Música: as mensagens secretas em canções pop de sucesso

    • Author, Arwa Haider
    • Role, BBC Culture
  • Tempo de leitura: 8 min

Quando a premiada cantora e compositora Billie Eilish, de 19 anos, anunciou o lançamento de segundo álbum, muitos fãs ficaram em polvorosa nas redes sociais a respeito de uma possível "mensagem oculta" juntando os nomes de quatro várias de suas músicas: My Future [is] Everything I Wanted; Therefore I Am, Happier Than Ever.

Em tradução livre, seria algo como: Meu futuro [é] Tudo o que eu queria; Por isso, eu estou, Mais feliz do que nunca.

Isso pode ser uma mera seleção aleatória do catálogo de Eilish, mas a ideia de uma "mensagem secreta" para os ouvintes expressando a felicidade da cantora também é convincente, sobretudo porque sua obra abordou temas como saúde mental e vulnerabilidade pessoal.

A música pop é universal e intensamente subliminar. A melodia atraente chama a nossa atenção, mas são os elementos codificados (liricamente e visualmente) que realmente conectam a composição com a gente — e, em sua forma mais poderosa, são positivamente transformadores.

O músico e escritor americano Ted Gioia argumenta em seu excelente livro Music: A Subversive History (2019): "Em todas as fases da história humana, a música tem sido um catalisador para a mudança, desafiando convenções e transmitindo mensagens codificadas — ou, não raramente, transmitindo mensagens diretas e sem qualquer ambiguidade. Ela deu voz a indivíduos e grupos cujo acesso a outras plataformas de expressão foi negado".

A música pop é com frequência apontada como de "pouco peso" devido ao seu público jovem, estilo simples e comercial, mas esses elementos são, na verdade, onde sua força se esconde. Elas não originam questões de bem-estar mental, igualdade, liberdade, ativismo — mas as transmitem para as plataformas mais abrangentes possíveis.

Na era digital, as grandes estrelas da música podem fazer os seguidores se sentirem como seus confidentes, com nomes como Taylor Swift dando pistas sobre novos lançamentos ou subtextos de músicas.

As postagens nas redes sociais podem não ter sido uma experiência de formação de vínculo para as gerações passadas de devotos do pop (como a minha), mas pelo menos podíamos ler nas entrelinhas de uma vasta variedade de revistas de música — incluindo a quinzenal Smash Hits, que circulou de 1978 a 2006, no Reino Unido.

"Crescer ouvindo música pop me ajudou a criar um segundo mundo em que eu pudesse me encaixar... Na Smash Hits, a escrita tinha que ser incisiva e bem-humorada o suficiente para manter os leitores mais velhos engajados, mas também tinha que ser emocional e direta o bastante para o público mais jovem", conta Alex Kadis, ex-editor da revista, à BBC Culture.

Assim como acontece com as letras das músicas, essa imersão na música pop operou em mais de um nível ao mesmo tempo — embora a mensagem subjacente fosse um senso de camaradagem; o pop é essencialmente uma força unificadora.

Kadis insiste que mesmo as letras e posturas mais superficiais podem evocar um poder codificado — incluindo a boy band do início dos anos 1990, New Kids on the Block. "O New Kids on the Block trouxe um tipo de expansividade que não tínhamos no pop britânico há algum tempo", argumenta Kadis, que agora é empresário musical e consultor da indústria.

"A música deles seguia muito uma fórmula, era repetitiva, meio que um mantra. Eles tinham uma arrogância, e quando você assistia a eles se apresentando, você absorvia algo disso; a ideia era: 'você poderia fazer parte dessa turma'."

"Eu vi isso novamente, anos depois, trabalhando no marketing de lançamento do One Direction. Agora, o BTS também incorpora muito dessa mentalidade, e a conexão com seus fãs é tão poderosa. Muita música pop é realmente importante porque convida você a se tornar parte de um movimento, não importa o que seja. É um pouco como uma rede de apoio", avalia.

Quando criança e adolescente, eu não captei o conceito de resistência ou de representatividade por meio do noticiário. Aprendi tudo com o pop.

O mainstream ocidental da década de 1980 parecia tanto excessivamente materialista quanto estranhamente puritano. O estilo exagerado abundava, da moda às produções musicais, mas um tom fortemente preconceituoso também conduzia os governos conservadores no Reino Unido e nos Estados Unidos, assim como a cobertura da imprensa, sobretudo quando se tratava de expressão social e sexual.

Essa tensão provou ser um terreno fértil para o pop codificado, desde a política de gênero do Eurythmics e do Culture Club, até os incisivos protestos operários de Bruce Springsteen.

A revista Smash Hits publicaria perfis da banda pop The Blow Monkeys, cujas melodias suaves transmitiam solidariedade às comunidades LGBTQIA+ (Digging Your Scene, de 1986) e oposição ao governo de direita de Margaret Thatcher no Reino Unido — em vários detalhes evidentes, incluindo o dueto de 1987 com Curtis Mayfield em (Celebrate) the Day After You.

Enquanto isso, a banda Frankie Goes to Hollywood, de Liverpool, era brilhantemente rebelde e descontraída, famosa pelo grande sucesso "proibido" Relax de 1984 (no encarte do álbum de estreia, o baixista da banda Mark O'Toole admitiu: "Quando foi lançada, costumávamos fingir que era sobre motivação e, na verdade, é sobre sexo").

Mas também escondia referências à Guerra Fria, à arte de vanguarda e à filosofia em seus singles subsequentes (Two Tribes estava repleto de sinais visuais e sonoros sobre líderes soviéticos e ocidentais, incluindo Lenin, Reagan e Thatcher, assim como clipes de filmes de informação pública sobre a guerra nuclear; enquanto Welcome To The Pleasuredome deixou os fãs do pop impressionados ​​com a influência do poema Kubla Khan, de 1797, de Samuel Taylor Coleridge, que escreveu inspirado pelo ópio).

O vocalista da banda, Holly Johnson, se mantém fiel ao pop codificado; seu single solo de 2015, Dancing with No Fear, captura a euforia instantânea das pistas de dança, mas também uma esperança subjacente: de viver sem as restrições tóxicas da homofobia e outros preconceitos.

Gerações de músicos recorreram a insinuações e letras ambíguas para obter um efeito subversivo.

A década de 1990 rendeu músicas pop de raves que brincavam com um sistema disposto a reprimir a cultura clubber e as referências às drogas — é o caso de Ebeneezer Goode da banda escocesa The Shamen, de 1992, que chegou ao topo das paradas, e do single inebriante Bedtime Story, de Madonna, de 1995 (em parceria com Bjork).

No século 21, as letras codificadas ainda expressam identidade sexual e liberação, quer o mainstream capte imediatamente a mensagem ou não.

Quando Lil Nas X foi criticado pelo conteúdo "inapropriado" de sua serenata gay Montero (Call Me by Your Name) no início deste ano, ele denunciou a hipocrisia conservadora por meio de sua conta no Twitter, com uma referência a seu sucesso de 2019, Old Town Road:

"Eu literalmente canto sobre lean (um tipo de droga) e adultério em Old Town Road. Você decidiu deixar seu filho ouvir. Culpe a si mesmo."

Alguns artistas pop se tornam cada vez mais destemidos com a fama; outros demonstraram um forte para mensagens codificadas que vão além de suas notas finais.

O glorioso álbum Blackstar (2016), de David Bowie, continua a revelar segredos desde seu lançamento (no 69º aniversário de Bowie e alguns dias antes de sua morte); além das referências do disco à mortalidade, há uma qualidade mágica em sua arte abstrata — um fã descobriu que quando a capa monocromática é exposta à luz solar direta, aparece uma galáxia de estrelas.

Enquanto isso, os primeiros shows solo de Beyoncé incluíam imagens de arquivo de líderes inspiradores, incluindo Martin Luther King.

Mas tem sido emocionante vê-la usar progressivamente sua plataforma para incorporar temas de empoderamento negro, herança africana e igualdade: homenageando os Panteras Negras por meio de coreografias e acessórios em sua apresentação no Super Bowl 50 (2016), antes de lançar o álbum Lemonade, que ofereceu vários insumos para um debate acalorado (na faixa Sorry, a tão falada referência a "Becky with the good hair" ("Becky do cabelo bom", em tradução livre) não era apenas Bey supostamente enfurecida com a traição do marido — sem dúvida denuncia também a objetificação histórica e marginalização das mulheres negras).

Codificado desta forma, é uma evolução intuitiva lançar seu filme/trilha sonora de 2020, Black Is King, e celebrar, como ela mencionou em seu discurso no Grammy de 2021, "todos os belos reis e rainhas negros que continuam a me inspirar e inspirar o mundo inteiro".

O mérito também deve ser atribuído aos talentos musicais emergentes que incorporam temas codificados em seus trabalhos.

A jovem cantora e compositora londrina Poppy Ajudha cria melodias que comunicam temas e possibilidades mais profundas, a partir de um espírito suave, mas resiliente — do single de 2020 Black Joy. Black Peace. Black Justice à sua versão de Watermelon Man, de Herbie Hancock (nas cenas do clipe, vemos detalhes de fundo incluindo cartazes de protesto — "FIM DO RACISMO SISTÊMICO" — no quarto de Poppy).

"A música deveria falar dos tempos. Minha música fala sobre o que está acontecendo agora", diz Ajudha à BBC Culture.

"Um artista contemporâneo deveria escrever sobre o que está acontecendo no mundo, porque isso é um marcador da história; você não pode apagar uma música que as pessoas amam. Grande parte da história é apagada, mas a música pop é subversiva; ela une as pessoas para gerar mudança."

"Quando fui para a universidade e estudei gênero, antropologia e tendências contemporâneas na sociedade, ser encorajada pelo conhecimento de escritores e pensadores incríveis me fez perceber o que eu queria escrever e cantar: sobre feminismo, questões sociais, minha herança mestiça."

"Era sobre identidade, porque isso desempenha um papel tão importante em como nos vemos e como a sociedade nos vê. Acho que isso só cresceu, quanto mais eu escrevia músicas e via como as pessoas reagiam a elas."

"Parecia que estava fazendo as pessoas se sentirem menos sozinhas. Eu percebi: 'É por isso que eu quero fazer isso; é disso que a música se trata' — devemos nos conectar, compartilhar experiências e atravessar a merda juntos."

"Não quero que minha música apenas comente sobre como as coisas são difíceis, quero que (os ouvintes) se sintam capacitados para fazer algo, independentemente do que o mundo diga a eles, para mudar as dificuldades que enfrentam."

Em faixas como Strong Woman, Ajudha também argumenta que há uma força codificada ao expressar desafios pessoais:

"Artistas carregam muitas emoções; permitimos que as pessoas sejam vulneráveis ​​por meio da nossa vulnerabilidade. É uma espécie de bênção e maldição; significa que somos muito dramáticos, mas também significa que conseguimos sentir a plenitude da vida, o que pode ser opressor às vezes, mas também muito bonito."

À medida que o pop contemporâneo se torna cada vez mais globalizado, suas mensagens e conexões codificadas parecem mais abrangentes do que nunca, além da visão de mundo ocidental.

O inglês tem sido tradicionalmente a língua franca da cultura pop mainstream, mas o significado do pop tem mais possibilidades do que nunca para os fãs contemporâneos — quer estejam aprendendo novos vocabulários e perspectivas sociais enquanto seguem suas estrelas favoritas do K-pop, do Afrobeat e da cena latina, por exemplo, ou postando especulações sobre a "mensagem oculta" de Billie Eilish.

"O pop toca no idealismo da juventude; ele aumenta a consciência de gênero, raça, emoção, com elementos que você pode interpretar como quiser", avalia Kadis.

"O fato de que isso se traduz em todo o mundo, em diferentes idiomas e culturas — esse é o poder da música pop."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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