Como Trump está remodelando a Casa Branca à sua imagem

Ilustração mostra a Casa Branca inteiramente dourada, cercada por uma moldura ornamentada de ouro com arabescos detalhados, sobre um fundo vermelho vivo. Uma bandeira dos Estados Unidos aparece no topo do edifício.

Presidentes vão e vêm, mas a Casa Branca permanece como símbolo constante do poder e da tradição americana. Será?

No mês passado, equipes demoliram partes do edifício icônico que existiam havia mais de 120 anos, enquanto o plano do presidente americano, Donald Trump, para construir um novo salão de baile começava a sair do papel.

As dramáticas imagens da Ala Leste sendo reduzida a escombros foram, até agora, o sinal mais visível de como Trump busca remodelar a Casa Branca à sua imagem, quase um ano depois de ser reeleito presidente dos Estados Unidos.

É um dos edifícios mais famosos do mundo, mas, de repente, a Casa Branca parece bem diferente.

A Ala Leste, tradicional residência da primeira-dama e de sua equipe, além da Colunata Leste, foram demolidas.

No lugar, será erguida uma estrutura muito maior — uma nova colunata e um salão de baile com capacidade para quase mil pessoas.

Críticos temem, porém, que o novo prédio de 8.400 metros quadrados ofusque a residência da Casa Branca, que tem 5.100 metros quadrados.

Entre os que manifestaram preocupação está Carol Quillen, presidente do National Trust for Historic Preservation, organização sem fins lucrativos que protege locais históricos dos EUA. Ela enviou uma carta a autoridades da Casa Branca pedindo a suspensão das obras de demolição até que os planos passem por um processo de revisão pública.

Quillen disse estar “profundamente preocupada” com o risco de o novo prédio “ofuscar a Casa Branca e comprometer de forma permanente o equilíbrio do desenho clássico do edifício, com suas duas alas menores e mais baixas, Leste e Oeste”.

Poucos dias depois de Quillen enviar a carta, a Ala Leste já havia sido completamente demolida.

Máquinas pesadas demolindo parte da Ala Leste e da Colunata Leste da Casa Branca. Entulho e blocos quebrados cobrem o chão, com tijolos expostos e vigas aparentes onde a parede foi derrubada. Uma escavadeira e um carregador compacto trabalham entre os destroços, enquanto operários com coletes refletivos acompanham o serviço. Cercas e grades de segurança isolam a área, e as partes restantes da fachada da Casa Branca aparecem ao fundo.
Equipes trabalhavam na semana passada para remover o que restou da passarela da Colunata Leste

Artefatos históricos que estavam no edifício foram “preservados e armazenados” pela White House Historical Association, organização independente responsável por conservar a história da residência presidencial.

O grupo informou também ter realizado “um amplo projeto de digitalização e registro fotográfico para criar um arquivo histórico” antes da demolição.

Mas as imagens das máquinas pesadas derrubando o prédio, construído em 1902, provocaram surpresa, choque e até indignação entre muitos americanos, sobretudo porque o próprio Trump havia afirmado que as obras não afetariam a estrutura existente.

Em anúncio dos planos para o salão de baile em julho
[O salão de baile] não vai interferir no edifício atual, ficará próximo, mas sem tocá-lo, e demonstra total respeito pela construção existente, da qual sou o maior admirador
Donald Trump
Em anúncio dos planos para o salão de baile em julho
Vista aérea do terreno da Casa Branca mostra o canteiro de obras no local onde ficava a Ala Leste. A área está sinalizada em vermelho com a indicação “Antigo local da Ala Leste”. Ao redor, aparecem árvores com folhagem de outono, prédios governamentais próximos e, em primeiro plano, o edifício principal da Casa Branca.

Depois que a demolição começou, no entanto, Trump afirmou que a Ala Leste precisava ser completamente derrubada “para ser feita do jeito certo”, e disse que a decisão foi tomada após “um extenso estudo com alguns dos melhores arquitetos do mundo”.

Segundo Trump, o salão de baile é algo com que “todos os presidentes sonharam por mais de 150 anos” e será “o mais belo salão de baile do mundo”.

O governo diz que o novo espaço eliminará a necessidade de instalar “uma grande e desagradável tenda” para eventos de gala, como jantares de Estado. Um ex-chefe de cozinha da Casa Branca observou que preparar refeições para eventos ao ar livre pode ser muito difícil para a equipe.

“Ninguém gosta de falar sobre essa parte, a menos que esteja lá fora, atolado na lama”, disse Martin Mongiello, hoje historiador da Casa Branca, à BBC. “Pode ser um pesadelo. Um pesadelo lamacento e imundo.”

Foto mostra Donald Trump segurando uma grande imagem impressa do projeto do interior do salão de baile. O desenho inclui janelas altas em arco, tetos com caixotões ornamentados e molduras douradas, lustres e mesas redondas com cadeiras e arranjos florais.
Trump apresenta a jornalistas a ilustração de como será o interior do salão de baile

Trump estimou o custo do projeto em cerca de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,35 bilhão) e espera concluí-lo antes do fim de seu mandato. Segundo ele, a obra está sendo financiada pelo próprio presidente e por outros doadores que incluem dezenas de empresas, entre elas Amazon, Google e Meta, além de vários investidores bilionários.

O modelo de financiamento gerou preocupação entre juristas, que afirmam que ele pode representar uma forma de “pagar por acesso” ao governo. Ainda assim, a polêmica dificilmente vai frear o desejo de Trump de deixar sua marca na Casa Branca.

 

Um verdadeiro buraco'

A relação de Trump com o número 1.600 da avenida Pensilvânia sempre foi complicada. Durante o primeiro mandato, ele teria descrito a Casa Branca como “um verdadeiro buraco” e costumava se refugiar em Mar-a-Lago, a mansão e clube de luxo que possui em Palm Beach, na Flórida.

No segundo mandato, porém, ele parece decidido a abraçar a residência histórica e moldá-la à sua imagem.

O primeiro sinal dessa ambição veio com a reforma do Salão Oval, que transformou um espaço antes discreto em uma exibição suntuosa de detalhes dourados e móveis ornamentados.

O contraste com a decoração preferida por seus antecessores recentes, e até durante o primeiro mandato, é marcante.

Donald Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, sentam-se no Salão Oval acompanhados de seus assessores. A sala tem paredes em tom creme com detalhes dourados ornamentados e é decorada com diversos retratos de figuras históricas em molduras douradas. Duas luminárias brancas ficam ao lado de uma lareira adornada com peças decorativas douradas e um busto preto. O teto exibe molduras trabalhadas e uma borda dourada.
Trump em 2025
Joe Biden se reúne com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no Salão Oval. Os dois estão sentados em poltronas bege diante de uma lareira branca. A sala tem paredes no mesmo tom, decoradas com cinco grandes retratos de figuras históricas dispostos simetricamente. Sobre a lareira, há uma planta verde, e o chão é coberto por um tapete colorido com o selo presidencial. Mesas laterais de madeira, com luminárias e documentos, acompanham as poltronas.
Biden em 2024
Donald Trump se reúne com o primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, no Salão Oval. Os dois estão sentados em poltronas amarelas diante de uma lareira branca. A sala tem paredes em tom creme com padrão decorativo, adornadas com três retratos de figuras históricas e ladeadas por altas bandeiras militares em suportes dourados. Sobre a lareira, há uma planta verde, e duas grandes luminárias brancas, apoiadas em mesas laterais de madeira, iluminam o ambiente suavemente.
Trump em 2018
Barack Obama se reúne com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. Os dois estão sentados em poltronas de couro marrom diante de uma lareira branca. A sala tem paredes em tom creme com listras verticais douradas e é decorada com obras emolduradas — um retrato central acima da lareira e duas paisagens laterais. Sobre o aparador, há uma planta verde, e duas luminárias azul e branca, apoiadas em mesas laterais de madeira, iluminam o ambiente suavemente.
Obama em 2015
George W. Bush se reúne com o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Os dois estão sentados em poltronas listradas e apertam as mãos diante de uma lareira branca. A sala tem paredes em tom creme suave e é decorada com obras emolduradas — um retrato central acima da lareira e duas paisagens laterais. Sobre o aparador, há uma planta verde ladeada por dois bustos escuros sobre mesas laterais de madeira. Duas grandes luminárias brancas com bases douradas iluminam o ambiente com luz quente.
Bush em 2008

Trump disse que a decoração foi feita com “ouro 24 quilates da mais alta qualidade” e afirmou em sua rede social, a Truth Social: “Líderes estrangeiros, e todo mundo, ficam impressionados quando veem a qualidade e a beleza. O melhor Salão Oval de todos os tempos, em sucesso e aparência!!!”

Nem todos, porém, estão impressionados. Tommy Landen Huerter, designer de interiores baseado em Nova York cujas publicações sobre as mudanças viralizaram nas redes sociais, acredita que Trump, que também atuou como empresário no setor imobiliário, está “impondo” à Casa Branca os padrões de design de muitos de seus hotéis.

“Todo esse dourado e a ornamentação são muito barrocos. Foi algo aplicado a um lugar onde realmente não pertence”, disse Huerter à BBC. Ele acrescentou que esses elementos de aparência palaciana foram deixados de fora do projeto original da Casa Branca de forma intencional, para enfatizar que os Estados Unidos não são uma monarquia.

Detalhe de uma porta ornamentada no Salão Oval mostra acabamentos dourados. O design inclui um frontão triangular com um motivo decorativo dourado no centro, uma fileira de rosetas abaixo e o que parecem ser números romanos “XIX” em dourado sobre um painel branco. Ao redor da moldura, há arabescos dourados intrincados sobre uma parede clara com textura.
Ornamentação dourada foi adicionada recentemente em torno de uma das portas do Salão Oval

O tema dourado se repete em outras áreas da Ala Oeste da Casa Branca. A sala do gabinete recebeu decorações semelhantes nas paredes, enquanto Trump apresentou recentemente o novo “Caminho da Fama Presidencial”, com retratos de ex-presidentes dos Estados Unidos em molduras douradas.

Os retratos ocupam a Colunata Oeste, principal passagem entre a ala oeste e a residência da Casa Branca, e mostram todos os presidentes em ordem cronológica, com exceção de Joe Biden.

No lugar de um retrato em homenagem ao rival, a moldura exibe a imagem de um Autopen — dispositivo mecânico usado para reproduzir assinaturas, como se fosse uma “caneta eletrônica” — assinando o nome de Biden. Trump já acusou o ex-presidente de ter usado um Autopen para assinar documentos importantes durante seu mandato, alegando que ele não tinha condições de fazê-lo pessoalmente, embora nunca tenha apresentado provas dessa afirmação.

Vídeo mostra a Colunata Oeste da Casa Branca com o chamado “Caminho da Fama Presidencial”. O longo corredor branco é decorado com retratos em preto e branco de presidentes dos Estados Unidos em molduras douradas ornamentadas, dispostos em uma única fileira ao longo da parede. Acima dos quadros, há detalhes decorativos dourados, e o corredor é iluminado por luzes instaladas no teto.
O “Caminho da Fama Presidencial”

A Colunata Oeste dá vista para o Jardim das Rosas, que também passou por mudanças significativas nos últimos meses. Originalmente um pátio de estábulos, o espaço é conhecido como Jardim das Rosas há mais de 100 anos e foi redesenhado para sediar eventos durante o governo de John F. Kennedy (1961-63).

Coletivas de imprensa são realizadas ali há décadas, com o púlpito presidencial e fileiras de cadeiras dispostas sobre a grama, mas Trump não era fã do formato, dizendo que “todo mundo afundava na lama”.

No verão, o jardim foi escavado e substituído por um pátio de “belas pedras brancas”.

O Jardim das Rosas da Casa Branca na primavera, com grama verde e sebes aparadas. Magnólias cor-de-rosa em plena floração emolduram a cena, com a colunata branca e o edifício principal ao fundo sob um céu azul claro.
Março 2025
O Jardim das Rosas da Casa Branca, no fim do verão, montado com assentos ao ar livre. Mesas e cadeiras brancas de metal estão dispostas sobre um pátio de pedra clara, sombreado por grandes guarda-sóis listrados de amarelo e branco. Sebes bem aparadas contornam o jardim, com rosas brancas floridas e uma bandeira americana ao fundo.
Agosto 2025

Uma bandeira dos EUA em destaque tremula sobre o renovado Jardim das Rosas, um dos dois novos mastros instalados em junho, com 30,5 metros de altura, pagos pelo próprio presidente.

Usuários da internet notaram que o novo jardim pavimentado lembra o pátio da piscina de Mar-a-Lago, e que a semelhança não é coincidência.

Os guarda-sóis amarelos e brancos são fabricados pela mesma empresa que fornece os usados no clube de praia de Trump, na Flórida, e a Casa Branca agora passou a chamar o espaço de Rose Garden Club.

Questionado se estava feliz com a reforma, Trump disse que ela teve “ótimas avaliações”, sem especificar de quem.

Área externa da piscina do clube de praia de Mar-a-Lago, com vista para o oceano. A cena mostra uma grande piscina de formato irregular cercada por espreguiçadeiras e mesas brancas sob guarda-sóis listrados de amarelo e branco. Palmeiras contornam o terreno, e o mar azul-turquesa aparece ao fundo. Um edifício de estilo mediterrâneo, com paredes brancas de estuque e telhado de cerâmica vermelha, fica próximo à piscina.
Piscina do clube de praia de Mar-a-Lago, com os mesmos guarda-sóis usados no novo Jardim das Rosas

Trump tem outras reformas planejadas para a Casa Branca? “Não que eu saiba”, disse a porta-voz Karoline Leavitt à BBC. “Mas ele é um construtor por natureza. E o coração e a mente dele estão sempre pensando em como melhorar as coisas.”

 

‘Arco de Trump'

Embora as obras na Casa Branca devam terminar após a conclusão do salão de baile, Trump sinalizou a intenção de continuar ampliando seu legado em outros pontos de Washington D.C., capital dos EUA.

No mês passado, Trump revelou planos para construir um arco do outro lado do rio Potomac, em frente ao Memorial Lincoln, no centro da capital americana, em comemoração aos 250 anos da independência dos Estados Unidos, que será celebrada no próximo ano.

Donald Trump, de terno escuro e gravata vermelha, aparece em um púlpito com o emblema de uma águia dourada, segurando uma maquete branca do arco neoclássico.
Trump apresentou o modelo do arco no mês passado
Close-up mostra uma maquete branca do “Arc de Trump” (“Arco de Trump”), colocada sobre um mapa de jardins planejados. O projeto inclui um arco central ladeado por dois menores, com detalhes ornamentados e uma figura alada no topo da estrutura. A maquete está sobre uma base circular, de onde partem caminhos em diferentes direções.
A construção será coroada por águias e uma estátua alada

Durante um jantar com doadores do projeto do salão de baile, Trump disse que há três versões do arco em estudo — pequena, média e grande —, mas que prefere a maior.

A Casa Branca não divulgou detalhes sobre quando as obras devem começar nem quanto o projeto deve custar, mas Trump afirma que a construção seria financiada por doações privadas.

Também não está claro se o monumento ficará pronto a tempo das comemorações do aniversário de 250 anos da independência, em 2026. O que se sabe, porém, é que, enquanto a maioria dos presidentes americanos tenta construir um legado político, Trump faz isso no sentido mais literal possível.

Modelo 3D criado por Matt Faraci. Os planos detalhados do salão de baile ainda não foram divulgados pela Casa Branca. O modelo foi desenvolvido a partir da análise de renderizações arquitetônicas, fotografias e imagens de satélite disponíveis publicamente.

Créditos de imagem:

White House/McCrery Architects, Eric Lee/Getty Images, Al Drago/Getty Images, Aaron Schwartz/CNP/Bloomberg, Mandel Ngan/AFP, Saul Loeb/AFP, Guido Bergmann/Bundesregierung, Ken Cedeno/Reuters, Stefani Reynolds/EPA/Shutterstock, Alex Wong/Getty Images, Anna Moneymaker/Getty Images, Alex Brandon/AP Photo/Bloomberg, Davidoff Studios/Getty Images, Jim Lo Scalzo/EPA/Bloomberg.