangeiros, nomeadamente de países em desenvolvimento, são o sustentáculo do Serviço de Saúde da Grã-Bretanha.
"É mais fácil ter-se um médico de família asiático ou africano do que britânico. Cada vez há menos pessoal britânico na área de saúde". Para o Doutor Monteiro, a situação é ainda mais grave na área de enfermagem. "Em qualquer hospital de Londres, metade das enfermeiras são das Filipinas ou de países da África Ocidental". Os Doutores David Linyama e Kalavoto Chiweza terminam nos próximos meses a sua formação no Hospital Universitário de Lusaka. Sonhos com o futuro Ambos sabem que são necessários para reforçar o quadro do pessoal médico zambiano mas já começaram a fazer contas à vida. O Doutor Linyama diz que gostaria de permanecer na Zâmbia mas também diz que não pode fechar os olhos às oportunidades que lhe apareçam. "Tenho contas para pagar e quero viver numa casa decente. Não vejo por que razão os meus filhos devem sofrer por decisões pessoais tomadas por mim".
Para o Doutor Chiweza, o seu futuro também reside num país estrangeiro. "Se tivéssemos mais medicamentos, mais médicos e mais tempo para dispender com os nossos pacientes, eu ficaria aqui na Zâmbia. Ficaria mesmo". Duplo dilema Contudo, o dilema é que se médicos como David Linyama e Kalavoto Chiweza continuarem a abandonar os seus países por não haver pessoal suficiente... jamais haverá pessoal suficiente. O Doutor Justino Monteiro diz que os médicos africanos são aliciados pelos salários comparativamente muito mais altos que auferem na Grã-Bretanha. Mas os custos para os países de origem - que os formaram sem usufruir dos seus préstimos - são incontáveis. "São necessários pelos menos seis anos para formar um médico. Se este se especializar em cirurgia plástica, por exemplo, precisará de outros 5 ou 6 anos de estudos. Porque razão os britânicos têm de pensar em formar médicos quando podem tê-los muito mais baratos, já com formação"? |
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